Especialistas respondem aos maiores medos dos pais com a volta às aulas

Como manter o distanciamento social entre os pequenos? A qualidade do ensino será prejudicada? E se meu filho transmitir a doença?

Depois de meses com as portas fechadas, escolas por todo o país planejam a sua reabertura. Em São Paulo, por exemplo, o retorno às aulas presenciais está previsto para dia 8 de setembro, de forma gradual e adotando o sistema de rodízio, em que inicialmente apenas 35% dos alunos irão ao estabelecimento por vez. Veja todas as diretrizes anunciadas pelo governo paulista para a volta das instituições escolares.

Exemplos de outros países também mostram como as estratégias para receber as crianças são heterogêneas e dependem de cada organização e de como a região está atuando para conter o avanço do novo coronavírus. Mesmo no melhor dos casos, porém, sabemos que ainda vivemos em uma situação de pandemia e enviar os filhos para a escola – principalmente os menores – desperta muitos medos e inseguranças nos pais.

Afinal, como garantir que os pequenos irão seguir as medidas de segurança? E se trouxerem o vírus para a casa, infectando a família? Pensando nisso, consultamos os pais e separamos os principais receios que eles apresentam em relação à volta às aulas. A fala dos especialistas da área pode esclarecer algumas das dúvidas, mas adiantamos que, por ser um cenário totalmente novo, muitas delas continuam sem solução – e exigem paciência e adaptação de ambas as partes.

Como manter o distanciamento em crianças pequenas?

A tarefa é praticamente impossível, e os próprios governos reconhecem esta dificuldade. No plano de reabertura das escolas de São Paulo, a proposta é que todos devem manter uma distância de 1,5 metro, “exceto na educação infantil, onde o contato com a criança é fundamental”. 

“Estamos falando de crianças pequenas, que aprendem através dos sentidos – do olfato, do tato, do paladar… Como garantir o afastamento, se ela já está acostumada a transitar na escola segurando na mão do amigo ou da professora?”, questiona Rita Oliveira, pedagoga e mestre em Educação e Currículo pela PUC- SP.

De acordo com ela, quando falamos em primeira infância, a principal função da escola é a de socialização, e por isso a relação com os colegas se faz tão importante. “Até a faixa etária de 5,6 anos, as crianças convivem muito em conjunto. Sem toque, sem interação, você arrisca a construção da subjetividade”, explica a especialista.

Como garantir o uso de máscaras correto e durante tanto tempo?

Novamente, embora na teoria a utilização de máscaras seja obrigatória em todas as dependências da escola, sabemos que na prática garantir seu uso adequado é uma tarefa complicada, e que depende muito da faixa etária e da capacidade de entendimento de cada criança.

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“É inviável afirmar que as crianças não vão colocar a mão na boca ou na frente da máscara… Essa possibilidade espanta os pais e é real, pois não tem como o educador se comprometer a cuidar 100% desta questão”, diz a pedagoga. Vale lembrar que o uso das máscaras não é indicado para menores de dois anos e pode ser difícil manter mesmo os maiores durante tanto tempo com o utensílio no rosto.

“Se [o uso de máscaras] não for viável do ponto de vista do desenvolvimento, como é o caso dos estudantes mais novos, e não puder ser feito seguramente (por exemplo, quando a pessoa que está com a máscara toca mais no rosto do que o faria sem o acessório), as escolas podem escolher não exigir o uso quando as medidas de distanciamento puderem ser implementadas efetivamente”, aponta o documento da Academia Americana de Pediatria, que foi divulgado no fim de junho com orientações para a reabertura das escolas.

Mas então como a escola pode garantir alguma segurança?

Segundo a pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria, Dra. Flávia Oliveira, é importante lembrarmos que a escola nunca foi um ambiente isento de riscos. “Mesmo antes da pandemia, muitos pais já mandavam seus filhos doentes para a escola – com febre, com tosse e espirrando. Por um lado, o momento será benéfico para criar a consciência coletiva de que nunca é adequado mandar as crianças doentes para a escola”, afirma.

