Como proteger as crianças quando os pais testam positivo para coronavírus?

Ainda que os pequenos sejam menos suscetíveis à doença, é preciso reforçar os cuidados de prevenção como uso de máscara e o isolamento possível.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 14 jan 2022, 08h12 - Publicado em 11 nov 2020, 18h22

Mesmo com números menos alarmantes de casos de Covid-19 devido ao avanço da vacinação em território brasileiro, a pandemia causada pelo coronavírus continua acontecendo e famílias seguem enfrentando dilemas. Por exemplo, o cenário tem levado pais a testarem positivo para a doença e tendo dúvidas do que fazer com os filhos pequenos que convivem na mesma casa.

Até então, as descobertas reforçam que crianças tendem a ter menos chances de contrair a doença. E, caso testem positivo, a propensão é que sejam assintomáticas ou desenvolvam sintomas leves, como lembra a pediatra Lilian Zaboto, membro da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBIm).

Só que ainda que as constatações científicas tragam alívio para os pais, é importante manter em mente que não dá para descuidar. Ao descobrir um caso positivo na família que divide a mesma casa, as recomendações médicas são principalmente para reforços de protocolos de proteção contra a Covid-19 para que cada um, ao cuidar de si e de quem está próximo, ajude a conter a propagação do vírus.

O isolamento social dentro de casa

Junto com a lavagem das mãos e o uso de álcool em gel por toda a casa, a primeira medida indicada por Lilian é de que os pais tenham o cuidado de manter o distanciamento de dois metros dos filhos. “É preciso segregar os ambientes. A mãe ou o pai, que testaram positivo, terão que ficar em um local mais restrito, isolado da criança”, completa a especialista.

Só que nós sabemos que esse afastamento dentro de casa pode ser desafiador para o pequeno. Pensando nisso, a pediatra Melissa Palmieri, coordenadora médica do Grupo Pardini e especialista em vigilância em saúde pelo Ministério da Saúde, orienta os pais a apostarem em atividades lúdicas com os filhos para ajudá-los a assimilar os dias longe e entenderem que a culpa não é deles.

Para os maiorezinhos, dos quatro aos seis anos, uma boa dica é montar um calendário de 14 dias, em que a criança preenche cada um deles com adesivos ou desenhos. E explicar que, cada vez mais, ela está próxima de alcançar o final da espera e que, em seguida, poderá fazer algo divertido com os pais  – como tomar o seu sorvete favorito ou ir ao parque, respeitando as medidas de higiene.

Agora, máscara não é só na rua

O teste positivo dos pais com filhos pequenos pede que o item de proteção também seja mantido em casa quando transitarem por áreas comuns, especialmente naquelas que as crianças costumam passar mais tempo.

“Se puder, use a máscara cirúrgica e troque-a, dependendo de umidificar ou não, de duas a quatro horas para evitar a contaminação”, pontua Melissa. A pediatra também esclarece que, para os maiores de dois anos, a proteção também deve ser usada por eles quando estiverem nestes ambientes compartilhados com os pais infectados.

“E nós sabemos que criança também tem risco de coçar os olhos. Então, às vezes, a saída pode ser comprar um óculos de mentira de plástico e falar que ele é para protegê-los”, orienta a especialista.

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Reforce a limpeza 

  • Itens pessoais: Tanto Lilian quanto Melissa aconselham pais a separarem os objetos usados por eles. Os que devem receber mais atenção são os que tiverem contato direto com a saliva ou outras secreções respiratórias, como copos, talheres e pratos. O ideal é que eles sejam lavados separadamente do que é usado pela criança.
  • Áreas em que a criança brinca: Já no chão em que os menores usam para fazer atividades, Lilian orienta o reforço da sua limpeza de duas a três vezes por dia. Melissa explica que essa higienização pode ser feita tanto com hipoclorito de sódio 0,5% quanto com álcool a 70% – este segundo é mais indicado para os brinquedos, por exemplo, que também precisam ser limpados.
  • Ambientes comuns da casa: Ainda que o recomendado seja evitar que pais e filhos fiquem no mesmo local quando há coronavírus, sabemos que nem todas as casas (ou apartamentos) possuem mais de um mesmo cômodo básico, como banheiro. Neste caso, Melissa cita que é necessário uma desinfecção antes da criança usá-lo, com os mesmos produtos do tópico anterior. O mesmo vale para cozinhas, mas com o ênfase de Lilian sobre a rotatividade de crianças fazerem suas refeições em horários diferentes de quem está infectado.

Passar um tempo na casa de outro parente ou não?

Ao perceber as dificuldades de colocar o distanciamento em prática dentro de casa e o medo do filho ser contaminado pelo vírus, não é incomum que pais pensem em pedir para alguém da família ficar com o pequeno ou contratar um cuidador, quando o orçamento permite.

Essa decisão pede alguns cuidados. O primeiro deles é se a pessoa que irá conviver com esta criança faz parte do grupo de risco da doença ou não. “Porque pode ser que ela até se contaminou nesse tempo com os pais, não se tem um resultado de exame, e pode levar a doença para os avós, por exemplo”, detalha Lilian.

Há também a necessidade de entender como está a saúde mental dos pequenos, que foi amplamente atingida pelo período de isolamento social e pode ficar ainda pior com o afastamento completo dos pais.

“Como pediatra, vejo as crianças sofrendo demais emocionalmente com tudo o que está acontecendo. É um risco que vamos ter no futuro de crianças deprimidas, tristes dentro de casa, se culpando por não poderem ver os avós porque podem transmitir uma doença que leva à morte, e outras que já até passaram por essa situação“, lembra a pediatra.

Só que mesmo ponderando os prós e contras, existem casos que não há outra saída a não ser pedir ajuda, como a criança fazer parte do grupo de risco da doença ou os pais estarem em estado grave, ficando impossibilitados tanto de cuidar de si quanto do filho.

Em casos em que a família recorre a um parente próximo ou cuidadores, Melissa explica: “Deve-se falar com o pediatra para ele orientar quando fazer os exames. E, enquanto se tem a dúvida se a criança está ou não infectada, eles devem tomar todas as medidas de higiene como se ela estivesse”.

Quando o convívio normal com a criança está liberado?

Assim como no começo da pandemia, a prescrição médica continua a ser reforçar os protocolos de higiene por 14 dias. “Infelizmente, hoje, o CDC ou a sociedade científica brasileira não estão recomendando fazer o PCR após esse período, ou a coleta de anticorpos para certificar que parou a transmissão. O que sabemos é que a partir do décimo, 14º dia, o paciente não está mais excretando o vírus. Então, existe essa liberação”, pontua Melissa. 

Só que esse intervalo só é válido se a pessoa infectada não apresentar mais nenhum sinal relacionado ao Covid-19. “Qualquer sintoma que persista pode traduzir num risco de, mesmo em uma carga viral pequena, estar ainda acontecendo uma transmissão – o que é raro”, detalha a pediatra.

Vale lembrar também que as descobertas científicas sobre a contagem de anticorpos produzidos após o contágio não garantem 100% proteção contra reinfecção. Portanto, quando a família se cura do coronavírus, o aconselhado continua a ser manter contato apenas com um grupo restrito de pessoas, onde há como fazer o controle de casos da doença, quando e se ela aparecer.

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