Luto infantil: como falar sobre morte com crianças pequenas

Na pandemia, a necessidade de conversar sobre perdas ficou mais evidente. Veja como a criança vive o luto e a importância de abordar o tópico em família.

Se há uma certeza nessa vida, é a morte, já diria o ditado. Entretanto, ela segue sendo tabu na nossa sociedade e motivo de medo e angústia para adultos, que evitam tocar no assunto com as crianças pequenas, mesmo quando alguém da família morre. 

Só que a Covid-19, que até agora j�� fez mais de 80 mil vítimas fatais no Brasil (fora a subnotificação), colocou a morte no cotidiano de muita gente. Para os especialistas, ela deve ser encarada com a maior sinceridade e clareza possíveis, mesmo com os bem pequenos, e sentida em família, com toda a complexidade e intensidade que a envolvem. 

A aproximação com o tema deve ocorrer, aliás, antes que alguém próximo faleça. “Esperar a criança perder para ensinar a ela sobre perda é como agir só na crise. Os adultos ficam desconfortáveis, mas ela deve entrar em contato gradualmente com o ciclo da vida”, explica Isabela Hispagnol, doutora em Psicologia Clínica pelo Laboratório de Estudos sobre o Luto (LELu) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). 

“Dá para fazer isso a partir das historinhas, sem maquiar ou amenizar a história quando algum personagem morre, ou quando ela perde um animalzinho de estimação”, continua a psicóloga. “Isso não leva ao sofrimento, mas sim ao desenvolvimento de resiliência na criança para que ela lide melhor com o sofrimento que ocorrerá diante de uma perda realmente significativa”, completa. 

Crianças pequenas sabem o que é morte? 

Na primeira infância, até os três anos, o fim da vida é percebida apenas como ausência. Entre os três e os cinco, a criança até começa a assimilar a morte, mas ainda cerceada pela sua imaginação infantil. “Muitas vezes, elas ficam na ilusão de que a pessoa vai voltar e só está dormindo ou viajando”, comenta Deborah Moss, neuropsicóloga mestre pela Universidade de São Paulo (USP). 

A partir dos seis, fica mais claro para ela que a morte é inevitável e irreversível, mas o processo até a compreensão plena é longo. “A consciência da finitude da vida só ficará totalmente estabelecida a partir dos nove anos de idade”, aponta Marilia Zendron, Psico-Oncologista da Clinonco, especialista em teoria, pesquisa e intervenção em luto. 

Como falar sobre morte com as crianças 

Justamente por conta da falta de compreensão dos menores, o ideal é comunicar sempre de maneira clara que a pessoa morreu e não irá voltar. Para isso, use uma linguagem adequada à idade, sem entrar em detalhes desnecessários, exceto que ela pergunte, e evite metáforas.

“Dizer apenas que ela virou uma estrelinha ou foi para o céu, pode confundir a criança pequena, que tem um raciocínio concreto, então passa a acreditar que a pessoa só está em outro lugar de onde é possível retornar”, explica Deborah. Até é possível usar a religião como conforto, mas deixando claro que a morte aconteceu mesmo. 

Outro revés da metáfora é que ela pode gerar o sentimento de culpa.”A criança pode achar que fez algo errado que motivou a partida da pessoa e está impedindo sua volta”, complementa Isabela. Como consolo, depois de dar a notícia, explique dentro do possível que ela poderá sempre lembrar da pessoa no seu coração e sentir alegria quando pensar no que viveram juntos. 

Se a morte não é repentina, como a de alguém que passa um longo período gravemente doente, por exemplo, o ideal é preparar o terreno para a possibilidade do falecimento. “Dentro da linguagem dela, é bom explicar que a doença é complicada, que a pessoa pode não voltar do hospital, e conversar com ela sobre o que está acontecendo e quais são seus sentimentos”, ensina Marília.

E quando quem morreu é o pai ou a mãe? 

