Sobrecarga materna aumenta durante pandemia. O que fazer a respeito?

Se é preciso uma vila para criar uma criança, como diz o ditado, também é imperativo que a vila volte suas atenções à saúde mental da mulher.

Os relatos pipocam pelas redes e especialistas confirmam: a quarentena está deixando as mães (ainda mais) exaustas. “O acúmulo de tarefas ‘invisíveis’ nos cuidados com casa, família e filhos, além do trabalho remunerado, se escancarou com a pandemia”, destaca a psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar e autora do livro “Criar Filhos no Século XXI”. 

Sem a rede de apoio que antes existia, sem escolinha e sem divisões sobre o que é tempo para si, para os outros e para o trabalho, a carga mental e a insistência do famoso mantra “tenho que dar conta de tudo” traz sofrimento e pode até adoecer. “O reflexo disso é o cansaço físico e mental absurdo, aquela sensação de não desligar nunca, que acaba exaurindo a mulher”, completa Lia Abbud, jornalista e criadora do Projeto Fatigatis, que busca discutir a sobrecarga e traçar estratégias para promover o bem-estar materno. 

“O trabalho mais do que dobrou, quintuplicou. Me sinto mais cansada, nervosa, com menos capacidade de concentração e muita pressão de todos os lados”, relata Carolina Ricardo, diretora executiva do Sou da Paz, que tem que conciliar a gestão da instituição sem fins lucrativos com os cuidados com os filhos Gael, 4 anos, e Leticia, 7. “Estamos numa casa em que as tarefas são bem divididas, mas a carga emocional da mulher é maior”, completa. 

De olho nessas diferenças, a ONU Mulheres alerta que o período de quarentena pode ser mais difícil para elas, que, além de serem em média três vezes mais responsáveis por cuidados não remunerados em casa do que os homens, ainda são, em boa parte, trabalhadoras informais e mal remuneradas.

“Em última instância, a sobrecarga pode levar à depressão e sintomas de ansiedade”, destaca Lívia Beraldo de Lima Basseres, psiquiatra e mestre pelo Instituto de Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (IPQ-FMUSP).

Carga mental

Termo que engloba pressões emocionais e psicológicas relacionadas a algum tipo de trabalho. No caso das mães, uma parcela significativa da carga mental se traduz no tempo planejando e gerenciando a vida familiar, mesmo quando há alguém para dividir as tarefas. 

“Eu cheguei no meu limite”

Ouvir os relatos das mães que estão tendo que conciliar trabalho e cuidados com os filhos nessa quarentena deixa ainda mais claro o tal cansaço. “Meu estado mental não foi evoluindo, foi deteriorando”, conta Ana Paula Megda, designer e empreendedora de Joinville/SC, mãe de Arthur, de 1 ano e dois meses. 

Depois de passar quase um ano conciliando trabalho e cuidados em meio período com o filho, em janeiro, Ana tinha voltado a se dedicar em tempo integral ao trabalho. “Quando tinha reconquistado meu espaço como mulher e profissional, a escolinha fechou e senti que tinha perdido tudo”, relembra. Logo no início da quarentena, quatro dentes do pequeno nasceram de uma vez, acentuando problemas pré-existentes para dormir. 

Foi nesse furacão que veio o colapso. “Há duas semanas, cheguei no limite, sentia uma depressão estranha, uma infelicidade profunda, pensando que não ia dar conta de tudo, o bebê querendo mamar, eu precisando trabalhar, cada vez mais exausta”, relembra ela, que acabou recrutando ajuda da sogra.

Ana e Artur

Ana e Artur (Reprodução/Arquivo Pessoal)

Furar a quarentena é uma alternativa quando não há mais onde se apoiar, e é comum que a mãe acabe recorrendo a esse recurso, ainda que ele não seja o indicado no momento de isolamento social cada vez mais fundamental. 

“Meu filho é uma criança tranquila, mas teve um pico de estresse muito grande um dia, com choro e agressividade, percebi que precisávamos de um tempo um do outro, e ele ficou três dias na casa da minha mãe para eu me restabelecer”, relembra Bruna Migues Zamana, 37 anos, jornalista de Santos, mãe de Eduardo, de 4 anos. 

Com o marido viajando à trabalho, Bruna estava lidando sozinha com casa, o filho, um MBA e o trabalho como freelancer quando precisou pedir socorro. 

Bruna e a paz restabelecida com o pequeno Eduardo.

