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“Amamentei após descobrir um câncer de mama na gravidez de gêmeas”

Mãe fala sobre o diagnóstico em um momento tão delicado e como conseguiu alimentar as filhas em um único seio, depois de passar por uma mastectomia

Por Da Redação
Atualizado em 18 ago 2023, 16h59 - Publicado em 18 ago 2023, 16h53

A nutricionista Analí Lerusse, de 36 anos, sempre se imaginou como mãe. Quando decidiu que era a hora, foram oito meses de tentativas. “Estava quase desistindo, até que fiz uma endoscopia e voltei vomitando muito”, lembra. Como ela sofria com gastrite há anos, aquele era um exame já bastante rotineiro – o inusitado era nunca ter passado mal antes. 

Após uma semana, os enjoos continuavam. “Uma moça do trabalho comentou que a filha dela estava tentando engravidar e que, de tanto querer, começou a ter os sintomas. Fiquei preocupada. Poderia ser o meu caso?”, questionou. Para tirar a dúvida, Analí fez um teste de farmácia. Positivo! 

O passo seguinte foi se consultar com a ginecologista, que pediu um ultrassom transvaginal. “O exame caiu bem no dia 1º de abril”, conta. Ao ver “duas coisinhas” na tela, a gestante se manteve calada, até ouvir do médico que seria mãe de gêmeos. “O que saiu da minha boca foi: ‘Não, não, não’. Não podia ser”, recorda. Podia, sim.

Analí Lerusse durante a gravidez
Analí Lerusse durante a gravidez (Arquivo Pessoal / Ilustração: Anamaria Sabino/Bebê.com.br)

O ano era 2019 e Analí estava naturalmente grávida de 8 semanas, esperando dois bebês. “Meu marido não teve muita reação e, só um tempo depois, contou que chorou”, diz. Para ela, a situação era um misto de medo e ansiedade: “As pessoas me perguntavam se eu estava feliz e não sabia o que responder. Achava que falar ‘não’ faria parecer que eu era ingrata. Só que o receio do que viria era maior.”

O pesadelo em meio ao sonho

Passado um tempo, as emoções se estabilizaram e veio a alegria pela realização do desejo de ser mãe – em dose dupla! “Hoje, não consigo me imaginar com uma filha só”, garante. Um mês após saber da gravidez gemelar, no início de maio, Analí percebeu um caroço na mama. Logo contatou sua ginecologista. “Ela me orientou a continuar observando, para ver se havia mais alguma alteração, já que, na gestação, era normal a mama sofrer mudanças”, lembra. 

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Como teve um linfoma antes, aos 21 anos, bateu a preocupação. Esse é um câncer que surge quando uma célula do sistema linfático, que combate doenças, sofre mutações e começa a se multiplicar. Diante da agonia, a médica pediu um exame de ultrassom. Ao ver o laudo, a gestante se deparou com uma palavra que trazia péssimas lembranças: “nódulo”.

O resultado da biópsia saiu no dia do aniversário de seu marido, 5 de junho. Um outro termo parecia tornar a história mais complexa: carcinoma. “Lembrei que me falaram que nódulos com terminação ‘oma’ não costumam ser um bom sinal”, afirma. A ginecologista a encaminhou, então, para um mastologista. 

Na consulta, o especialista disse que se tratava de um câncer de mama do tipo triplo negativo. De acordo com a oncologista Daniele Assad, do Hospital Sírio-Libanês de Brasília (DF), esse é um dos subtipos de câncer de mama mais comuns. “É identificado em cerca de 20% dos casos”, explica. “Me dei o direito de chorar por dois dias. Tinha duas ‘pessoinhas’ dentro de mim, que precisavam que eu fosse forte. No meio da doença, havia muita saúde. Eu estava gerando vidas”, conta Analí.

Tratamentos possíveis

O mastologista explicou que o câncer identificado em Analí costumava responder ao tratamento com quimioterapia e a encaminhou a um oncologista. A consulta aconteceu em 13 de junho. “Seria difícil, pois eu não poderia usar uma das medicações indicadas, porque já tinha recebido a quantidade máxima na época do linfoma. Os médicos tiveram de buscar uma alternativa”, conta. 

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Além disso, Danielle Assad explica que, durante uma gestação, é possível que o tratamento seja diferente, uma vez que alguns medicamentos não são recomendados. “Eles podem interferir no líquido amniótico, por exemplo, ou ultrapassar a barreira da placenta, prejudicando o bebê”, afirma. Entretanto, existem opções liberadas em quimioterapia, que deve ser iniciada a partir do segundo trimestre para evitar o risco de abortamento ou de malformações.

“O tratamento era seguro para elas”, conta Analí. “Desde o início, a médica me alertou que a única condição mais provável seria o baixo peso. Por serem gêmeas, poderia ser ainda mais intenso”, diz. O pré-natal foi normal e, segundo a mãe, apesar da corrida contra o tempo, a gravidez se manteve “relativamente tranquila”.

Em 8 de julho, começou o tratamento. “Não tive muitos sintomas da quimio, mas, um mês depois, os exames mostraram que o nódulo continuava crescendo”, recorda. Ela precisaria de uma mastectomia, ou seja, a retirada cirúrgica do seio. A operação foi marcada para 21 de agosto. 

filhas gêmeas de Analí Lerusse
Filhas gêmeas de Analí Lerusse se abraçando (Arquivo Pessoal / Ilustração: Anamaria Sabino/Bebê.com.br)

Segundo Daniele, a opção pela mastectomia varia de caso para caso e deve ser uma decisão conjunta entre o cirurgião e o oncologista. “As indicações de cirurgia para retirada do câncer de mama na gestação são iguais às de mulheres que não estão gestantes. Costumam ser feitas em caso de síndromes genéticas, com tumores muito grandes ou quando a relação entre mama e tumor é desfavorável, por exemplo”, diz.

