6 reflexões necessárias sobre maternidade trazidas por ‘A Filha Perdida’

Lançado recentemente pela Netflix, o filme tem direção de Maggie Gyllenhaal e é baseado na obra homônima da escritora italiana Elena Ferrante.

Por Ketlyn Araujo Atualizado em 24 jan 2022, 18h10 - Publicado em 22 jan 2022, 10h00

Desde a sua estreia na Netflix, em 31 de dezembro, o filme “A Filha Perdida”, que tem direção e roteiro assinados pela também atriz Maggie Gyllenhaal, configura-se como um dos longas de língua inglesa mais assistidos no Brasil dentro do serviço de streaming. Não à toa, a história vem repercutindo nas redes sociais e marcado uma série de debates sobre a parentalidade em seus diferentes aspectos.

“A Filha Perdida” marca a estreia de Gyllenhaal como diretora e roteirista, e é baseado no livro de mesmo nome lançado em 2006, com autoria da escritora best-seller italiana Elena Ferrante. Mais do que uma adaptação bem feita da obra, o filme consegue traduzir com maestria alguns dos incômodos e diálogos intensos presentes na versão escrita da trama. Outro destaque fica por conta das ótimas atuações femininas, trazendo a brilhante Olivia Colman como a protagonista Leda Caruso, Jessie Buckley interpretando sua versão mais jovem e Dakota Johnson, no papel de Nina. 

A narrativa acompanha Leda, uma professora universitária de 48 anos, que decide embarcar sozinha em uma viagem de férias na Grécia. Na ilha onde está hospedada, ela conhece Nina, jovem mãe com a qual Leda parece possuir um certo tipo de conexão, e responsável por despertar nela uma série de lembranças de seu passado junto das próprias filhas, Bianca e Martha. Memórias da juventude da protagonista se misturam com as ações de Nina no presente e ambas, apesar de bastante diferentes, acabam enfrentando questionamentos similares.

Apesar de contar com um elenco ausente de diversidade racial, e de reforçar em certos níveis o estereótipo da mulher de meia-idade sempre solitária, alguns pontos levantados pelo longa frente à maternidade são dignos de reflexão – e acabam gerando impacto não apenas em quem é mãe, mas também em quem não possui o desejo da maternidade. A seguir, trazemos seis deles.

Atenção: a partir daqui o texto poderá conter spoilers do filme!

1. Mães não são perfeitas só por serem mães

Ainda está viva no imaginário coletivo a ideia de que mulheres, a partir do momento em que se tornam mães, devem agir de acordo com as expectativas da sociedade, o que gera sobrecarga materna e um sentimento constante de culpa e de não se sentirem boas o suficiente.

Em “A Filha Perdida”, o estereótipo da “mãe perfeita, imaculada” é constantemente quebrado, seja pelo fato de Leda ter tomado a decisão consciente de abandonar as filhas ainda pequenas, ou por Nina, jovem e atraente, muitas vezes não saber como lidar com as necessidades de sua filha, e colocar as próprias como prioridade. O filme atesta que mães, assim como qualquer outro ser humano, são complexas, errando e acertando o tempo inteiro.  

2. Nem toda mulher nasceu para ser mãe (e tudo bem)!

A Filha Perdida
IMDB/Reprodução

Outro tabu social quebrado pelo filme é o falso conceito de que toda mulher nasceu para ser mãe, e que isso se dá naturalmente à medida em que vivemos a maternidade. Em uma das cenas mais importantes do longa, Leda assume ser uma “mãe não-natural” (unnatural mother, em inglês), e até mesmo egoísta, por ter escolhido deixar as filhas para se dedicar ao trabalho e a um novo relacionamento.

Com personagens extremamente complexas e uma maternidade tratada em toda sua ambivalência, a história mostra, ainda, que ações não medem, necessariamente, o amor de uma mãe pelos seus filhos (ou a falta dele).

3. A maternidade se manifesta de diferentes formas

Como já mencionamos, em “A Filha Perdida” a maternidade é tratada como algo inconstante, que não funciona de maneira linear, dual, e isso não precisa ser visto como um problema. É absolutamente natural, por exemplo, que a personagem Nina ame e queira estar com a filha pequena, mas que perca a paciência e a energia em alguns momentos. O mesmo vale para Leda, ao assumir, sem pudores, que o tempo que passou longe das filhas foi incrível.

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Não é sobre certo e errado, sobre julgar ou não julgar quem é mãe, já que a sociedade o faz sem medida: é sobre refletir e encontrar as próprias respostas ao entrar em contato com as histórias das personagens.

4. O abandono paterno é naturalizado e o materno visto como absurdo

A Filha Perdida
IMDB/Reprodução

Nenhuma criança deveria ser abandonada por seus tutores, e isso é fato. Mesmo assim, após assistir o longa, vale refletir se a história teria o mesmo impacto na audiência caso o personagem principal fosse um homem que deixa a esposa e as filhas pequenas para ir atrás dos próprios desejos (provavelmente não). Isso porque, novamente, a responsabilidade de cuidar e criar os filhos ainda é majoritariamente colocada nas costas da mãe, o que torna o abandono paterno algo mais naturalizado do que a situação reversa.

O filme mostra que, enquanto homens, de maneira geral, não são tão afetados assim pela paternidade, podendo seguir planos e sonhos, o mesmo ainda não é visto como algo válido ou legítimo quando se é mulher, o que reforça a importância de termos pais mais presentes e uma divisão de responsabilidades mais igualitária.

5. A conexão entre mulheres que são mães é potente

Leda e Nina possuem origens, trajetórias e classes sociais totalmente diferentes, mas mesmo assim conseguem se identificar e construir um certo tipo de laço (ainda que temporário) por conta das questões em comum que rondam a vivência de ambas frente à maternidade e do que é ser mulher.

É por meio das similaridades presentes nas sutilezas do cotidiano, como as trocas de olhares e conversas sobre as filhas, que as duas se aproximam e descobrem inseguranças e medos comuns, seja qual for a idade ou fase da vida que estejam vivenciando. Assim, somos lembradas que com a coragem e honestidade de entrarmos em contato com as nossas vulnerabilidades, há muito o que compartilhado com o outro. 

6. Todas nós podemos ser representadas pela ‘filha perdida’

A Filha Perdida
IMDB/Reprodução

Com um final aberto para interpretações sobre qual seria o desfecho de Leda, o filme traz a ambiguidade também presente no título, já que não se sabe, ao certo, quem é a tal ‘filha perdida’.

Considerando que mães também são filhas em constante aprendizado, podemos dizer que a filha perdida pode ser tanto Leda, que viaja para se encontrar em uma fase melancólica da vida, quanto Nina, que tenta se entender como mãe na juventude. As filhas perdidas podem ser Martha e Bianca, temporariamente abandonadas pela mãe, ou quem sabe Elena, brevemente desaparecida e reencontrada por Leda.

Ao que tudo indica, a filha perdida pode ser eu, você, ou qualquer outra mulher que carregue dentro de si o peso das expectativas da sociedade sobre a maternidade, tendo ou não o desejo de se tornar mãe.

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