Como preparar os filhos para a separação na volta ao trabalho presencial?

Veja dicas para recomeçar com tranquilidade, decidir com quem deixar os filhos e os cuidados a se tomar para impedir a entrada da Covid-19 em casa.

Pouco a pouco, muitas das famílias que puderam fazer a quarentena juntas em casa, com os pais em home office, estão tendo que retornar à rotina. Para quem tem filhos pequenos, a volta ao trabalho presencial trará uma sensação semelhante à do início da vida escolar do filho ou do fim da licença-maternidade.  

“Não será apenas como dar ‘play’ numa vida que estava pausada”, comenta a psicanalista Elisama Santos, autora do livro Por Que Gritamos, especialista em parentalidade. O que pareceu pouco tempo para nós é percebido de outra maneira pelos pequenos. 

“Para eles, é uma eternidade, e estão dependentes da presença dos pais, que é muito confortável e acolhedora”, aponta a psicopedagoga Quézia Bombonatto. Além da dependência, a falta de interação social e o estresse levaram a alterações de humor, apetite, sono e até regressões de comportamento

Os adultos, por sua vez, tiveram mais tempo para conhecer e aprofundar vínculos com o filhos. Nesse contexto, a culpa e a angústia pela separação podem dar as caras. Mas calma! Dá para se manter próxima dos pequenos mesmo se não passarem mais o dia todo juntos e entrar mais tranquilo na nova rotina.  

Seja honesto sobre os próprios sentimentos 

Antes de tudo, que tal tentar fazer as pazes com o fato de estar voltando? “Devemos entender as próprias limitações e saber que estamos fazendo tudo o que podemos, e não ter apenas compaixão pela criança, mas por nós mesmos também”, destaca Elisama. 

Pais devem transparecer à criança a segurança de suas decisões, mas isso não quer dizer não sentir medo ou esconder emoções. “Impossível não ter medo, porque estamos sem segurança emocional, mas precisamos trabalhar esse sentimento para que não seja transferido para as crianças”, diz Elisama. 

Se a criança questionar sobre o assunto ou te ver triste, por exemplo, explique porque está se sentindo assim, mas reforce que vocês vão passar por isso juntos, um apoiando o outro. E reforce que está ali para ela o tempo todo, mesmo sem estar fisicamente presente. 

Vale sempre lembrar que é possível ter sentimentos ambíguos, como a vontade de voltar ao escritório, o alívio por se distanciar do caos da casa e, ao mesmo tempo, a saudades de ficar em casa com os filhos. E às vezes é necessário ajuda profissional ou uma boa conversa com um amigo para entender tudo isso. “Ao contrário do que crescemos acreditando, reconhecer que se precisa de apoio é uma demonstração intensa de força e coragem”, destaca Elisama.

Com quem deixar? 

A infectologista Rosana Richtmann, do Hospital e Maternidade Santa Joana, assim como as sociedades de pediatria, defende a volta das escolinhas, desde que tomados os devidos cuidados. “Especialmente na educação infantil, a socialização é muito importante para o desenvolvimento da criança”, destaca. 

Não existe decisão certa nesse contexto. A escolha deve ser tomada pesando riscos e os pais devem estar seguros com ela. Se a criança for à escolinha, faça antes a chamada alfabetização sanitária. “Que é ensinar a lavar as mãos, a não colocar a mão na boca ao espirrar e tossir, além de por que é importante não ir à escola se estiver doente”, explica Rosana.

Muitos materiais adaptados para a primeira infância estão disponíveis na internet para ajudar nisso. Se os pais contrataram um profissional para cuidar da criança, o ideal é orientar bem a pessoa sobre sinais e sintomas, cuidados no transporte público e, de preferência, a trocar de roupa quando chegar em casa. 

Dependendo da situação, ela pode ficar até com os avós. “Se estiverem circulando menos, ficando em casa, pode ser melhor, desde que sejam saudáveis e a situação da epidemia estiver controlada na cidade”, aponta Rosana.

Preparação psicológica da criança 

Se o início da quarentena foi uma mudança abrupta e caótica (do dia para a noite ninguém mais podia sair), agora temos ao menos um vislumbre de como serão os próximos meses. E uma data marcada para o retorno permite planejamento para que todos tirem o melhor da situação. 

“Antes de reorganizar o horário, reorganize os seu sentimentos, pergunte como todos estão se sentindo na casa, e decidam juntos os passos do retorno, que deve ser um processo”, ensina Quézia. 

Algumas empresas farão turnos alternados no escritório, então pode haver espaço para negociar, por exemplo, para ir trabalhar enquanto o filho estiver no período de adaptação da creche ou trabalhar menos horas por dia. Se não for esse seu caso, tudo bem. 

Explique para o filho que irá voltar ao trabalho, que a rotina dele também vai mudar, e não vai ser do jeito de antes, mas que você estará lá para dar suporte a ele o tempo todo. Nesse cenário, é mais benéfico perguntar do que supor o que a criança está sentindo. “Não chegue falando ‘olha, sei que você está triste porque o papai ou a mamãe vão voltar a trabalhar”, orienta Quézia. 

Uma dica é usar recursos lúdicos para trabalhar a separação a criança. Quézia dá um exemplo de história que pode ajudar os pequenos a identificarem as próprias emoções. “A mamãe ratinho teve que sair para buscar a comidinha dos filhotes, os ratinhos ficaram tristes, ela também, mas a mamãe voltou e todo mundo ficou feliz”, narra a psicopedagoga.

O que fazer na despedida 

Na hora do tchau, é o mesmo esquema do primeiro dia na escolinha da vida da criança. “Ela precisa, na hora que sentir o medo dela, ver segurança nos olhos dos pais, que eles deem firmeza para que ela se sinta segura para caminhar sozinha”, destaca Elisama. 

De novo, aposte na sinceridade. “Se você vai embora enquanto o filho não está vendo, pode fazer com que ele se sinta desamparado quando não encontrar a mãe sem explicação, e passe a criar as próprias teorias na cabeça”, aponta Quézia. 

Outra coisa que ajuda é organizar como será o dia da criança, para mostrar que você está cuidando dela mesmo se estiver fora. Explique o que ela irá comer, pergunte o que ela gostaria de fazer e planejem juntos. Ah, e fique de olho em alterações bruscas e persistentes de comportamento, que podem indicar que a criança não está lidando bem com a situação.

O que podemos manter da quarentena 

A culpa pela distância também passa uma mensagem. “Ela pode estar dizendo que você precisa de mais tempo com os filhos, então será preciso buscar outras formas de estar próxima”, ensina Elisama. 

Por exemplo, na quarentena muitos pais tiveram que exercer (bastante) a criatividade e criaram novas brincadeiras, jogos e atividades com os filhos. Manter vivos esses hábitos e relembrar as coisas boas que fizeram pode ser uma maneira de não perder os vínculos criados. Lembre-se: em matéria de tempo, qualidade é melhor que quantidade. 

Adulto tem responsabilidade de não trazer o vírus para casa

Apesar de não serem o alvo favorito do vírus, as crianças contraem Covid-19 e podem ter complicações sérias da doença. “E a maioria dos estudos mostra que elas contraem a doença de adultos que trazem o vírus da rua”, aponta Rosana. 

Ou seja, mesmo que já tenham retornado às suas atividades, os mais velhos devem manter as rotinas de cuidados na rua. Isso quer dizer usar as máscaras corretamente, lavar as mãos com frequência, tomar cuidado no transporte público e pesar bem a real necessidade de encontros para socializar com os amigos. 

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