Entenda por que ter amigos ajuda as crianças a encararem melhor a pandemia

A amizade é a relação mais potente para que pequenos vivam situações que se repetirão quando adultos e aprendam a lidar com elas.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 12 fev 2021, 16h28 - Publicado em 14 fev 2021, 10h00

Voltar a ir à escola, passear a tarde em um parquinho, descer na área aberta do prédio… Além do alívio de poder sair um pouco de dentro de casa após um ano de pandemia, estas situações têm outro fator em comum: são possibilidades únicas das crianças observarem seus pares e interagirem – no momento que se sentirem confortáveis e seguindo as medidas de segurança, claro.

Ainda que seja uma brincadeira momentânea, esta confiança de mostrar quem você é ao outro começa a ser elaborada ainda na primeira infância. Mais tarde, com o amadurecimento emocional e o entendimento de que pessoas não são passageiras, nomeamos este elo como amizade, um dos vínculos mais importantes a serem trabalhados com as crianças, como pontua Fernanda Teles, psicóloga e educadora parental.

“Em essência, amizade é o afeto puro, desinteressado, que se compartilha com o outro e, a partir disso, nasce um relacionamento entre duas crianças que vai ser um solo fértil para que se desenvolva outras habilidades e valores, já que a infância é um laboratório para a vida”, detalha a especialista.

Isso significa que, ao sentir-se seguro para ser quem é dentro de uma relação amigável saudável, a criança começa a experimentar situações que tendem a se repetir quando adultas. Por exemplo, ao sentir-se frustrado, o pequeno pode acabar empurrando o amiguinho. Neste momento, ele vai observar a reação que o outro terá diante da sua atitude e então terá a chance de se desculpar e aprender que aquele jeito não é o melhor para lidar com tais emoções.

Este caminho do desenvolvimento infantil afetivo é gradativo e bonito de ser acompanhado. Entretanto, há um ano, adultos e crianças precisaram repensar como cultivar as amizades em tempos de isolamento social. Foi preciso descobrir como manter-se perto ainda que longe. A saída, como bem sabemos, foi recorrer ao uso da internet.

  • As telas não substituem as trocas presenciais

    As conversas em vídeo, os áudios e as plataformas sociais foram importantes para que os pequenos não perdessem um ano letivo e pudessem ver o rosto de familiares e amigos que sentiam falta.

    Só que Luciana Lima, psicóloga e mestrando em sociologia, explica que este contato online não substitui as trocas que existem na convivência presencial. “O encontro traz uma qualidade para nós, enquanto seres humanos, que nada mais vai proporcionar. Ele é uma experiência em que todos os sentidos estão vivendo aquilo e até mesmo o conceito de tempo muda. Portanto, foi fundamental ter esse recurso de telas, mas não substitui o presencial”, enfatiza a especialista.

    O mesmo é defendido por Fernanda, que lembra da urgência que as crianças têm de expor o que sentem fisicamente, pois não conseguem entender o mundo subjetivo. “Ela quer abraçar, beijar, ficar sentadinha do lado… E essa presença física é muito importante para o fluir do contexto emocional infantil e é algo que não conseguimos nutrir pelo meio online”, pontua.

  • A importância da criação das bolhas

    No uso temporário das telas para manter o mínimo da rotina, a comunidade médica e pais começaram a relatar sinais de que o público infantil está passando por percalços emocionais em decorrência do distanciamento social. A produtora de conteúdo Stephanie Salateo, de 34 anos, cita o comportamento ansioso do seu segundo filho, Caetano, de três anos, em relação a mais velha Alice, de sete.

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    Com apenas os dois em casa, o significado de amizade foi sendo construído inicialmente entre eles. Só que a partir do momento que a primogênita não se mostrava disponível para brincar o tempo todo, inconscientemente, o mais novo tentava encontrar recursos para suprir a falta que sentia dela. “Ele passou a querer comer o dia inteiro, abria a geladeira e pedia um lanchinho e essa vontade era sempre de tarde, no horário que a Alice estava em aula”, lembra Stephanie.

    Com a flexibilização da quarentena, a mãe colocou em prática o que tem sido incentivado por profissionais da saúde para ajudar crianças a contornarem os desníveis emocionais: a criação de bolhas com pares específicos, para controlar a possível transmissão da covid-19.

    Ao fazer isso, a tendência é que os pequenos consigam encher o que Fernanda chama de “copo dos afetos”. “Quanto mais ele estiver cheio, mais as crianças têm um solo fértil para que a aprendizagem ocorra de maneira natural, apresentem menos desafios comportamentais e para que elas consigam colaborar na dinâmica familiar. E a amizade preenche muito este copo, fazendo com que elas se sintam pertencentes a um grupo, amadas e ouvidas”, enumera a educadora parental.

    Stephanie observou esta mudança positiva em flexibilizações sutis que a família adaptou. Por exemplo, Alice e Caetano voltaram a ver alguns primos e também tiveram contato com outras crianças em áreas abertas do prédio que moram.

    “É muito notável a animação dos dois quando vamos visitar meu pai, ou quando saímos para passear em uma pracinha. Às vezes, no térreo do prédio, quando tem alguma criança, eles acabam brincando com distanciamento, de máscara e ficam bem mais animados por isso. E esse estado emocional de alegria dura alguns dias”, detalha a criadora de conteúdo.

  • Só não estranhe se essa mudança não for repentina…

    Ainda que Alice e Caetano tenham se adaptado bem ao retorno gradativo de convívio com seus pares, o estabelecimento da amizade entre as crianças em condições pandêmicas pode ser mais desafiador, ainda mais com a volta presencial das atividades escolares.

    “A partir do momento que teve a flexibilização, percebemos que algumas crianças apresentavam um comportamento de medo de sair de casa e isso advém da forma como ela ouviu a situação que acontecia, a forma que os pais apresentaram para ela“, esclarece Luciana.

    Fernanda também lembra que há a possibilidade dos menores terem episódios de vivência intensa das emoções, timidez com o outro e até mesmo uma fase de egocentrismo, já que eles estavam acostumados a estarem sozinhos o tempo todo. Mas, aos poucos, a tendência é que estes comportamentos se diluam.

    Só precisamos fazer pelas crianças aquilo que também gostaríamos que o outro fizesse por nós: ter respeito com o tempo que precisamos para nos reorganizar emocionalmente a fim de ter um bom convívio social. E para os menores, quando necessário, ocorrer a intervenção dos adultos para ajudá-los a criar repertório do que estão sentido.

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