Entenda os caminhos para uma adaptação escolar mais gentil

Saiba quais as melhores maneiras de dar início à vida escolar da criança de forma respeitosa, tanto para o pequeno quanto para os pais.

Por Ketlyn Araujo 15 fev 2022, 16h44

Qualquer processo de mudança provoca desconforto, seja para crianças ou adultos. Quando falamos sobre o início da vida escolar, por mais que cada família tenha as suas particularidades, a fase costuma gerar incômodo tanto para o pequeno, que precisa aprender a passar menos tempo em casa, quanto para os pais e tutores, que muitas vezes sofrem com a separação.

Isso ficou ainda mais em evidência desde que a pandemia de Covid-19 começou: com as crianças passando mais tempo em casa e a volta do ensino presencial adiada múltiplas vezes, escolas também tiveram de fazer mudanças em prol de uma educação mais humanizada e constante comunicação com as famílias.

É o que fala Silmara Ribeiro Moreira, coordenadora pedagógica da Escola Itamarati (Ribeirão Preto, SP). Para ela, a pandemia fez com que as escolas passassem por um momento de readaptação ao novo cenário, entendendo a necessidade de reestruturar rotinas, currículos, espaços, dinâmicas e construções de saberes. O acolhimento, opina, passou a ter um novo objetivo, compreendendo a necessidade de um olhar mais cuidadoso para o desenvolvimento e aprendizagem, principalmente de crianças pequenas. Com essas mudanças, a postura dos professores e a mediação realizada nos espaços escolares também apresentou melhora.

Mesmo com essa virada de chave por parte de algumas instituições, a adaptação escolar continua tendo suas dificuldades e precisa acompanhar as mudanças da sociedade. A boa notícia é que hoje já se discute muito mais sobre como fazê-la de maneira respeitosa, entendendo o tempo da criança e a necessidade dos pais e responsáveis. 

Trabalhar a culpa é primordial

Helen Mavichian, psicoterapeuta especializada em crianças e adolescentes e mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, diz que a separação, seja qual for, é sempre um processo angustiante, tanto para a criança quanto para a família. Isso porque, ao entrar na escola, o pequeno vivencia pela primeira vez o distanciamento da família e a não-exclusividade, já que tem de dividir a atenção dos adultos com outras crianças – é sabido, porém, que os pequenos crescem de maneira mais saudável quando convivem com outros.

Antes de tomar qualquer atitude prática, pais e tutores precisam trabalhar sentimentos que dizem respeito somente a eles, como a culpa, para que essas emoções não influenciem no processo de adaptação da criança.

“A segurança dos adultos será a segurança da criança. Isso é de extrema importância quando falamos sobre adaptação escolar, considerando que crianças sentem aquilo que seus pais estão sentindo no momento em que chegam na escola. Se esses sentimentos forem medo, insegurança e incertezas, a criança também tende a apresentá-los”

Helen Mavichian, psicoterapeuta especializada em crianças e adolescentes e Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento

“Lembre-se de que antes de confiar seu filho ao colégio você pesquisou e ponderou muito e, por isso, é preciso confiar no ambiente no qual decidiu deixar a criança”, aconselha Helen. O diálogo constante entre escola e tutores, complementa Silmara, também é primordial nesta etapa, já que é por meio de muita conversa e da possibilidade de participação dos pais nesse processo que a parceria entre colégio e família é estabelecida.

Para a psicopedagoga Thainara Morales, da clínica Arte Psico, olhar para a situação de maneira racional, por mais que seja difícil, é mais uma maneira de lidar com o sentimento de culpa, mesmo diante da tristeza por conta da separação, que é algo natural e esperado.

Adaptar-se à nova rotina é saudável

Com muitos pais trabalhando em regime home office, a adaptação escolar, naturalmente difícil para ambas as partes, fica ainda mais complexa, já que podem surgir sentimentos de dúvida nos pequenos: ‘por que eu preciso ir para a escola se meus pais estão em casa?’. Para evitar isso, estabelecer uma rotina familiar na qual a criança compreenda exatamente o que está acontecendo é fundamental. Segundo a psicoterapeuta, a criança também precisa saber que o papai ou a mamãe estão deixando-a naquele espaço, mas que vão voltar para buscá-la.

É necessário lembrar, ainda, sobre o quanto é saudável que a criança sinalize seu estranhamento com a nova rotina escolar, e que, na maioria dos casos, o choro inicial tende a se transformar em um interesse pelas brincadeiras e partilha das novas vivências com os coleguinhas. Não estranhe, também, caso a sua criança não chore ao ser deixada na escola, pois cada uma passa por um processo individual de adaptação.