Mas isso não significa que estratégias de segurança não possam ser tomadas – tanto da parte das instituições quanto dos pais. “Com medidas de higienização, uma orientação firme e ativa dos professores, de outros funcionários e dentro de casa – sobre a lavagem das mãos e o uso correto da máscara – a chance de transmissão do vírus é baixa, principalmente se as crianças estiverem saudáveis ou assintomáticas”, esclarece a pediatra.

Neste sentido, a identificação dos sintomas nos pequenos ganha ainda mais relevância, como explica o Dr. Francisco Ivanildo, infectologista pediátrico do Sabará Hospital Infantil. “É necessário orientar muito bem os pais e os profissionais em relação ao reconhecimento de sinais que possam estar relacionados ao coronavírus. Para que os pais, uma vez identificando, não levem a criança doente para a escola”, alerta.

E não basta apenas usar o termômetro a seu favor, viu? Embora a medição de temperatura seja importante, o médico reforça que o quadro deve ser considerado como um todo. “Não adianta apenas tirar a temperatura na porta da escola sem perguntar se o aluno não está tossindo, se não teve diarreia… São manifestações pouco frequentes nos adultos, mas que podem aparecer nas crianças“, indica Francisco.

Ele ainda aponta como possibilidade plausível a redução do número de alunos em cada turma, como o já previsto no plano de ação do estado de São Paulo, de forma com que os pequenos realizem atividades entre si e com professores fixos, diminuindo a chance de transmissão da doença dentro da escola.

As crianças voltarão com o desenvolvimento “atrasado”?

Algumas escolas optaram pelas aulas à distância, outras preferiram enviar atividades para serem feitas em casa… Mesmo que o contato dos pequenos com o ensino não tenha sido interrompido totalmente, ficar afastado do ambiente pedagógico dos professores e amigos tem os seus prejuízos e muitos pais se preocupam se o filho retornará à escola “atrasado” do ponto de vista do desenvolvimento.

Para a pedagoga, mesmo que as brincadeiras com os pais não substituam a troca que é feita com os pares, a criança está exercitando em casa outros tipos de aprendizagem, que também serão benéficas. “Até os três anos, o mais importante é a interação, se a criança está interagindo e tendo contato com experiências de descoberta. Já na faixa de três a cinco anos, ela aprende muito através da exploração. Por isso, é importante deixar que participe das atividades com os professores pela internet, que escute histórias, converse com os coleguinhas…”, recomenda Rita.

E como fica a alfabetização?

Se a preocupação dos adultos é com a alfabetização dos filhos, a pedagoga mais uma vez os tranquiliza com sua fala. “Neste caso, é um processo. Ela vai acontecer naturalmente na criança, basta disponibilizar os recursos necessários, principalmente a interação e o interesse pela leitura. A criança tem que estar motivada para isto”, afirma ela. Assim, por mais que os resultados não sejam colhidos de imediato, o pequeno continua sendo estimulado e no retorno escolar as professoras conseguirão rapidamente estruturar este processo”.

Ainda neste tópico, a especialista em educação lembra que o momento em que vivemos já é por si só um aprendizado. “Não é o formal que temos em sala de aula, mas é igualmente rico. Por exemplo, quando ensinamos o uso de máscaras para proteger o outro, estamos criando uma consciência de cidadania na criança”, comenta.

A qualidade da aprendizagem será prejudicada?

Ainda não é possível prever como será o aproveitamento das aulas nesta nova dinâmica, mas ao que tudo indica haverá uma adequação do conteúdo escolar, para que pontos fundamentais não sejam perdidos, além da adaptação no uso dos espaços das instituições – com mais atividades nos ambientes externos sempre que possível, como recomenda o manual norte-americano.

“O que tem que ser feito é uma reestruturação do nosso currículo, em que os professores se juntarão com as equipes pedagógicas para avaliar o que realmente é essencial para a continuação do aprendizado, para dar conta das lacunas que ficaram, e em seguida implementar os novos conteúdos”, expõe a pedagoga.

