Parto e pós-parto

Redes sociais no puerpério: amigas ou inimigas da autocobrança materna?

Quando os grupos virtuais começam a ditar regras de "como criar o seu bebê", talvez seja hora de repensar o consumo deste conteúdo.

por Alice Arnoldi, Fernanda Tsuji Atualizado em 24 set 2021, 15h46 - Publicado em 24 set 2021 15h43

Quando não sabemos bem por onde ir, buscar por informação e acolhimento tem ganhado outro significado com as redes sociais. Por meio de um clique ou dois, chega-se a uma vastidão de conteúdos e direcionamentos para quem está perdido. E é bem o que acontece na fase do puerpério, principalmente com mães de primeira viagem.

Em busca de amparo nos primeiros dias do bebê, conselhos mais atualizados do que os de sua rede de apoio familiar e acalento para esta fase de incertezas, muitas mulheres mergulham nas redes e grupos buscando um bote salva-vidas. Só que deste oceano de conteúdos podem vir, também, perigos.

Afinal, estamos falando de um universo de 134 milhões de pessoas conectadas, de acordo com o levantamento do Comitê Gestor da Internet no Brasil, produzindo conteúdo e compartilhando através das redes. Se por um lado, a comunidade virtual pode amparar uma mãe passando por dificuldades no puerpério, as redes também podem ser cruéis, julgadoras e, como bem sabemos, um ninho de fake news que podem confundir e impactar esta mulher em um período de vulnerabilidade emocional. Fica fácil compreender porque a saúde mental da mãe pode ficar abalada, não?

Comparações e a famosa culpa materna

Quem relata isso é Marion Di Castro, de 22 anos, que precisou sair da casa dos pais após dar à luz e passou o período puerperal sem a presença de nenhuma rede de apoio presencial. “Visitei todos os grupos que tinha, devorei toda informação de Instagram, revistas online e canais no YouTube disponíveis. Eu ficava até mesmo sem dormir, estudando conteúdos da internet”, relata Marion.

Junto com as dúvidas sobre como criar Lucas, atualmente com cinco meses, a mãe foi diagnosticada com a Síndrome de Raynaud (condição em que as extremidades do corpo ficam dormentes e frias) durante a amamentação, o que fazia com que ela sentisse muitas dores no aleitamento. Para se distrair do incômodo nos seios, ela navegava pelas redes sociais em busca de dicas e ideias.

E foi assim, neste looping diário pelo feed, que ela se deparou com perfis de comportamento que a fizeram questionar sobre o desenvolvimento de seu recém-nascido. “Eu ficava me perguntando ‘por que meu bebê tem um mês e não consegue ficar de bruços? Será que eu estou com algum problema? Será que está acontecendo alguma coisa?'”, recorda Marion.

As perguntas ecoavam em sua mente e engatilhavam uma série de sentimentos aflitivos, como insegurança de estar agindo corretamente com seu bebê e comparações desnecessárias com o desenvolvimento de outras crianças que ela via nas redes. Tudo isso, claro, recheado da famosa culpa materna por não estar sendo a “mãe perfeita”, conceito irreal e malicioso facilmente reforçado pelas redes sociais.

Marion amamentando o filho Lucas após o parto, ainda na maternidade.
Marion amamentando o filho Lucas após o parto, ainda na maternidade. Ana Di Castro/Arquivo Pessoal
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O medo de postar na internet

Como explica a psicanalista Roberta Kehdy, supervisora da rede clínica do Instituto Gerar, o puerpério é marcado por uma plasticidade psíquica vivida pela mãe. Sua sensibilidade fica aflorada para que possa aprender a se comunicar com o recém-nascido que ainda não consegue se expressar por meio da fala, além de estar mais suscetível a comentários negativos vindos de quem lhe é importante.

Só que para além de questões singulares a cada mulher, como as mudanças hormonais desde a gestação e que aumentam no puerpério, há também a cultura que sobrecarrega mães, dizendo que é preciso ser perfeita e dar conta de tudo sozinha. “A maternidade passou a ser uma escolha da mulher, diferente de quando ela era destino. Não por acaso, ela tem sido postergada na nossa sociedade que é marcada pela dimensão do controle e da tecnologia – como se tudo estivesse nas mãos da mulher, dizendo que ela deveria tomar todas as decisões. O que incrementa a dimensão da cobrança”, completa Roberta.

O caminho que deveria ser de acolhimento, mostra-se espinhoso e requer atenção para encontrar grupos que não fragilizem ainda mais a saúde mental materna durante o puerpério. “É importante que as pessoas recebam orientações de profissionais comprometidos com a ciência. Só que o problema é que, na internet, qualquer um pode dar sua opinião, expor suas crenças não baseadas em evidências científicas, mas que é convincente pela oratória”, opina a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, rede de qualificação de psicólogos e profissionais da saúde na área de perinatalidade e parentalidade.

Inicialmente inofensivo, apertar o botão de “seguir” pode ser uma armadilha quando estabelece-se uma rotina de acompanhar perfis que mostram supostas vidas perfeitas – em que a mulher voltou “magicamente” à sua forma física anterior ainda no puerpério, não enfrentou desafios durante a amamentação ou com falas que ignoram a complexidade da construção do maternar. Isso sem falar da quantidade de haters, apenas esperando a mãe postar algo para tecer julgamentos e pitacos.

