Colunista Poliana Martins Maternatípica Poliana é mestranda em comportamento infantil, autora do instablog @meubebeeoautismo e mãe atípica de Soph e João.

A escola que eu quero para os meus filhos é a escola que eu construo

Mãe? Presente! Não devemos ser sujeitos passivos no processo de construção da escola que desejamos para nossos filhos.

Por Poliana Martins Atualizado em 13 jan 2022, 16h10 - Publicado em 15 jan 2022, 14h00

O ano vai se iniciando e as mães começam a se preparar para o ano letivo, em especial: achar a escola ideal. Lá no fundo a gente sabe que nenhuma escola jamais será perfeita o suficiente ou boa o bastante pra receber nossos pequenos, mas isso não nos impede de ler sobre abordagens pedagógicas das mais variadas, fazer uma verdadeira via-sacra visitando escolas, pegar referências com as amigas e tentar acomodar valores e princípios familiares com o ambiente escolar.

(Sim, eu disse “mães”. Já te ocorreu a ideia, que me parece até um pouco bizarra, de tão desconexa com a realidade, de um pai jogando no grupo do zap: “Pessoal, o que vocês acham da pedagogia Waldorf?” ou ainda, “Blz, brother? Me diz aí, aquela escola do centro é montessoriana ou construtivista?” – impensável. Mas esse não é um texto sobre carga mental, nem sobre ser mãe solo mesmo dentro de uma relação heterossexual. Estou aqui pra falar de escola e educação. Um assunto (impositivamente) feminino.)

Parênteses à parte, todas nós sabemos a saga e o custo emocional que é escolher uma escola para nossos filhos. Queremos muito acertar por diversos motivos, mas, sobretudo: a escola é o lugar onde nossos pequenos passarão mais tempo, então precisamos confiar nessa estrutura educacional e humana quase que integralmente.

Talvez para a maior parte das mães pese decisões como o preço a pagar numa escola, a proximidade com a casa da família, o tipo de educação fornecido ali (tradicional ou não). E embora tenhamos muito a caminhar para que crianças sejam consideradas sujeitos de direito, ou seja, pessoas humanas com direito legal de ter sua integridade física e psicológica preservada, já é comum se discutir sobre adaptação escolar respeitosa para todas as crianças.

Estou, então, imaginando que não estamos dispostas a aceitar escolas que proíbam a presença de cuidador para adaptação no início do ano letivo, desrespeitando o direito mais básico de qualquer ser humano que é sua dignidade. Em que pese toda dificuldade de organização da estrutura escolar – sabemos como deve ser complexo – nada é maior que a dignidade do outro. Sou uma mulher de 34 anos, engravidei 4 vezes, perdi 2 bebês, tenho uma filha de 12 anos e um filho de 4. Advoguei, trabalhei na vara criminal, fui investigadora de polícia civil, subi morro com arma na mão. E até hoje, no auge das minhas lembranças vulneráveis, está o dia que minha mãe me deixou sozinha, pela primeira vez, na escola.

É preciso reconhecer que nos últimos anos evoluímos em algumas conversas necessárias para tornar o espaço educacional mais respeitoso. Mas me pergunto, pra dividir com vocês, como é a escola que eu quero?

“Na prática a teoria é outra”: é preciso entrar em campo!

A escola que eu quero é aberta às crianças com deficiência. Já se perguntou se a escola dos seus filhos recebe crianças com deficiência? Pode parecer mais um detalhe, ou talvez algo que não atinja à coletividade, mas na verdade esse pequeno “detalhe” significa que aquela escola está disposta a receber todos os alunos, com quaisquer dificuldades presentes ou futuras eles tiverem, sejam comportamentais, de aprendizagem ou mobilidade. Consegue imaginar uma escola mais apta a acomodar seu filho, do que aquela aberta para todos?

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Por outro lado a ciência demonstrou inúmeras vezes que todo aprendizado acontece a partir da experiência. Não tem como cozinhar só com receitas do “Tudo Gostoso”, senão seríamos todos nós grandes chefes de cozinha; infelizmente não tem como ser a craque da seleção brasileira de futebol feminino apenas observando a maravilhosa Marta jogar. Podemos talvez entender as regras, facilitar um pouco mais o caminho, mas já disse um sábio poeta: “na prática a teoria é outra” ou pra usar a linguagem futebolística: “treino é treino, jogo é jogo”.

“A verdade é que não existe outra forma de criar crianças respeitosas com a diferença, aptas a solucionar problemas, a criar estratégias de comunicação, tolerantes, gentis, sem que elas mesmas vivenciem, na prática, a experiência da diversidade. Uma escola aberta às crianças com deficiência é uma escola para todos.”

A escola que eu quero é uma escola que dialogue. Talvez seu filho raramente precise de suporte educacional ou comportamental na escola, mas nos anos de caminhada muita coisa pode acontecer (desde um incidente com um coleguinha até um divórcio na família que traga prejuízos e mudanças emocionais na criança). Além disso, é nas conversas com a escola que realmente vamos compreender as potencialidades e dificuldades dos nossos filhos para assessorar seu desenvolvimento. A escola está pronta a te dizer o lanche de hoje? A te contar que seu filho tem um pouco mais de dificuldade de interação que os outros, ou que precisa de mais tempo de adaptação escolar? A escola está aberta a ouvir e falar?

A escola que eu quero é uma escola que não valoriza os resultados. A escola ideal não está focada no desfecho, mas no caminho. Pode parecer estranho e até um contrassenso uma escola que não objetiva a alfabetização, a letra cursiva, o diploma, o 10 na prova de ciências, a classificação em primeiro lugar no vestibular de medicina.

Num mundo cada vez mais ego centrado e em que nossos resultados pessoais precisam ser expostos pra fazerem sentido (razão maior das redes sociais), por que não valorizar os tão desejados resultados? Por que não investir esforços e saúde física e mental pra ser bem sucedido a partir do parâmetro do outro? Porque essa é a razão de termos índices alarmantes e crescentes de depressão na infância e suicídio na adolescência. Não apenas as escolas, mas todo um modelo social em que nosso valor se baseia no que produzimos, temos ou alcançamos.

Pra piorar, a escola dos resultados desconsidera a existência de inteligências múltiplas, de sensibilidades diversas, da neurodiversidade. Não existe o homem médio, a normalidade, estamos todos num espectro de humanidade e potencialidades. Buscar o mesmo resultado para todos é, inevitavelmente, falhar.

“Lutei muito para ser pianista. Trabalhei duro, horas e horas por dia. Se tivesse dado certo hoje eu seria um pianista medíocre. Pianista bom não precisa fazer força, é dom de Deus, como é o caso de Nelson Freire. A diferença entre nós é que, enquanto eu tentava colocar dentro de mim um piano que estava fora, o problema do Nelson era colocar para fora um piano que estava dentro dele desde o nascimento. (…) Foi preciso que eu fracassasse como pianista para que o escritor que morava dentro de mim aparecesse.”
Rubem Alves, em “Se eu pudesse viver a minha vida novamente”

A escola que eu quero é a escola que eu construo. Não somos sujeitos passivos no processo de construção da escola que desejamos. É preciso ser presente, dialogar, se colocar à disposição, apoiar os professores nas greves, comprar brigas desgastantes, reclamar às mudanças necessárias, denunciar aos órgãos competentes. Educar é desformar inclusive a própria percepção do nosso lugar na relação com a escola.

Educar é abrir. Educar é “desformar”. Uma festa de “desformatura”… (Sabedoria por Rubem Alves)

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