Como ajudar a criança a lidar com a mudança de casa?

Diálogo, paciência e uma visão sem julgamentos por parte dos responsáveis ajudam a promover a segurança do pequeno frente ao novo ambiente.

Por Ketlyn Araujo Atualizado em 21 jan 2022, 17h58 - Publicado em 21 jan 2022, 17h56

Na elogiada animação “Divertida Mente”, lançada pela Disney em 2015, o espectador entra em contato com as diferentes emoções da protagonista Riley, uma garotinha de 11 anos que, ao mudar de cidade – e, consequentemente, de escola e casa –, passa a viver frustrações decorrentes do seu novo processo de adaptação. Para além da ficção, iniciar a jornada em um novo ambiente, na visão de uma criança, pode ser uma experiência não tão natural assim, e até causar sofrimento.

De qualquer maneira, explica Francisco Assumpção, psiquiatra e psicólogo da infância e adolescência pela Universidade de São Paulo (USP), é importante não fazermos generalizações neste sentido, e entendermos que as reações do pequeno vão variar de acordo com o contexto, idade e entendimento sobre a dimensão da mudança.

“Uma criança de 4 anos é totalmente diferente de uma com 10. Quando consideramos as menores, a vida social e seus hábitos estão totalmente ligados às atividades vinculadas ao seu grupo parental, posto que elas têm pouca autonomia e mobilidade e, desta forma, a mudança de endereço não necessariamente ocasiona perda nem de amigos (caso ela permaneça na mesma escola) e nem de hábitos (decorrentes da estrutura familiar)”, diz o especialista.

Para a psicóloga cognitivo-comportamental Adriana Severine, o entendimento do processo da mudança de casa começa a ficar mais claro às crianças por volta dos sete anos de idade. Neste período, diz ela, o pequeno tende a estar emocionalmente mais maduro para compreender que, apesar das mudanças, seu lugar na família já está estabelecido: ele já adquiriu certo grau de autoconfiança, e não precisa seguir um ritmo rígido para se sentir seguro.

Entretanto, no caso da criança apresentar uma reação negativa frente à mudança de endereço, pais e responsáveis devem estar prontos para promover aos filhos a confiança e a segurança necessárias para lidar com as transformações, que são parte da vida. A boa notícia é que isso pode ser facilmente resolvido, mediante diálogo e compreensão mútuos.

É preciso entender de onde vem o incômodo…

Adriana assume que o processo de mudança de casa para crianças envolve principalmente o medo de “não encontrar seu lugar” neste novo ambiente. Para os pequenos, da mesma forma que ocorre com muitos adultos, o que pega é o receio do desconhecido, de perder o conforto atual vinculado ao que já se tem – mesmo que a mudança seja para uma casa maior ou cidade com mais qualidade de vida.

Ela diz, ainda, que o medo pode se manifestar tanto frente à ideia de ter que mudar para um quarto estranho, com objetos desconhecidos, quanto à possibilidade de um isolamento ou falta de amigos no novo local. Assim, é preciso que pais e responsáveis estejam atentos a qualquer comportamento diferente expressado pelo filho, ainda mais se ele ocorrer de forma repentina e em excesso.

“A criança pequena demonstra seu incômodo através de comportamentos diferentes do que normalmente costumava ter: começa a chorar com maior frequência, muda o apetite (passando a comer mais ou se recusando a se alimentar), se nega a fazer atividades que antes despertavam tranquilidade e prazer, se torna mais ansiosa e irritadiça, podendo brigar, gritar e não demonstrar mais afeto (ou ter a necessidade de demonstrar em demasia)”, exemplifica a especialista.

Já Francisco considera que, geralmente, o impacto da mudança de casa afeta a criança quando vem acompanhado, também, pela troca de escola ou cidade. Quando isso acontece é necessário que exista um período de adaptação para o pequeno, no qual a compreensão dos pais da situação se faz igualmente importante.

“Cabe lembrar, entretanto, que crianças não são “bibelôs” e, por isso, enfrentar algumas dificuldades e estressores ambientais, desde que elas se sintam acolhidas em seu ambiente familiar e compreendidas em suas necessidades (que, obviamente, não devem ser minimizadas nem ridicularizadas), faz com que elas se desenvolvam melhor, mais capazes de lidarem com as adversidades do cotidiano e, portanto, mais resilientes”, reforça.

Filho-conversando-com-a-mãe
Catherine Falls Commercial/Getty Images

Permita que o pequeno opine sobre as transformações!

