Tudo o que você precisa saber sobre a prática de ioga durante a gravidez

Um guia prático para que você, gestante, conheça os benefícios, contraindicações e principais recomendações referentes à prática de ioga durante a gravidez.

Por Ketlyn Araujo Atualizado em 5 mar 2021, 20h06 - Publicado em 6 mar 2021, 10h00

Inspira, expira, alonga, medita… Não é de hoje que a prática de ioga vem se popularizando entre as mais diferentes faixas etárias e pessoas de estilos de vida distintos. E, não por acaso, ganhou ainda mais atenção devido a pandemia de coronavírus, o cansaço físico e mental e a necessidade de ficar em casa, já que quando ministrada corretamente é diversa e envolve exercícios de postura, alongamento, respiração, meditação e relaxamento.

Com esta disseminação da potência da modalidade, muitas gestantes também acabaram pegando gosto pela ioga, ou sentindo uma vontade de se aventurar a conhecer o que o método, pois desde que se tenha o aval médico, ele pode contribuir para uma gestação mais tranquila e saudável.

Para tirar todas as suas dúvidas sobre o tema e conhecer os benefícios da prática durante a gravidez, conversamos com as especialistas Anne Sobotta, idealizadora do projeto interdisciplinar de prática somática perinatal Birth in Motion e professora de ioga para gestantes durante 15 anos, e Carmen Perez, também professora da modalidade há mais de cinquenta anos e especialista em preparação de gestantes para o parto natural.

Toda grávida pode praticar Ioga?

A princípio sim, mas com ressalvas. Anne explica que é bem comum, ao falamos sobre a ioga, “colocarmos tudo no mesmo saco”, quando, na verdade, o que existem são muitas práticas diferentes. Se considerarmos a ioga como uma atividade física de intensidade moderada – que, para os médicos, é algo benéfico e permitido na gravidez – existem algumas restrições, mas elas são as mesmas que se aplicam a qualquer outro tipo de exercício físico.

“A recomendação de repouso total para gestantes, hoje em dia, é muito menos indicada pelos médicos. Dentro da ioga existem práticas que vão ser benéficas para essa gestante, pois vão focar no relaxamento, no trabalho respiratório, de mobilidade e consciência corporal mais suave. Entretanto, são poucos os profissionais que trabalham dessa forma”, completa a especialista.

Carmen sugere que grávidas procurem por aulas de ioga com abordagens pensadas para gestantes dentro desse universo, que vão ajudá-las a manterem e fortalecerem o vínculo com esse novo ser, seja por meio das asanas (posturas), dos pranaiamas (exercícios de respiração), dos mantras ou das meditações.

De qualquer forma, é sempre importante consultar o médico antes de iniciar a prática, até para entender melhor sobre sua gravidez e restrições mais específicas. É essencial fazer o pré-natal e avaliar caso a caso a situação de cada pessoa e, quando existirem complicações, reavaliar a continuação ou não da atividade.

“Em alguns casos, como descolamento de placenta, é melhor que a gestante não comece a praticar ioga, e isso vai de acordo com aquilo que o médico liberar. Os casos de placenta prévia também causam restrições, sendo recomendado focar apenas nas meditações, relaxamentos e pranaiamas”, indica Carmen.

  • Quando começar e até quando praticar?

    Segundo Anne, apesar de no primeiro trimestre da gravidez ocorrerem mais perdas gestacionais, a prática de atividade física durante esse período não está relacionada a elas, ou seja, não há contraindicações ou hora certa para começar a fazer ioga na gestação, desde que ela seja permitida pelo médico.

    Só que é ainda no primeiro trimestre da gravidez que as mudanças hormonais apresentam-se de maneira mais intensa, o que pode despertar uma maior sensação de cansaço e mal-estar. Portanto, se a gestante quiser sentir-se mais segura, o ideal é esperar o período passar para começar a se exercitar:

    “A partir das doze semanas a gestante pode iniciar a prática com maior segurança. Antes disso, o novo ser está passando por um processo de adaptação e ajuste, e é recomendado que se dê esse tempo”, opina Carmen.