Bruna e a paz restabelecida com o pequeno Eduardo. (Reprodução/Arquivo Pessoal)

Divisão mais justa de tarefas 

Mesmo quando parceiros ou parceiras estão mais tempo em casa e dividem as tarefas, mulheres ainda sentem essa carga extra – e até mais potencializada. “Em uma situação como a quarentena, a mãe é exposta de forma intensa ao desconforto de ter que refletir sobre o relacionamento que já estava ruim, a divisão desigual de tarefas, sem uma válvula de escape”, destaca a psicanalista Elisama Santos, autora do livro “Por que gritamos?”

A saída mais saudável é o diálogo, por mais desconfortável que ele seja. “Esperamos que o outro faça ou perceba que estamos cansadas e ficamos ressentidas quando isso não ocorre, mas, se quero viver de uma maneira igualitária em uma sociedade machista, preciso lutar por isso, começando pelo meu próprio casamento”, comenta Elisama. 

Se a conversa não corre, o risco é nutrir ressentimentos que acabam funcionando com uma bomba relógio, que explodirá em brigas pouco produtivas. “Nossa recomendação é fazer um exercício de listar tudo o que tem ser feito na casa, tudo mesmo, e quem costuma ser responsável por essas tarefas”, ensina Lia. 

Cabe ao parceiro escutar e absorver o conceito de carga mental. “A mulher tem que ser ouvida e sua queixa de exaustão valorizada por ele”, destaca Livia. Parte do diálogo envolve compreender que determinados afazeres não são “responsabilidade da mulher”. “Certas tarefas, especialmente no cuidado dos filhos são delegadas a elas por contextos históricos e culturais, mas a responsabilidade é dos dois”, destaca Lia. Entender isso é o primeiro passo para equilibrar as coisas. 

Ajustes internos 

Claro que o alívio da carga mental não depende só da mulher, mas é fundamental que a mãe passe por um período de reflexão. “Diminuir metas, impor limites, não imaginar que a casa estará perfeita, o trabalho perfeito, a criança impecável. Essas expectativas todas precisam ser repensadas”, reflete Vera. 

Parte do processo é pedir ajuda quando preciso. “A mulher assume esse papel de forma crítica, pois quando reclama que tem que fazer tudo, ela também está se vangloriando por conseguir fazer, só que de fato é impossível dar conta de tudo, daí vem o sofrimento”, continua Vera. 

Lidar melhor com a sobrecarga também exige resgatar momentos de autocuidado. “Ficamos com as sobras, quando dá tempo fazemos algo para nós, mas precisamos nos colocar como prioridade também”, aponta Elisama. 

Quando o tempo é escasso, qualquer minutinho vale. Seja em coisas simples, como um banho demorado enquanto a criança está dormindo, fazer uma videochamada com uma amiga, passar um creme demorado no corpo ou o simples fato de aceitar a própria dor e chorar sem julgamentos. 

Agora, se a estafa levou a um adoecimento físico ou psicológico, com presença de insônia, distúrbios alimentares, sintomas depressivos e crises de ansiedade, o ideal é procurar ajuda profissional. Hoje diversos serviços e entidades estão oferecendo acompanhamento psicológico gratuito de maneira remota.  

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Contextos sociais diferentes, problemas diferentes 

Privilégios e privações influenciam no impacto da pandemia na saúde mental materna. “As diferenças sociais são brutais em um país como o nosso, então temos todo tipo de situação: mulheres sozinhas em casa com as crianças, com seus companheiros e companheiras e diferentes recursos”, pondera Vera.  

Em relatório sobre a situação feminina na pandemia, o Think Olga destaca que a maioria das brasileiras, principalmente as mulheres negras, enfrentam uma realidade de vulnerabilidade econômica e que a situação das mães é ainda mais difícil. Para se ter ideia, 63% das casas chefiadas por mães negras com filhos de até 14 anos sobrevivem com cerca de R$ 420 mensais.

“O mundo do trabalho expulsa essas mulheres, que acabam cuidando dos filhos de outras e vivendo jornadas triplas, pela sobrevivência dos seus filhos, dos familiares com quem dividem a casa e pela própria”, aponta o texto.

Os efeitos da pandemia são ainda mais nefastos para as mães solo e chefes de família que vivem com uma renda já limitada, frequentemente do trabalho informal, agora prejudicado. “Para elas é um pesadelo, pois não há espaço para respirar ou tempo para si, e muitas delas não podem nem trabalhar por não ter com quem deixar os filhos nesse período”, realça Elisama. 

“Podemos fazer ações civis importantes, como continuar pagando os profissionais que contratávamos, realizar doações, mas é dever do estado proteger essa mulher”, destaca Vera. São medidas como o auxílio emergencial de R$600 anunciado pelo governo, que será pago em dobro para mães que criam os filhos sozinhas. 

Na semana do primeiro Dia das Mães no “novo mundo”, essa discussão certamente deve vir antes das comemorações.

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