O que deve ser repensado na hora de cuidar de filhos gêmeos

Vestir as crianças com roupas iguais, matricular na mesma escola... Conferimos a opinião de especialistas sobre alguns cuidados ao lidar com gemelares.

Quando o ultrassom sinaliza a presença de não apenas um bebê, mas dois, a surpresa é imensa! Nesse mix de emoções, que pode envolver alegria, insegurança, euforia e outros sentimentos que toda mãe e todo pai vivenciam, outra preocupação entra em cena: como cuidar dos pequenos em dose dupla? Devo vesti-los igual? É melhor matriculá-los na mesma escola? E o quarto, será dividido ou cada um terá o seu?

Na medida em que passam as gerações, a forma de lidar com os gêmeos muda, e já adiantamos: não tem certo ou errado. Consultamos especialistas para desvendar este tema e repensar alguns comportamentos das famílias com essas crianças que, apesar de geralmente parecidas na aparência, têm personalidades diferentes que devem ser respeitadas.

Vestir com roupas iguais: pode ou não pode?

Alguns acham fofo, outros discordam. Mas, afinal, existe alguma contraindicação para vestir os gêmeos com roupas iguais ou de modelos parecidos? A resposta para esse dilema, de acordo com a Dra. Deborah Moss, neuropsicóloga especialista em Psicologia do Desenvolvimento pela USP, pode variar de acordo com a idade das crianças. “Do ponto de vista psicológico, quando o bebê ainda é muito pequeno, não faz muita diferença vestir com modelos de roupa igual”, diz ela.

“Mas, na medida em que vão crescendo, é preciso respeitar a individualidade de cada um. A roupa, por mais que pareça algo inocente, passa uma característica e uma mensagem. O mesmo vale para os brinquedos, que também não precisam ser iguais, pois cada pessoa tem um interesse. O quanto antes isso for respeitado, melhor”, explica a especialista.

A psicopedagoga e psicanalista Mônica Pessanha compartilha de uma opinião parecida. Ela também é co-autora do livro “Criando filhos para a vida” e defende que o comportamento de usar a mesma vestimenta só é prejudicial quando limita as possibilidades de expressão dos pequenos.

“Particularmente não vejo problema em vestir gêmeos de forma igual, mas o comportamento de propor tudo igual para os dois pode se tornar um complicador se e quando os irmãos são impedidos, mesmo de forma não intencional, de viverem e escolherem suas experiências de acordo suas preferências individuais”, afirma ela. “Cada criança é única e deve ter suas necessidades e escolhas respeitadas”, acrescenta.

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Chegou a hora de matricular as crianças na escola

Quando os bebês atingem a idade de entrar na escolinha, mais uma dúvida surge: será que devo matriculá-los na mesma instituição? E na mesma sala? A questão é controversa e, mais uma vez, cheia de variáveis – e uma delas é a série escolar em que a criança está.

Na pré-escola, por exemplo, as crianças estarem no mesmo ambiente pode até ser benéfico, já que a adaptação costuma ser mais tranquila. “Na inauguração dessa fase, às vezes é até recomendado que os gêmeos fiquem juntos por uma questão de segurança, de referência. Como tudo é novo – o lugar, as pessoas e a rotina – ter essa segurança do irmão por perto pode ser uma forma saudável de ajudar nesse processo de adaptação“, esclarece Deborah.

A recomendação da profissional muda quando os pequenos vão crescendo. “Na medida em que já estão familiarizados com a escola, é importante separá-los para que cada um tenha seu grupo de amigos, para que não haja competição nem comparação entre eles e para que sejam únicos em cada ambiente. O que não impede que os irmãos interajam no recreio e que participem juntos de atividades extracurriculares, por exemplo”, afirma a neuropsicóloga.

A psicanalista Mônica também aponta a comparação entre irmãos como um ponto decisivo na hora de fazer a matrícula. Mesmo assim, ela deixa claro que o importante é avaliar o desenvolvimento das crianças como um todo. “Na educação de filhos nunca existe certo ou errado. Existe experimentar e ver o que funciona melhor para cada um e para a família”, pontua.

“Eu costumo orientar que não estudem na mesma sala para evitar comparações. Às vezes, a comparação faz com que uma das crianças tente alcançar uma expectativa muito elevada, e que isso vire uma competição para saber ‘quem é melhor’. Isso afeta a autoestima e talvez esse seja o maior risco”, alerta ela.