“Fiz a cirurgia com 7 meses de gestação”, lembra a mãe, que perguntou ao médico se poderia amamentar as bebês. A previsão, porém, não era animadora, já que a quimioterapia ainda seria necessária após a operação. “Retirei toda a mama esquerda. Foi difícil, mas sempre falei que era só uma mama.”

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A cirurgia foi bem sucedida e logo Analí ouviu a notícia que mais esperava. “Quando saiu a biópsia e o estudo do material da mastectomia, não havia mais tumor. Foi um alívio! Poderia me concentrar na gestação”, explica. 

Amamentar, sim!

O momento do parto se aproximava. A quimioterapia precisou ser suspensa um pouco antes. A oncologista Daniele conta que isso é necessário para que a paciente não corra o risco de estar com a imunidade baixa. A cesárea foi agendada para 12 de outubro, quando a gravidez completaria 36 semanas. 

“Aline ficou apenas um dia na UTI Neonatal e Mariana, uma semana. Ela tinha um buraquinho no coração, mas o médico explicou que era por conta da prematuridade e que fecharia sozinho”, lembra a mãe. 

No terceiro dia de vida das pequenas, Analí foi questionada se tomaria medicação para secar o leite ou se pretendia amamentar. Descrente, disse que não tinha leite. “A enfermeira apertou minha mama e falou que eu tinha, sim”, relata. Após consultar mastologista, oncologista e obstetra, ela recebeu o sinal verde: poderia oferecer o melhor alimento do mundo para suas meninas! 

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Daniele afirma que, caso a mãe não esteja em tratamento de quimioterapia, em geral, existe a possibilidade de aleitamento materno. “Com a quimioterapia, não é indicado, pois o medicamento pode passar para o bebê, pelo leite materno”, diz. 

“Fiquei cheia de esperança, queria amamentar, porque, como nutricionista, conheço os benefícios”, lembra Analí. E o alimento veio em abundância! “Daquela única mama, eu tirava 80ml e continuava vazando”, conta. Dois meses depois, porém, ela precisou interromper a amamentação para retomar a quimioterapia. Embora o tumor tivesse ido embora, era necessário finalizar o ciclo. A última sessão foi em 13 de janeiro de 2020.

Rede de apoio 

A mãe se recorda da torcida pela recuperação e da energia boa que recebeu das pessoas. A família foi fundamental. “Meu marido e minha mãe estiveram presentes em 100% do processo. Sei que, para ela, foi difícil passar por isso de novo, mas nunca a vi demonstrar fraqueza”, diz. Os parentes se prontificaram a cuidar das gêmeas – em peso! “Tios, amigos, primas, sogros… Todo mundo se mobilizou para nos ajudar, somos abençoados”, agradece.

Após a cesárea, o cabelo de Analí caiu em pouco tempo. No Natal, já teve de raspar a cabeça. “Para a minha surpresa, meus cunhados e meu marido fizeram o mesmo. Minha sobrinha me consolava e chorava comigo naquele momento. Sempre penso que sou uma pessoa de sorte quando olho para trás”, completa. 

Analí Lerusse e o marido segurando as filhas Aline e Mariana
Analí Lerusse e o marido segurando as filhas Aline e Mariana (Arquivo Pessoal / Ilustração: Anamaria Sabino/Bebê.com.br)

Reconstrução da mama

Em 2021, ela passou por uma cirurgia para reconstruir a mama. Até então, garante que não sentia falta – inclusive, ao se ver no espelho pela primeira vez depois da mastectomia, a sensação foi de alívio, de “tiraram isso de mim”. “Quando voltei a trabalhar, começou a me incomodar, porque eu tinha que ficar arrumando a prótese na roupa. Passou a afetar minha autoestima, então decidi fazer a reconstrução”, conta.

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No ano passado, ela retirou a outra mama e colocou uma prótese como prevenção. “Foi uma indicação do médico, embora o estudo genético não mostrasse indícios de que meu caso era de família. Poderia ser por conta da radioterapia que realizei na época do linfoma. Não fiquei feliz por precisar de outra cirurgia, mas queria acabar com esse capítulo”, conta. A nutricionista diz que ainda pretende fazer outro procedimento, para tentar deixar as duas mamas mais iguais: “Não ficou uma diferença gritante, mas gera um desconforto.”

Quanto ao câncer, ficou tudo bem. “Continuo fazendo acompanhamento com exames ginecológicos de rotina, além de seguir com a oncologista. As médicas já são praticamente família!”, brinca. Como as filhas ainda são pequenas – estão, atualmente, com 3 anos – a mãe nunca contou para elas o que viveu. “Tenho um caderno em que escrevo sobre as fases que passamos: engatinhar, andar, comer… Nele, falo um pouco do que passei. Se pretendo contar? Claro! É nossa história, minha e delas. Sem elas, a jornada não teria tido tanta força”, completa. E que história!

meninas gêmeas se abraçando
As gêmeas Aline e Mariana juntas (Arquivo Pessoal / Ilustração: Anamaria Sabino/Bebê.com.br)

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