O que levar em consideração para decidir sobre o uso de máscara na escola

Baixa adesão à vacinação infantil contra Covid-19 e a chegada do outono pedem para os pais repensarem sobre a suspensão da máscaras nas salas de aula.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 29 mar 2022, 17h17 - Publicado em 24 mar 2022, 19h12

Assim como no início da pandemia causada pela Covid-19, em que o uso de máscara foi um assunto de maior relevância, o dispositivo de proteção facial volta a ser tema entre os especialistas. Só que, desta vez, a partir de outra perspectiva: alguns estados suspenderam a obrigatoriedade do utensílio em decorrência da circulação reduzida do vírus no país. Inicialmente, a decisão aplicava-se apenas a lugares abertos, como parques e ruas, mas agora já temos o uso opcional em ambientes fechados, como as salas de aula.

É o que observamos em São Paulo, após o anúncio feito pelo governador do estado, João Dória, no dia 17 de março. Passando a valer desde então, estipulou-se que as máscaras continuam sendo obrigatórias apenas em unidades de saúde e transportes públicos, como trens e metrôs. O posicionamento do estado veio na mesma semana em que o Rio de Janeiro também liberou a circulação da população tanto em ambientes abertos quanto fechados sem a necessidade do dispositivo de proteção facial.

Ainda que o cenário seja positivo diante do mundo se reestruturando com o avanço da imunização, especialistas pedem que famílias com crianças pequenas ainda percorram este caminho com cautela, especialmente na decisão – que agora passa a ser individual – de enviá-las para as escolas sem máscara.

Com o auxílio de três médicos de diferentes áreas da saúde infantil, listamos quatro motivos que valem a pena ser repensados antes de preparar a próxima malinha do pequeno para a escola e anunciar que a proteção não faz mais parte do seu uniforme. Neste momento, a principal orientação é entender o que funciona para a sua família e como protegê-la, combinado?

1. Crianças não estão com o esquema vacinal completo

Ainda que o avanço da imunização contra Covid-19 tenha tido impactos significativos na redução de mortes, no alívio da sobrecarga no sistema público de saúde e diminuição da transmissão do vírus, é preciso lembrar que o ritmo da vacinação infantil segue lenta e longe do que seria considerado ideal.

De acordo com dados do consórcio de veículos de imprensa, divulgados no dia 23 de março, 49,96% das crianças brasileiras de cinco a 11 anos receberam a primeira dose da vacina contra o coronavírus, o que leva a apenas 11,7% terem sido imunizados com as duas aplicações recomendadas para as faixas etárias.

“Assim, com a não obrigatoriedade do uso da máscara em ambientes fechados, como as salas de aula, associada a esta baixa adesão da imunização, há um risco maior de contaminação”, pontua o infectologista pediatra Victor Horácio Costa Júnior, professor da Escola de Medicina da PUCPR.

2. Outono aumenta chances de doenças respiratórias em crianças

O período do ano em que o dispositivo de proteção facial está sendo desobrigado também preocupa os especialistas ouvidos. A chegada do outono, no dia 20 de março, traz a queda repentina de temperatura e menos umidade no ar, “o que facilita as doenças respiratórias, principalmente as viroses, que são comuns entrem as crianças porque elas não desenvolvem uma imunidade a longo prazo contra estas infecções”, detalha o otorrino pediatra Vinícius Ribas Fonseca, membro da Academia Brasileira de Otorrino Pediátrica (ABOPe).

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Isso faz com que, caso os menores estejam acostumados com o uso da máscara, estender a sua utilização dentro das salas de aula por mais um tempo, pode vir a contribuir na prevenção contra infecções respiratórias mais comuns entre o público infantil e que tendem a acarretar em quadros mais graves do que o causado pela Covid-19. “Como o do vírus da Influenza, parainfluenza, rinovírus, adenovírus, e o Vírus Sincicial respiratório (VSR)“, cita Vinícius.

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Maskot/Getty Images

Como reforça a pediatra Camila Luizetto, do Hospital Nove de Julho, este último é conhecido principalmente por desencadear bronquiolite (inflamação aguda dos brônquios) nos pequenos, o que pode levá-los à internação e até mesmo tratamentos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Assim, o que enfatiza a especialista, é que continuar usando máscara em ambientes fechados pode evitar uma cadência de situações desafiadoras para pais de crianças pequenas.

“Afinal, ela vai ter que se ausentar da escola caso se contamine, terá que ser levada ao hospital ou ao médico que provavelmente estarão cheios, precisará fazer exame para distinguir um resfriado comum de uma infecção por Covid-19 – o que, muitas vezes, vai significar a ausência dos pais no trabalho e dos pequenos nas escolas. Fora o desconforto em si de ficar doente”, pondera a pediatra. 

3. O caminho à escola ainda pede atenção!

O mesmo cuidado precisa ser considerado pelos pais que usam transportes coletivos para que os filhos cheguem até à escola. Vinícius recomenda a utilização do dispositivo de proteção facial pelas crianças especialmente dentro das vans de transporte escolar, que podem vir a se tornar um meio propício para a transmissão do vírus.

A máscara deve ser usada porque é considerado um ambiente fechado, de maior proximidade, então, mesmo que exista uma janela que esteja aberta ou seja feito o distanciamento, existe a possibilidade de maior transmissão de aerossóis”, defende o otorrino pediatra. Ele ainda lembra que, quando falamos de crianças pequenas, pode ser ainda mais difícil mantê-las longe umas das outras e, por isso, também há o reforço do uso do utensílio nesta circunstância.

4. Outros cuidados precisam estar reforçados nas escolas 

Por fim, mas não menos importante, é preciso que a suspensão do dispositivo de proteção facial seja mesclada com outras medidas de prevenção contra a Covid-19 reforçadas dentro das salas de aula, para que os ambientes se tornem menos propensos a propagação do vírus. Entre os cuidados, os especialistas citam:

  • Manter o ambiente arejado;
  • Priorizar menos alunos em cada sala de aula;
  • Continuar com o distanciamento entre as cadeiras;
  • Evitar o compartilhamento de utensílios e alimentos.

Também é importante estar atento caso a criança apresente algum sintoma respiratório. “Deve existir uma vigilância de que, caso ela demonstre que não está bem – neste caso, não precisa ser só febre, mas coriza e tosse também devem ser considerados -, ela não deve estar no ambiente com os demais. É para o pequeno estar sendo cuidado fora de casa!”, enfatiza Camila.

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