“A ausência do choro não significa que a criança não esteja sentindo a separação, elas sempre sentem o processo de adaptação. Contudo, ao perceberem que todos os dias acontece a mesma coisa (rotina) e que a família vem buscar sempre no mesmo horário, ela para de chorar”, explica.

Todo esse processo, seja ele difícil ou mais tranquilo, deve ser visto como algo natural e parte da infância, e o cuidado durante a fase de adaptação, que representa o momento da inserção dos pequenos à vida em comunidade, é essencial.

Visitas às escolas em potencial, conversas com professores e uma observação atenta do ambiente que será frequentado pelos filhos são ações válidas por parte dos responsáveis, que devem sentir a já mencionada segurança em deixar a criança na escolinha. Após a escolha é que vem o preparo psicológico por parte dos adultos, sem projetar os sentimentos de abandono e desespero no pequeno.

Para amenizar a ansiedade dos filhos (e dos pais!)

Mulher de costas carregando criança usando máscara

Algumas medidas podem ser tomadas na intenção de trabalhar a ansiedade de separação sentida pela família, sendo a principal delas o diálogo sincero entre as partes: pais e responsáveis devem conversar com o filho sobre a ida para a escola, mencionando todas as vantagens que isso implica, como brincadeiras, novas amizades, atividades interessantes e aprendizado.

Thainara acrescenta que existem mais formas de fazer a criança compreender o momento pelo qual está passando. A contação de histórias, por exemplo, é um excelente recurso para ajudar crianças pequenas a entenderem a adaptação escolar, bem como auxiliá-los na resolução dos problemas que possam surgir. Já para os bebês, o ideal é uma adaptação gradativa, com os pais presentes na escola e orientações focadas no acolhimento.

Para os maiorzinhos, além da elaboração da rotina e diálogo, a família também pode adotar as seguintes dicas para amenizar a ansiedade de todos:

  • Envolver a criança nos preparativos para as aulas, como separar os itens da mochila e o uniforme;
  • Transmitir segurança através de conversas dentro do entendimento de cada idade;
  • Demonstrar interesse sobre o início do ano letivo;
  • Ter bastante paciência com as possíveis mudanças de comportamento;
  • Gerenciar as muitas expectativas no pequeno durante a primeira semana na escola, já que pode causar frustração na criança;
  • Evitar chorar na frente dos filhos e não fazer comentários sobre a adaptação da criança na presença dela.

“A família também precisa se adaptar, e é importante que neste momento os demais aspectos da rotina da criança sejam mantidos. Evite iniciar a retirada da chupeta, de brinquedos e o desfralde, por exemplo e, antes do início das aulas, passe com a criança em frente à escola, pare, olhe os detalhes, ouça seus comentários”, sugere a psicopedagoga.

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A escola deve ser uma aliada

Para que a transição dos pequenos para a escola ocorra de forma saudável, é importante não apenas que a família tome as providências já citadas, mas que as instituições também atuem de acordo. “Para que haja segurança e acolhimento neste processo, a escola deve ser empática e receptiva com a família.

“Toda a adaptação deve ser planejada pela coordenação, de forma tranquila e prazerosa para a criança. O vínculo é um processo sutil, que proporciona uma troca profunda e vai muito além de ser algo traumático ou superficial, então a adaptação necessita de ser um trâmite passivo, seguro e compromissada com a autonomia e preservação da saúde mental da criança”, reforça Thainara.

Para Silmara, é papel da escola convidar os pais para um diálogo inicial, a fim de que todo o processo que irá acontecer durante a adaptação seja explicado. Quando os responsáveis são orientados a partir da mediação da equipe é iniciado um elo de confiança entre escola e criança, e escola e família.

Antes de chegar na instituição, a referência da criança é a família. O espaço ainda não está apropriado e as professoras não têm o vínculo necessário para a efetivação dessa adaptação. Entendemos, portanto, que a instituição precisa possibilitar essa abertura para uma adaptação efetiva, sempre com o objetivo de entender a criança em sua integridade”, acrescenta.

Entenda os erros – da escola e dos pais – na adaptação

Quando perguntada sobre quais seriam os principais erros que as escolas costumam cometer quando realizam o processo de adaptação, Helen cita o ato de orientar os pais a irem embora escondidos dos filhos. Para ela, é importante que os responsáveis se despeçam da criança e avisem que logo irão retornar para buscá-la, mas não que “desapareçam”. Em caso de choro, reforça, a despedida deve ser rápida e com segurança, sempre avisando que voltarão em breve.