Quando a morte atinge o núcleo familiar, até mesmo o bebê terá que viver o luto da ausência de uma das suas principais referências de vida. “O mais importante para os pequenos é que eles se sintam seguros de que outra pessoa irá assumir os cuidados que o ente perdido executava”, aponta Isabela. 

A conversa sobre a morte e o apoio à criança no processo de luto pode ser difícil para quem perdeu o companheiro. Nessas horas, conte com alguém da família. “O pai que perdeu a mãe ou vice-versa não conseguirá falar com o filho sobre isso, mas alguém próximo, como uma avó, pode assumir esse papel”, destaca Marilia. 

Essa pessoa pode ainda observar possíveis alterações que indiquem que a criança está em sofrimento e pode precisar de ajuda psicológica. Ela pode demonstrar isso em brincadeiras, procurando o genitor que faleceu, ficar mais quieta, ter seu desempenho escolar prejudicado e por aí vai. 

Morte em tempos de pandemia 

O ritual de despedida é importante, mesmo que não aconteça nos moldes tradicionais. “Ele dá contexto à perda, abre espaço para o sofrimento, para as pessoas dizerem coisas, serem amparadas socialmente”, elenca Isabela. Com muitas cidades não permitindo velórios, uma possibilidade é a realização de cerimônias virtuais.  

Cada família escolhe o que funciona melhor, pode ser uma reza ou o resgate de histórias daquela pessoa, mas a criança não pode ficar de fora. “Pergunte a ela como ela gostaria de se despedir, o que gostaria de falar, o que está sentindo…”, orienta Deborah. Soltar um balão no céu, fazer um desenho, cantar uma música são sugestões bacanas para fazer com os pequenos.

Crianças devem ir em funerais? 

A decisão é de cada família, nem todos se sentem confortáveis, mas é certo que o velório facilita a percepção da morte. “Aconselho os pais a levarem, por pouco tempo, evitando as horas mais críticas como o fechamento do caixão e o sepultamento”, conta Isabela. 

Como explica a Sociedade Brasileira de Pediatria em seu site, durante o funeral a criança pode demonstrar curiosidade com o corpo do ente querido, e fazer perguntas como “que horas ele vai acordar?” Se os adultos não conseguirem responder no momento, devem abrir espaço para a criança retomar as questões quando se sentirem mais fortalecidos para isso. 

Quando a morte é evitada… 

… A criança pode não assimilar bem a partida e acabar sofrendo com efeitos negativos em seu comportamento. Ela pode ter, até meses e anos depois, alterações de comportamento, queda de rendimento, agressividade, alterações de apetite, sono e mais propensão à ansiedade. 

Para todas as especialistas ouvidas pela reportagem, o luto precisa ser vivido, não evitado, por mais difícil que isso seja. É ele que permite não só que a dor seja curada, mas dividida. Os adultos, como sempre, são o exemplo. “Devemos evitar dizer coisas que possam sobrecarregá-las, mas não podemos deixar de compartilhar com elas a dor”, ensina Isabela. 

“Quando você esconde a tristeza, ensina ela de alguma forma a esconder isso também, e o que acontece é que a criança fica com medo de se expressar sobre suas emoções”, complementa. “Viver o luto em família é fazer com que ela se sinta parte dessa dinâmica, e nesse contexto posso dizer que estou chorando porque sinto saudades”, encerra Isabela. 

Até por isso, não adianta esconder as fotos de quem morreu. A lembrança do falecido deve ficar viva e valorizada. Existe uma ideia de que esquecer é melhor, mas o vínculo da criança com aquela pessoa seguirá pelo resto da vida.

Por fim, há um lado bom de passar por esse processo sem maquiar as emoções. Ora, a educação para a morte ensina a viver. “Quando podemos explicar para a criança que a perda é parte da vida, estamos trabalhando também a ideia da mudança, que pode trazer coisas boas, e de que, na perda, podemos também encontrar nossas forças”, encerra Isabela. 

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