Cansada, mãe? Lia Abbud é jornalista e uma das criadoras do @Fatigatis, um projeto de conteúdo sobre estresse materno que propõe estratégias em direção ao bem-estar físico e mental feminino.

Voltar ou não voltar? O dilema do home office para as mães

Não é simples! Afinal, você prefere continuar trabalhando remoto e sobrecarregada ou voltar ao presencial e perder a conexão conquistada com os filhos?

Por Lia Abbud Atualizado em 3 dez 2021, 12h52 - Publicado em 5 dez 2021, 14h00

Nossa relação com o trabalho remunerado nunca mais será a mesma depois da pandemia. Agora, com a retomada segura graças à vacina, o retorno ao trabalho nos escritórios é tema comum nas rodas de conversa. Algumas empresas já estão abrindo as portas para receber mais colaboradores ao mesmo tempo; outras ainda estudam o formato a ser adotado a partir de janeiro de 2022. E é sobre isso que quero falar no texto desse mês.

Um levantamento realizado pela Talenses em parceria com a Fundação Dom Cabral e divulgado mês passado apontou que 72,7% dos entrevistados acreditam que o sistema híbrido seja a melhor opção – entendem que ele maximiza produtividade e eficiência. Outros 23% preferem o home office em tempo integral e apenas 4,4% votaram no regime totalmente presencial.

Para companhias que optaram por entregar parte dos espaços locados durante a pandemia para reduzir custos, o desejo pelo modelo misto é uma ótima notícia, já que não teriam como abrigar toda a equipe como ocorria pré-confinamento.

O desafio agora é organizar o fluxo interno: o agendamento será por aplicativo? Haverá número de dias mínimo e máximo para se estar no espaço físico? A escolha dos dias de trabalho presencial será do colaborador ou da liderança? De acordo com a mesma pesquisa, 52% das empresas devem adotar o sistema híbrido num futuro próximo.

Aqueles que defendem o trabalho de casa (integral ou parcialmente) também citam a melhora na vida pessoal como efeito colateral. Para quase 50% dos trabalhadores entrevistados, ficar mais tempo em casa possibilitou que se dedicassem mais a projetos pessoais – estar com a família, fazer pausas em um ambiente mais agradável e acolhedor e evitar o desgaste com deslocamento.

“X” da questão 

E é aí que reside nossa principal dúvida sobre o assunto: será que as mulheres-mães também enxergam o tema com as mesmas lentes? O home office nos trouxe mais qualidade de vida, nos permitiu investir em novos projetos pessoais? Ou nos deixou ainda mais sobrecarregadas e cansadas, sem conseguir dividir responsabilidades pessoais e profissionais?

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É o próprio Luiz Valente, CEO da consultoria Talenses Group, quem comenta que ao fazer um recorte de gênero, geração e condições sociais, há peculiaridades que levam a entender por que alguns modelos funcionam para uns e não para outros. “Em relação ao gênero, sabemos que a sociedade ainda conta com diferenças entre o papel esperado pelo homem e pela mulher dentro da dinâmica familiar, que impactam a produtividade de cada um deles. Grande parte das mulheres prefere o modelo híbrido porque, dessa forma, em muitos casos, fica mais fácil coordenar as dinâmicas de trabalho.”

Em busca de respostas mais específicas, fizemos uma enquete no nosso perfil do Instagram (@fatigatis). Sem pretensão científica ou rigor metodológico, apuramos dados que ajudam a entender melhor o cenário e os dilemas da mulher-mãe, que compartilhamos a seguir.

Segundo o DataFatigatis, 35% gostariam de trabalhar presencialmente em 2022. Destas, 11% têm interesse em estar fisicamente no local de trabalho todos os dias, enquanto 89% optariam pelo modelo híbrido, se pudessem escolher. Dentre os principais problemas que elas enxergam no trabalho remoto, estão o acúmulo de funções, a dificuldade de conciliar todos os papéis, a falta de rede de apoio e de uma divisão mais justa das tarefas domésticas com os demais integrantes da casa.

Confira abaixo algumas declarações de quem torce pela volta ao presencial, mesmo que em sistema híbrido:

  • “Os dias presenciais são preciosos demais para a mente; o contato com colegas faz um bem!”
  • “Ter espaço para estar perto das crias, mas também ter o espaço do trabalho delimitado.”
  • “Dividir um tempo é a melhor opção.”
  • “Para as mães, os dias na empresa são quase como dia de folga!”
  • “Três vezes na semana em home office eu conseguiria organizar melhor a rotina com minha filha e com a casa.”
  • “Estou cansada de não encontrar pessoas, da troca presencial.”
  • “Em casa estaremos sempre nos envolvendo nos serviços domésticos.”

Mas a grande maioria das mulheres (65%) que participou da enquete disse que prefere seguir trabalhando remotamente, em home office. As declarações carregam seus argumentos:

  • “Minha presença em casa é necessária em certos horários, perderia muito tempo me deslocando.”
  • “Prefiro 100% do tempo em home office para poder ficar perto da minha filha.”
  • “Estar mais presente na rotina das crianças.”
  • “Falta de flexibilidade na jornada de trabalho.”
  • “Ainda existem muitas restrições que impedem contar com a rede de apoio de antes.”
  • “Ficar longe dos filhos e ter que recriar a rotina.”
  • “Não participar tanto da vida dos filhos.”
  • “A falta de compreensão por parte das empresas em relação ao trabalho de cuidado.”

Quando perguntamos se o trabalho em home office fez com que elas acumulassem mais funções relativas à casa e aos filhos, 82% responderam que sim. “Sempre estamos mais perto”, comentou uma das respondentes.

Há uma série de análises e reflexões possíveis a partir desses dados. Importante reforçar que as opiniões refletem múltiplos pontos de vista porque as realidades são diversas. Não há certo ou errado, como dissemos, mas numa primeira olhada, fica evidente que apesar de em muitos casos existir o desejo da mulher em separar melhor seus papéis, inclusive para conseguir dar mais atenção à carreira, nem sempre ela tem como renunciar a determinadas responsabilidades que assumiu no cuidado com casa e filhos.

Esse é o reflexo do desequilíbrio de gênero em relação ao trabalho de cuidado. As opiniões reforçam ainda a importância das redes de apoio, porto seguro de muitas de nós, e que, em alguns casos, estão fazendo falta. Inevitável não apontar a falta de olhar mais profundo das empresas também. Enquanto isso, seguimos tentando equilibrar mais pratinhos no ar do que nossos braços conseguem. Até quando?

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