Os especialistas concordam que para evitar que a mudança de casa se torne um problema, é sempre importante que os pais e responsáveis envolvam os filhos desde o início na decisão de mudar. Por exemplo, caso exista a possibilidade, afirma Adriana, é essencial que quando a troca de casa ocorre simultaneamente com a da escola, o pequeno tenha certo grau de autonomia para opinar sobre onde irá estudar.

Continua após a publicidade

“Não é necessário que a criança participe de todo o processo de escolha da nova escola, mas, a partir do momento em que os pais definiram duas possibilidades principais, pode ser interessante que ela opte por aquela que mais gosta”, sugere a psicóloga.

Levar objetos da casa antiga para a nova, na intenção de fazer a criança se sentir mais confortável, também funciona, bem como conversar sobre a nova rotina. Busque mostrar aspectos positivos do novo bairro (ou cidade), explicar porque a decisão de mudar foi tomada, além de abrir espaço para o diálogo sobre possíveis medos, como o pequeno imagina que será a nova escola, e responder o máximo de dúvidas da criança.

“No caso de mudanças de escola e outras atividades, um início anterior a elas é interessante para que a criança se familiarize gradualmente com as novas situações. Mas cabe lembrar que, exceto em casos muito especiais (como a troca de país e de língua), as mudanças fazem parte da vida e a criança deve ser preparada para tal, com o auxílio dos pais e de maneira que ela se sinta querida e, principalmente, segura”, reforça Francisco.

Mais do que uma questão operacional, a mudança funciona como algo conceitual. É importante que a criança saiba por que ela ocorrerá, de que forma e quais as consequências disso, ou seja, o que será melhor e os desafios que ela poderá enfrentar na vida dela a partir de agora.

“O sistema de apoio que ela possui, representado pelos pais, família, professores e amigos continuará ou não? O que permanece e de que forma? O que muda e por quê? Tudo isso precisa ser compreendido para que ela se sinta segura, e isso é uma questão afetiva. Uma criança pode não se sentir segura mesmo com segurança física e sem mudanças, basta se sentir pouco valorizada, querida e apoiada”, corrobora o médico.

Caso a criança não se adapte… 

Mesmo após tentar preparar o filho para a mudança de casa, pode ser que ele não se adapte tão bem assim. Por isso, mais uma vez, é imprescindível que os pais e demais responsáveis fiquem atentos a qualquer alteração comportamental e emocional por parte da criança e, além disso, conversem com profissionais da nova escola para entender como o pequeno tem se comportado por lá, se fez novos amiguinhos e se está interagindo dentro do esperado.

Muitas vezes, complementa Adriana, as crianças não falam sobre o que estão sentindo após uma mudança, seja por notarem que os pais estão sobrecarregados com a nova rotina ou por não compreenderem muito bem o que estão sentindo. Observação e diálogo são a chave para lidar com isso.

Estratégias como jogos, brinquedos, livros e filmes, fala Francisco, podem auxiliar temporariamente na manipulação da ansiedade da criança, mas não devem servir como receita pronta ou solução a longo prazo para tratar as dificuldades de adaptação.

“Ser pai e mãe é participar da vida dos filhos, naquilo que existe de agradável e difícil, através do diálogo e das trocas afetivas”, completa o psiquiatra.

Já quando a criança permanece infeliz ou sofre para retornar ao seu estado habitual mesmo após todas estas medidas terem sido tomadas, é necessário buscar auxílio por meio de um profissional voltado à saúde mental, que vai usar de sua experiência para ajudar o pequeno a passar por este período de transição com mais recursos emocionais.

Quando a mudança é em dobro: o que fazer?

Se o início na nova casa vem junto com algo maior, como também mudar de estado ou país, vale tomar os mesmos cuidados já citados, dando o suporte necessário à criança e permitindo que ela seja incluída no processo, com as reações dela frente à notícia sempre cuidadosamente observadas e validadas.

Coloque no papel, antes de arrumar as malas, os motivos que levarão a família a mudar de país, se eles têm a ver com as necessidades ou desejos dos pais ou responsáveis, e quais as implicações para que este movimento seja feito.

“A criança pode vir a apresentar sintomas de caráter depressivo ou ansioso, que devem ser acompanhados para que, em caso de persistência ou prejuízo adaptativo, ela seja encaminhada para cuidados especializados. Cabe lembrar, entretanto, que isso nem sempre se faz necessário, já que a criança é um ser plástico que, quando devidamente apoiado, costuma evoluir de maneira satisfatória”, observa Francisco.

Continua após a publicidade

Publicidade