“Sempre tive muito medo de publicar qualquer coisa e as pessoas acharem que sou uma péssima mãe. Por exemplo, quando quero postar uma foto minha, penso se vão perguntar do Lucas e questionar por que estou postando foto sozinha. Inclusive, quando pintei meu cabelo, fiquei com muito receio das pessoas me procurarem para perguntar se eu devia estar fazendo isso já que amamento”

Marion Di Castro

Neste duro cenário, Marion entra para a estatística do levantamento realizado pela Refinery29, em 2019, em que 82% das 500 mães canadenses entrevistadas comparavam-se com outras figuras maternas na internet e 69% sentiam-se inseguras em relação a própria maternidade.

Mesmo com Lucas celebrando cinco meses de vida, Marion ainda não conseguiu postar como foi o nascimento do pequeno ou seu processo de amamentação e mantém seu perfil fechado no Instagram.

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Afinal, não é só um follow...

E como tudo relacionado à internet, há também o outro lado. A psiquiatra Juliana Cavalsan, especializada em atendimento à saúde mental da mulher, pontua que um dos motivos para o desenvolvimento de transtornos psicológicos, durante o puerpério, é a falta de suporte social – definido como ausência de qualquer pessoa que consiga olhar para a demanda da mãe antes mesmo de se referir ao bebê. Assim, encontrar apoio virtual adequado e positivo pode atenuar quadros como o de depressão pós-parto, que atinge até 25% das mães brasileiras, segundo dados do estudo “Factors associated with Postpartum depressive symptomatology in Brazil: The Birth in Brazil National Research Study“, publicado no periódico científico Journal of Affective Disorders.

“Quando um grupo consegue ouvir uma mulher deprimida, que diz que quer sumir e não cuidar do bebê, e entende a situação como um sintoma depressivo, ele também vira um suporte social”, reflete a psiquiatra. Foi o que aconteceu com a criadora de conteúdo Luana Ferrão, de 31 anos, mãe do Vlad, de um ano e oito meses.

Mineira, mas morando no Rio de Janeiro, ela conta que após o primogênito nascer, o combinado era de que sua mãe passasse pelo menos um mês em sua casa para ajudá-la com o pequeno. “Mas os problemas começaram no parto e duraram até o primeiro dia que voltamos com Vlad para casa, porque ela não aceitava a forma como decidimos fazer os primeiros cuidados dele”, lembra a criadora de conteúdo.

Na pesquisa “Índice de Parentalidade”, divulgada em fevereiro de 2021 e realizada pela Kantar, 71% das mães e pais brasileiros sentem que pessoas próximas sempre têm um comentário inconveniente para fazer sobre a criação de seus filhos.

O embate fez que com que Luana precisasse enfrentar a ausência de uma rede de apoio presencial no puerpério, potencializado pela pandemia da covid-19 que trouxe anda mais isolamento social como consequência. A saída encontrada pela mãe foi recorrer aos grupos virtuais.

“Foi por meio das redes sociais que eu descobri o que sei hoje sobre amamentação e criação com respeito e é por elas que percebi que não sou a única que quer fazer as coisas de forma diferente. Também foi pelos grupos que me senti validada nas dificuldades e até hoje é assim”, conta Luana. Um dos percalços que ela superou com a ajuda do suporte virtual foi o diagnóstico de APLV do filho, que trouxe dúvidas respondidas carinhosamente por outras mães na mesma situação.

Esta validação que a criadora de conteúdo comenta, segundo Roberta, tem ainda mais importância no puerpério. “É um momento que a mulher está mais suscetível aos comentários, porque ela está começando a exercer uma função nova, em que não tem tanta confiança e por isso, muitas vezes, é importante o reconhecimento do outro diante do que ela está fazendo”, detalha a psicanalista.

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(Re)aprendendo a navegar...

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Arte: Victoria Daud/ Foto: Vera Livchak/Getty Images

Assim, ao ponderar sobre o uso das redes sociais no período após o nascimento do bebê, Juliana alerta sobre os possíveis sinais de que a internet pode estar prejudicando a saúde mental materna. “Como ficar preocupada querendo checá-las o tempo inteiro, sabendo o que vão comentar, além da irritabilidade e choro que extrapolam para o dia inteiro”, exemplifica a psiquiatra.

Isso sem falar do possível prejuízo subjetivo, quando a consequência é na psique feminina. “Se os grupos funcionarem como espaços de reconhecimento e troca de experiências podem ser muito benéficos. O problema acontece quando eles passam a ditar regras e promovem o ‘jeito certo’ de cuidar do bebê, porque isso não existe”, defende a psicanalista.

Discutir sobre o consumo saudável dos conteúdos virtuais ou sobre a influência que eles possuem na nossa vida é o primeiro passo para encontrar um equilíbrio. Porém, como tudo relacionado às redes sociais, os reflexos da maneira como nós lidamos com elas ainda estão no porvir e são objetos de muito estudo comportamental. Por agora, o que podemos fazer é observar com um olhar crítico nossos hábitos e tentar compreender que, neste caso do puerpério, estamos falando de um turbilhão associado a um período específico da vida materna – e que ele vai passar.

Com o tempo e a vivência, podemos ir nos desvinculando do que é negativo nas redes e grupos, aprendendo a filtrar os julgamentos e o grau de exposição, sem medo de apertar o “unfollow”, ao mesmo tempo em que reforçamos nossas descobertas individuais na parentalidade. Mais fortalecidas, vamos desenhando a relação com o filho para, enfim, poder aproveitar o lado positivo – mais de apoio, menos de dependência – que a internet pode ter na construção do nosso maternar.

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