Mas as adequações nas disciplinas não significa excluí-las da grade, como mostra Rita. “No caso da educação física, por exemplo, é possível mantê-la sem jogos ou esportes de contato. Os educadores podem ensinar a criança a meditar, para trabalhar com os sentimentos e com a consciência corporal”, sugere.

Como cuidar da questão emocional no retorno às aulas?

Um aspecto que não pode ser deixado de lado é o do cuidado com o psicológico das crianças. Muitos pais observam desde o início do isolamento social, a regressão de alguns comportamentos dos filhos e, mesmo que os pequenos não manifestem com palavras, não há dúvidas de que eles absorvem as angústias e anseios dos cuidadores.

Por isso, na visão da pediatra o retorno às aulas deverá ser regido por espaços de acolhimento e empatia. No que a pedagoga acrescenta que “será um momento de muita escuta – algo que às vezes o adulto tem dificuldade. Este medo que os pais estão sentindo, mesmo que não falem, podem ser captados pelos filhos”, diz.

As crianças ficarão mais expostas ao se alimentar na escola?

Muitas crianças fazem suas principais refeições na escola. Quando possível, o infectologista recomenda que as famílias enviem os próprios lanches de casa, mas adianta que a fiscalização dos alimentos na escola deve ser redobrada. No entanto, comer dentro da instituição não necessariamente implica em maior risco para os pequenos, aponta o especialista.

“Para as crianças menores, a questão da alimentação é importante – porque há a chance de uma beber no copo do colega ou compartilhar comida, por exemplo – mas esta proximidade já vai existir mesmo fora do lanche. Elas não vão ficar mais vulneráveis do que nos outros momentos dentro da sala de aula”, afirma o médico.

E se meu filho for infectado e transmitir a doença para a família?

A possibilidade de as crianças funcionarem como vetores da doença não está completamente eliminada, mas estudos recentes mostram que os pequenos não são quem mais transmite a Covid-19. Ao contrário de outros vírus, como o da gripe, o novo coronavírus parece se comportar de forma diferente, principalmente quando se trata dos menores.

“90% das crianças apresentam quadros leves, moderados ou assintomáticos e nem precisam ir ao hospital. Elas têm sintomas muito variados e geralmente sutis”, ressalta a Dra. Flávia. “Com o uso de máscara e higienização, a chance de uma pessoa assintomática transmitir a doença é pequena –  precisaria de uma proximidade grande e carga viral não seria tão alta”, completa.

Mas, afinal: mandar as crianças para a escola ou mantê-las em casa?

O dilema é real mas, como toda situação delicada, não existe uma resposta única – e é o que enfatiza a pediatra da SBP. “Cada família tem uma dinâmica, uma realidade e possibilidades diferentes. Claro que há uma decisão governamental, que é necessária, mas a decisão individual deve ser levada em conta. Algumas famílias têm a possibilidade de ficar em casa com as crianças até o final do ano, outras não – mas o importante é ter opção”, afirma.

De acordo com ela, o receio dos pais é inevitável, mas também existem outros problemas inerentes ao fato das crianças não frequentarem as escolas, principalmente de ordem psicológica. “A importância do aprendizado presencial é bem documentada, e já existem evidências dos impactos negativos nas crianças por conta do fechamento das escolas”, aponta o documento da Academia Americana. Pesquisas recentes, inclusive, investigam o impacto emocional do isolamento nas crianças.

Enquanto não chega a hora da volta às aulas, cabe aos pais aguardarem o posicionamento da sua cidade e avaliarem a situação com cautela, colocando na balança os prós e contras de enviar os filhos para o ensino presencial, como bem conclui o infectologista. “É possível reduzir ou mitigar os riscos, mas a segurança absoluta não existe. As escolas precisam ser muito transparentes quanto a isso e os pais precisam ter consciência. A escolha deve ser muito bem orientada, avaliando riscos e benefícios”, diz.

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