Gravidez psicológica: especialistas esclarecem mitos e verdades

O corpo muda, enjoos aparecem e até a menstruação atrasa, mas não há bebê na barriga. Como isso é possível? A ciência explica.

Por Chloé Pinheiro 13 jul 2018, 21h38

Estima-se que uma em cada 22 mil gestações não seja real. Estamos falando da pseudociese, nome científico para a gravidez psicológica. A condição, hoje rara, já foi mais comum. “As mulheres eram criadas para serem mães e, quando passaram a expandir seus valores, a maternidade deixou de ser seu principal objetivo, o que reduziu a incidência da pseudociese”, aponta Renata de Camargo Menezes, ginecologista especialista em reprodução humana e diretora da Clínica Engravide, em São Paulo.

Mas o quadro ainda existe, é claro. Em 2013, uma mulher foi operada no Rio de Janeiro ao chegar no pronto-socorro apresentando sinais de trabalho de parto. Ao tentar retirar o bebê, a surpresa dos médicos: não havia nada ali e o útero estava pequeno, intacto.

Isso porque a gravidez psicológica cria uma certeza definitiva de que a mulher está grávida. E nada, nem testes negativos de gravidez, nem ultrassons vazios, abalam essa convicção. Veja a seguir algumas afirmações sobre o assunto e o quanto de verdade há nelas.

A gravidez psicológica é um desejo intenso de ser mãe

Parcialmente verdade. Não basta apenas querer muito engravidar para passar pelo quadro. “É preciso ter tendências a ter alguma psicopatia que suporte esse delírio e negação da realidade”, explica Gabriela Malzyner, psicóloga mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Por outro lado, a frustração por não conseguir engravidar – e muitas vezes, por não atender pressões externas – podem criar um caldeirão emocional que culmine na pseudociese. É o caso, por exemplo, de mulheres com históricos de abortos espontâneos. “A mulher que revive esse estresse continuamente tem uma probabilidade maior de ser acometida por esse distúrbio grave”, destaca Renata.

  • A gravidez psicológica pode fazer o seio produzir leite

    Verdade. Isso porque o estado emocional da paciente influencia no corpo todo, incluindo o sistema reprodutor. “Os neurotransmissores envolvidos no estresse podem alterar a produção de hormônios como a prolactina e o LH, que simulam uma gravidez”, explica Renata.

    A ação da prolactina pode distender o intestino – e fazer a barriga parecer maior – e até fazer o seio produzir leite. O LH (hormônio luteinizante), por sua vez, tem estrutura parecida a do beta HCG, o hormônio produzido pelo corpo da mulher quando a gestação ocorre de fato. Os sintomas podem ainda incluir o atraso da menstruação, sentir movimentos do bebê na barriga e até contrações como as do trabalho de parto.

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    O medo de engravidar pode fazer a gravidez psicológica aparecer

    Parcialmente verdade. “O medo de estar grávida deve ser diferenciado da pseudociese verdadeira”, aponta Renata. Isso porque o período lúteo, que são os 15 dias que antecedem a menstruação e que, numa gravidez, representariam o momento em que o embrião está sendo implementado no útero, é também a fase da TPM.

    Ou seja, a mulher também pode apresentar enjoo, inchaço – sintomas típicos da tensão pré-menstrual – e, por conta da tensão, até o atraso da menstruação. Mas, com o exame negativo, a situação tende a passar.

  • O teste de gravidez pode dar positivo

    Mito. Apesar da ação de alguns hormônios, o beta HCG, que é o hormônio medido nos testes de gravidez de farmácia e sangue, não aparece em circulação nos casos de gravidez psicológica.

    A gravidez psicológica passa sozinha

    Mito. Mesmo que tudo indique que não há uma gestação real, a mulher nesta condição não consegue encarar sozinha a realidade. Uma abordagem multidisciplinar deve entrar em cena. “O tratamento exige acompanhamento médico para atestar a ausência da gestação, além do psiquiátrico e psicólogo, que são essenciais para identificar e trabalhar as causas dessa condição”, explica Mariana Bonsaver, psicóloga da Pro Matre Paulista.

    A psicoterapia também é fundamental para que a mulher mobilize recursos próprios para lidar com seus conflitos. Em alguns casos, remédios são indicados para regularizar a menstruação, interromper a produção de leite e até medicamentos psiquiátricos podem ser prescritos.

  • O quadro pode impedir uma gestação de verdade

    Verdade. “Se há uma alteração nesses hormônios provocada pelo estresse, a mulher pode não conseguir engravidar”, destaca Renata, que lembra que o estresse é uma das principais causas da infertilidade. Ou seja, isso vale mesmo para as mulheres que não desenvolvam uma gravidez psicológica. “Normalmente a ansiedade atrapalha muito a gravidez”, realça Antonio Pera, ginecologista especializado em gestações de risco de São Paulo.

     

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