Entenda como o medo que os pais sentem do coronavírus reflete nos filhos

Os prejuízos na saúde mental dos adultos podem acabar refletindo nas crianças e, para contorná-los, é preciso reconhecer os gatilhos das emoções ruins.

Depois de cinco meses intensos vivendo as consequências negativas do novo coronavírus, não é por acaso que há um cansaço massivo de ler e ouvir sobre o assunto. Este desgaste psicológico acaba fazendo com que nós, adultos, criemos um filtro diante das informações que não param de chegar. Mas essa diferenciação não é tão fácil para as crianças.

No início da pandemia, conversamos com especialistas para entender a importância de um diálogo sincero com os filhos para que eles não ficassem perdidos diante da doença que mudou a rotina das famílias. Relembre aqui o que eles disseram. O cuidado principal era conduzir a explicação sem fugir da realidade, mas com cuidado para não entrar em detalhes assustadores. Entretanto, o cenário brasileiro foi ficando cada vez mais complicado e o medo chegou aos pais e também às crianças.

Ainda que tenhamos o reforço social de que todo sentimento que foge à alegria é ruim, o medo é importante para a formação do ser humano. É ele quem faz com que as pessoas fiquem alertas e se cuidem – como no caso do Covid-19, com o isolamento social e as medidas de higiene reforçadas. Só que a pandemia tem se estendido para além disso, com situações em que ele deixou de ser saudável para os pequenos.

Com o acesso constante às informações da doença pelas mídias e demonstrando preocupação excessiva com a situação em frente as crianças, o sentimento de desespero pode acabar se estendendo para elas. “As crianças formulam as próprias explicações da realidade, mas percebem o que está acontecendo e estão ouvindo o que os pais estão falando”, explica Ana Priscilla Christiano, professora do Departamento de Psicologia da PUCPR e doutora em Psicologia da Educação.

Esta imersão na realidade pandêmica tem feito os pequenos terem medo da contaminação pelo coronavírus. Mais, mais do que isso, a psiquiatra Danielle Admoni, especialista em infância e adolescência pela Unifesp, explica que eles também se questionam se perderão os pais quando eles saem, seja para trabalhar ou para outras necessidades do período.

A atenção reforçada para os grupos de risco nos últimos tempos, em especial os idosos, também pode ser resultado de pensamentos de temor sobre os avós. As crianças criam uma ligação simplista de que o vírus tende a contaminá-los com mais facilidade e, unindo ao fato de que não podem mais encontrá-los, acabam concluindo que os velhinhos não estão bem.

Então o que fazer neste momento?

Para entender se esta é a realidade da criança, é importante que os pais fiquem atentos aos sinais físicos que ela pode apresentar como projeções do medo, já que há um limite na sua capacidade de verbalizá-lo.

Ana Priscilla detalha que os pequenos podem ficar mais irritados, agitados ou até mesmo caminhar para uma falta de concentração no que estão fazendo. Danielle também chama atenção para os quadros de sono e alimentação, tendo como parâmetro como eles estavam antes da pandemia.

A professora do departamento de Psicologia também alerta para crianças que transformam a doença em brincadeira. Ela explica que os pequenos desenvolvem diferentes linguagens conforme os anos vão passando, e a representação do medo através do lúdico pode ser uma delas. “Em um primeiro momento, ela mostra com o seu próprio corpo. Depois, simbolizando – desenhando, brincando, e contando histórias”.

As referências são diferentes em uma pandemia

Para diferenciar o medo saudável daquele que está prejudicando a saúde mental das crianças, causando algum tipo de sofrimento, as especialistas explicam que não querer conviver com outras pessoas ou deixar de sair de casa podem ser termômetros.

Danielle, no entanto, explica que para analisar o quadro de medo é preciso entender com que frequência as mudanças comportamentais estão acontecendo – até mesmo porque é normal que, após tanto tempo em casa, a criança não queira sempre fazer o que os pais propõem ou tenham alterações em dias pontuais. Mas caso as oscilações sejam frequentes, é preciso cuidado.

Também é importante que os adultos analisem se a conduta diferente não acontece apenas com eles, mas com outros ciclos sociais que o filho mostrava interesse. “Não é só mudar o comportamento com os pais, mas com a escola, os amigos e o resto da família, ainda que estejam distantes”, pontua a psiquiatra.

A conversa precisa ser sincera

Para que a criança consiga sair deste limbo, é importante que os pais não subestimem a sua capacidade de percepção e sejam coerentes entre o que dizem e o que fazem. Fica mais difícil para o filho assimilar quando ouve que não tem nada acontecendo e não precisa se preocupar, enquanto as ações dos pais dentro de casa demonstram desespero.

Isso não significa que os adultos devam criar armaduras emocionais, ignorando os próprios sentimentos. O caminho é exatamente o oposto: começando pela validação das emoções dos pais e partindo para a das crianças, como pontua o psiquiatra Guilherme Polanczyk, membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

É muito importante para as crianças perceberem que os pais também ficam com medo, preocupados e tristes, mas que isso não os derrubaram ou que deve ser evitado. Pelo contrário, nós ficamos mais fortes e inteiros quando entendemos nossas emoções e lidamos com elas”, detalha o especialista.

Para isto, Guilherme enfatiza que é importante analisar quais situações do dia a dia têm acarretado em prejuízos na saúde mental dos adultos e das crianças – como não reservar intervalos do dia para distrair a mente e não ter um filtro das informações que têm consumido sobre o coronavírus.

Especialmente para as crianças menores, Danielle reforça que vale esperar a criança perguntar sobre as dúvidas que foram surgindo no decorrer do tempo. “E não precisa entrar em detalhes, tragédias, porque a criança não tem esse preparo psíquico”, completa.

As chamadas de vídeo também podem ajudar os pequenos a entenderem que existe uma vida acontecendo fora do núcleo familiar, ainda que diferente do que conheciam. Inclusive, as que são feitas com os amigos podem facilitar a compreensão do medo ao perceberem que os seus iguais estão passando pelo mesmo. Essa identificação é essencial para conseguir administrar melhor as inconstâncias desta fase!

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