“Outro erro grave [que os profissionais da escola cometem] é o de pensar que o processo não vai ser com choro, o que na hora da separação é mais do que comum. Geralmente, o choro é uma forma da criança dizer aos familiares que, se tivesse a opção, preferiria ficar com eles – sono, fome e cansaço também são motivos para que a criança chore na hora da separação, e não queira ficar na escola”, explica.

Já para Thainara, não investir no treinamento de pais, ou seja, falhar em orientar os responsáveis sobre como será o processo de adaptação (e como eles devem agir durante esse período) é um erro grave. Além disso, não contar com um planejamento de rotinas bem estabelecidas e com regras claras, cobrar a criança excessivamente, com métodos ultrapassados e muitas tarefas, não formar vínculo com a turma de alunos e com as famílias e não promover ou intervir no desenvolvimento das habilidades sociais dos pequenos também costumam resultar em problemas.

“Uma comunicação pouco assertiva com a família, a falta de acolhimento, não ter informações sobre o histórico da criança, contar com um espaço inadequado para recebê-las, não alinhar com a equipe de professores o processo de adaptação e não proporcionar suporte e apoio para as famílias em relação às dúvidas que surgem ao longo do processo são descuidos. É importante entender a criança a partir das suas singularidades, cultura e história, compreendê-la integralmente”, avalia Silmara.

Checklist dos pontos positivos

Bebê no berçário pela primeira vez - adaptação escolar
targovcom/Thinkstock/Getty Images

Para Thainara, a instituição está no caminho certo quando investe em campanhas para a promoção da saúde mental dos pequenos, quando conta com profissionais formados em psicologia positiva dentro do corpo docente e quando realiza eventos e medidas capazes de trazer as famílias para perto da instituição.

Veja outras ações que podem ser bons indícios de que a escola se preocupa com uma adaptação respeitosa:

  • A coordenação se interessa em saber o histórico da criança, desde a gestação até o momento de entrada na escola, considerando a vida familiar e a rotina dela fora do colégio;
  • A instituição tem questionários adequados e prepara espaços da escola para a recepção da criança e da família;
  • Existe um planejamento educacional de acordo com a faixa etária;
  • A escola possui estratégias – e deixa claro para os pais quais serão – preparadas para quando a criança ficar longe da família, bem como o acolhimento e a observação das necessidades de cada uma delas, a partir de uma mediação focada no fortalecimento emocional;
  • Há uma adaptação de maneira gradativa, na qual a criança passa poucas horas na escola até estar familiarizada com o ambiente, coleguinhas e professores.
  • Existe a possibilidade dos pais estarem presentes na escola durante esse período, mas em um ambiente que não seja o mesmo da criança. Assim, eles conseguem vê-la de fora, enxergando, na prática, como a adaptação vem sendo feita.

“Eu acredito na mudança das escolas para melhor. Sou otimista quando penso que hoje elas estão repensando espaços e redefinindo as prioridades pedagógicas. O aluno não é mais visto apenas como uma meta da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), mas como um ser humano, cheio de emoções e sentimentos que devem ser levados em consideração. Nunca na história das escolas foram tão faladas e trabalhadas as questões socioemocionais, fundamentais para o desenvolvimento de qualquer indivíduo”, agrega Helen.

Quando é preciso buscar ajuda

Cada indivíduo passa por um processo particular de adaptação escolar, ainda mais após a pandemia, que abalou emocionalmente muitas crianças e adolescentes. Por isso, Helen considera que alterações comportamentais são algo previsto, mas é importante que familiares e profissionais estejam atentos a comportamento que possam representar algo mais grave.

Entre eles estão mudanças significativas de humor, que duram mais do que alguns dias, como falta de energia, afastamento dos amigos e choro constante. Explosões emocionais que parecem não ter motivo para tal, apatia, tristeza, terror noturno, sonolência, grave agitação e alterações no peso (sejam elas representadas por ganhos ou perdas) também podem ser consideradas bandeiras vermelhas, já que o apetite geralmente é afetado quando questões psicológicas latentes estão em curso.

Em qualquer um desses casos, a ajuda profissional adequada é mais do que bem-vinda, sendo a terapia comportamental recomendada, assim como psicoterapia individual e familiar. O tratamento, explica Thainara, tem o objetivo de capacitar as crianças a retornarem à escola assim que possível.

“Em geral, o período inicial da adaptação da criança dura de duas semanas a um mês, mas tudo depende dela, da família e de suas experiências anteriores relacionadas às separações que enfrentou na vida – sabemos que a maioria das crianças sente alguma ansiedade de separação, mas ela em geral desaparece com o tempo ou em semanas, por isso são importantes o apoio familiar e o equilíbrio emocional dos pais na adaptação de seus filhos”, enfatiza.

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