O que é o terror noturno na infância? Veja como identificar no seu filho!

O despertar súbito durante a noite, junto com choro ou ansiedade, é mais comum na infância. Entenda a diferença do pesadelo e o que fazer durante a crise!

Por Flávia Antunes 25 mar 2021, 18h26

Os pais estão dormindo quando, no meio da noite, escutam gritos ou choros e se deparam com a criança assustada em sua cama. Apesar do choque, o pensamento mais óbvio é que o pequeno teve um pesadelo e o primeiro instinto pode ser acolhê-lo, com abraços e assegurando que nada daquilo é real. Mas nem sempre se trata apenas de um sonho ruim.

A verdade é que o acontecimento, que às vezes assusta os adultos, pode ser um episódio de terror noturno, manifestação comum na infância. “Ele faz parte de uma classe de alterações do sono que chamamos de parassonias e costuma ocorrer a partir dos quatro anos”, explica a neurologista e médica do sono Rosana Cardoso Alves.

A especialista esclarece que se trata de um distúrbio do despertar, do mesmo grupo do sonambulismo e do chamado despertar confusional.

Terror noturno ou pesadelo?

Embora a reação do pequeno possa ser parecida nos dois casos, as manifestações têm características distintas. “O pesadelo ocorre durante o sono REM, fase em que predominam os sonhos, e a pessoa consegue contar o conteúdo do que sonhou depois de acordar. Já no terror noturno, ela tem amnésia, então não lembra do que aconteceu”, esclarece Rosana.

Além disso, o terror noturno geralmente ocorre nas primeiras horas da noite e é caracterizado por um despertar súbito da criança, podendo durar poucos minutos ou até segundos. “Em geral, ela grita ou chora e pode sentar na cama e demonstrar pavor”, conta.

Depois desse curto período de tempo, pode ser que o filho volte a dormir ou então apresente taquicardia, respiração acelerada, pele ruborizada, sudorese e até alteração na pupila. 

O que pode causar o terror noturno

Como os outros transtornos do sono, o fator genético está presente. Assim, se os pais forem investigar a fundo, talvez se lembrem de algum familiar que já teve episódios na infância ou quando adultos.

Mas não só isso influencia – e é aí que entram os chamados “gatilhos ambientais”. “Vários acontecimentos externos podem desencadear o terror noturno. Por exemplo, se a criança estiver com privação de sono, dormindo pouco ou acordando muito nos últimos dias”, comenta a neurologista.

Problemas respiratórios, infecções e sintomas como tosse, febre e dor também são capazes de influenciar no aparecimento do distúrbio. Muitas vezes, aliás, ele tem relação com a própria evolução do sistema nervoso da criança, cessando com o tempo.

  • O fator pandemia

    Somado a tudo isso, não podemos esquecer de um gatilho ambiental importante – que vem perturbando o sono não só das crianças, como também dos adultos: a pandemia do novo coronavírus. Um estudo recente conduzido pela Philips inclusive mostrou que, desde o início do surto da doença, 74% dos entrevistados adquiriram um ou mais problemas de sono e 50% relataram prejuízos na capacidade de dormir bem.

    Embora o achado tenha sido sobre os adultos, o mesmo está sendo notado no público infantil. “Na pandemia, as crianças estão mais ansiosas, ficando mais em casa e fazendo menos atividades físicas. Sem falar que acabam captando a própria ansiedade da família e estresse ao redor por conta do perigo da doença”, observa a médica do sono.

    Essa exposição emocional, além de poder “bagunçar” a rotina de sono dos pequenos na hora de adormecer, é terreno fértil para o aparecimento dos episódios de terror noturno, como detalha Daniela Araújo, psicanalista e coordenadora do Núcleo Infantojuvenil da Holiste Psiquiatria. 

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    “Corpo e mente estão intimamente ligados, não há como escapar disto. Assim, quando há algo que sentimos, mas que ainda não está organizado pela nossa condição simbólica, isto tenderá a aparecer nos atos impensados, impulsivos, ou mesmo no corpo, sem que se saiba de imediato a razão”, diz.

    Se há algo, portanto, que vem atormentando uma criança mas ela não consegue expressar por via de palavras – como é o caso das mudanças causadas pela pandemia -, isso poderá aparecer em forma de terror noturno ou de outros comportamentos fora do comum.

    O que fazer quando o episódio acontece

    Como dissemos lá em cima, muitas vezes a criança volta a dormir rapidamente. Em outros, como orienta a psicóloga infantil Valeska Chester, vale a pena que os pais tenham a iniciativa de acolher o filho e, se necessário, fazer companhia até que ele adormeça novamente.

    Porém, é importante tomar cuidado para não fortalecer comportamentos que, quando repetidos várias vezes, podem perdurar, como o de levar para a cama dos responsáveis – caso a transição para dormir sozinho já tenha sido feita.

    “Marcar presença com a criança pode fazer diferença para acalmá-la. Por vezes, nesses instantes de inquietação, algumas palavras podem causar mais ansiedade. Então cabe tomar cuidado e se dispor a escutar. Saber o que costuma tranquilizar o filho e eventualmente procurar entretê-lo com algo que o apazigue também são boas alternativas”, complementa Daniela.

    Agora, se a família já estiver tendo o acompanhamento de profissionais da área, a orientação deve ser individualizada, seguindo-se a abordagem que for recomendada. 

  • Como prevenir

    Da herança genética não há como fugir, mas o que os pais podem fazer é tentar proteger os pequenos dos gatilhos ambientais, como através de ações que a neurologista chama de “higiene do sono”.

    “Isso se faz pela criação de uma rotina de sono regular, com um tempo adequado de descanso”, orienta Rosana. Vale procurar um ambiente tranquilo, já que o ruído excessivo pode levar a criança a acordar mais durante a noite, além de evitar agitação horas antes do momento de ir para cama – inclusive deixando de lado as telinhas. Veja mais algumas dicas aqui

    Aproximar-se do dia a dia da criança e observar como ela vem lidando com suas questões também é uma boa forma de entender os motivos do problema para achar formas de contorná-lo. “Participar mais da rotina do filho e escutá-lo com mais frequência pode fazer aparecer algum assunto diferente, que de repente mostrará de onde vem o desconforto”, indica a psicanalista.

    Quando a questão merece uma atenção especial

    Por ser mais comum na infância, é bem capaz que o terror noturno não volte a aparecer durante o crescimento da criança. Mas isso não é regra: se os episódios se tornarem repetitivos, mais intensos ou começarem a atrapalhar a rotina vale tomar um cuidado a mais.

    “Se tiver esporadicamente, como uma vez por mês, vale explicar para a família que é algo que não vai trazer prejuízo para a criança, que pode ter relação com seu sistema nervoso central, e acompanhar a evolução. Já se começa a ter com mais frequência, é interessante conversar com o pediatra ou partir para um acompanhamento mais especializado”, afirma a neurologista.

    Valeska lembra que além do incômodo durante a noite, essas manifestações – quando frequentes – acabam interferindo no dia a dia do pequeno. “Precisamos estar atentos, porque a má qualidade de sono pode prejudicar o funcionamento diurno da criança, além de trazer muitas vezes irritabilidade, impulsividade, desatenção, ansiedade e até instabilidade emocional”, lista ela.

    Neste sentido, vale investigar – não só para melhorar a qualidade de vida do filho, como prevenir outros problemas comportamentais e cognitivos que podem vir a aparecer. “O tratamento pode ser feito com o pediatra, psicólogo ou psicanalista infantil, neurologista, ou até um médico especialista em sono”, orienta Valeska. 

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