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    Não existem problemas, ainda, em fazer ioga até o momento do parto, já que se não há nenhuma complicação específica na gravidez, não existe motivo para essa mulher interromper a prática, que novamente não deve ser de alta intensidade ou ministrada em ambientes muito aquecidos.

    Tudo deve desenrolar-se de acordo com o quanto a gestante se sente confortável até o último mês: a ioga deve ser um recurso para trazer acolhimento emocional e momentos de bem-estar e relaxamento, e não o oposto.

  • Benefícios de fazer ioga na gravidez

    Carmen ressalta que, para a gestante, os pranaiamas, as posturas, os mantras e as meditações são capazes de aumentar o fluxo de energia vital e ajudar a equilibrar as emoções, promovendo atenção, sensação de bem-estar e segurança. Ainda de acordo com a especialista, isso tudo faz parte de uma maior humanização do parto, capaz de devolver o protagonismo a essa nova mãe.

    Já do ponto de vista físico, completa a especialista, a prática de ioga aumenta a flexibilidade e fortalece a musculatura do aparelho abdominal e da região torácica. A ioga contribui ainda para melhorar a força e a capacidade respiratória, o que também ajuda na oxigenação do bebê, que respira através da mãe:

    “Ele se conecta com esse pulsar rítmico da respiração da mãe, recebendo sensações agradáveis que favorecem seu crescimento. Durante a prática, há um estímulo muito grande de todo o sistema endócrino, fazendo com que os hormônios respondam corretamente durante a dilatação e o parto, o que vai manter essa mulher mais confiante e serena no processo”, exemplifica ela.

    A profissional assume, ainda, que todo o trabalho de ioga para a gestante tem a intenção de proporcionar a ela um parto feliz, por ser uma atividade que envolve diferentes elementos. Junto com isso, Carmen recomenda que mecanismos espirituais também sejam acessados na prática, tudo de acordo com a crença e vontade de cada mãe, pois isso também vai fazer com que ela reconheça que, nas fases de gestação e parto, ela é “uma deusa em processo de criação”.

  • Posturas: existe certo ou errado?

    “Quando pensamos sobre as posturas, na verdade podemos acabar criando mais problemas na cabeça da gestante, isso porque gravidez e parto são sobre tudo, menos postura. São muito mais sobre movimento, mobilidade e respiração do que algo estático”, comenta Anne.

    Dito isso, e com base em um trabalho realizado por profissionais que respeitem essa filosofia, as posições mais benéficas são aquelas que vão promover maior mobilidade para a região da coluna e articulações, que serão capazes de trazer mais equilíbrio para o assoalho pélvico, de posicionar adequadamente o bebê e aquelas que trabalhem em prol do fortalecimento do períneo.

    Existem, porém, asanas proibidos, que podem, sim, prejudicar a grávida. São elas as chamadas invertidas de cabeça, as posturas sobre o ventre e qualquer uma que faça pressão na região do abdômen. Exercícios que forcem a amplitude de movimento de uma articulação também devem ser evitados, assim como posições que demandam uma retenção na respiração e posturas nas quais o tronco é inclinado para a frente, sem suporte.

    “Eu não recomendo fazer posturas que trazem uma inversão completa, como as de cabeça para baixo: o problema delas é que, tanto na entrada da posição quanto na subida da postura, há muito aumento na carga abdominal, o que não é bom na gestação”, ilustra Anne. Por conta das alterações hormonais, a gestante tem também mais instabilidade articular e frouxidão nos tecidos conjuntivos, sendo estes outros fatores para que as invertidas de cabeça apresentem maiores riscos de lesões na coluna.

  • Dicas de ouro

    Carmen chama atenção para que tenhamos consciência de que não está para nascer apenas uma criança, mas também uma mãe, que passa por transformações físicas e psicológicas merecedoras de atenção e carinho. Esses cuidados, fala a profissional, também devem ser parte do trabalho de ioga quando falamos sobre gestantes.

    É por isso que a principal dica para quem está grávida e quer entrar para o universo da ioga, finaliza Anne, é procurar por profissionais competentes, que saibam sobre o que estão falando, tenham boa formação e entendam realmente do assunto.

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