Outro perigo levantado por Deborah é da dependência entre os gemelares. Se ela for excessiva, pode dificultar a socialização dos pequenos e a entrada de outras crianças no grupo. Já no âmbito pessoal, pode acontecer de um filho atrapalhar o desenvolvimento do outro. “É preciso evitar a dependência um do outro, de um acabar fazendo algo por outro. Os gêmeos precisam de espaço de individualidade”, diz a psicóloga da USP.

Um claro exemplo é quando as crianças possuem personalidades distintas. “Se um é mais introvertido ou tímido, pode usar o mais extrovertido como uma ‘muleta’. Por isso, separar de sala nem sempre é uma decisão dos pais ou dos irmãos, mas sim uma orientação da escola, para que saiam dessa dependência e as características individuais possam ser destacadas”, finaliza Deborah.

Gêmeos devem dormir no mesmo quarto?

Mais uma vez: não tem regra. Mônica afirma que a escolha de dividir o quarto ou não vai de acordo com as necessidades do momento e condições familiares. “Não há problema nenhum em dormir no mesmo quarto ou ter cômodos separados. No início, essa escolha deve ser feita pela família e, durante o crescimento das crianças, os adultos devem avaliar o que funciona melhor. Alguns irmãos preferem compartilhar o espaço, outros não. A identidade se estabelece quando o ambiente é seguro e respeitoso”, explica ela.

A pediatra pela USP e Consultora de Aleitamento Materno Dra. Loretta Campos concorda que a resposta depende da configuração de cada família, mas destaca um ponto negativo de os bebês dormirem no mesmo quartinho: a qualidade do sono. “Se um gêmeo dorme melhor ou pior que o outro, isso pode ser prejudicial. Nesse caso, se a família tiver condição de montar um quarto separado, pela questão da higiene do sono, acredito que seria o mais saudável para as crianças”, esclarece.

A confusão é comum, mas algumas estratégias podem ajudar

Quem nunca passou pela situação de confundir crianças gêmeas? Pode ser constrangedor para quem comete o equívoco, mas, segundo Deborah, o engano nem sempre aborrece os pequeninos. “Geralmente, eles tiram de letra e até brincam com esta situação”, conta ela, com base em sua experiência pessoal e profissional.

“Se for algo que os incomoda, é válido reforçar alguma característica, como ‘eu tenho uma pinta aqui e ele não tem’. Os gêmeos podem achar alguma identificação, para que não se sintam incomodados com a confusão“, aconselha a neuropsicóloga.

Lidar de forma tranquila com a troca de nomes também é um conselho da psicopedagoga Mônica. “Vale abusar do humor e transformar essas pequenas confusões em uma grande brincadeira”.

“Recentemente, eu estava em meu consultório esperando uma criança chegar e a família veio completa nesse dia: o paciente e o seu irmão gêmeo. O menino que não é o meu paciente olhou para mim e disse: ‘Somos iguais, igual a um par de sapatos. Mas não somos o mesmo’. Eu achei fantástico o humor! É disso que as crianças precisam: lembrar que são únicas e que a vida pode ser leve desse jeito”, conta ela.

Comportamentos que os pais devem evitar

O primeiro deles é a comparação. Claro que ela também pode acontecer com irmãos de idades diferentes mas, de acordo com Deborah, no caso de gêmeos esse comportamento dos pais é mais evidente. “Por mais parecidas que as crianças sejam, elas são pessoas diferentes, com personalidades diferentes e necessidades diferentes. É preciso respeitar o tempo de cada um em cada etapa do desenvolvimento – um pode conseguir tirar a fralda antes do outro, por exemplo, e tudo bem”, ressalta ela.

Rotular os pequenos, colocando lado a lado as suas habilidades, também é algo que exige cautela, pois pode reverberar no futuro de cada um deles. “Temos que tomar muito cuidado com o hábito de ‘taxar’ e comparar os filhos, como ‘o fulano é bom nos esportes’. Isso interfere muito no desenvolvimento deles. Ao rotular a criança, não damos a oportunidade de ela mudar“, explica Loretta. 

Em situações de conflitos entre irmãos, os adultos devem evitar “proteger” um ou outro filho – e este conselho vale também para as famílias que não têm gêmeos. “Na hora da condução da briga entre irmãos, os pais têm que tomar cuidado para não assumir o papel de ‘juízes’. A função dos pais não é de tomar partido. Na medida em que as crianças vão crescendo, é importante dar a oportunidade dos irmãos se resolverem e entrarem em um consenso sobre o problema”, alerta a pediatra.

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