O que não dizer e como dar apoio a uma mulher que está tentando engravidar

É preciso usar de sensibilidade ao dar acolhimento a uma mulher tentante. Saiba quais as melhores formas de fazê-lo.

O ano é 2020 e fala-se o tempo todo sobre empatia: em posts de redes sociais, em conversas entre amigos, em sessões de terapia. A palavra, que resume o “saber se colocar no lugar do outro”, ganhou popularidade e é replicada como virtude que deve ser trabalhada em nós, seres humanos cheios de falhas, mas de tanto que é dita, muitas vezes, acaba caindo em um lugar banal. A questão é que a empatia é um exercício diário, consciente e, muitas vezes, cabe à gente reconhecer preconceitos enraizados para que ela seja desenvolvida.

Quando falamos sobre mulheres tentantes, ou seja, que querem engravidar, estão em processo, e, por algum motivo, ainda não conseguiram, a empatia é essencial – principalmente se você é alguém que nunca enfrentou uma situação semelhante a essa. Ao conversar com qualquer mulher tentante, é bem comum que ela traga essa falta de sensibilidade ou até de noção por parte de algumas pessoas, incluindo familiares e amigos, que comumente fazem comentários desagradáveis relacionados à impossibilidade (muitas vezes, momentânea) dela engravidar.

Conversamos com Graziela Tereza, psicóloga cognitivo comportamental especializada em acolhimento e equilíbrio emocional de mulheres tentantes; Katree Zuanazzi, psicóloga e diretora do Instituto Brilhar Saúde Mental; e Verônica Ralha (@veronicaralha), influenciadora digital, youtuber e tentante que já enfrentou três perdas gestacionais e, a seguir, listamos o que você não deve dizer e quais as melhores maneiras de dar suporte emocional para alguém que está tentando engravidar.

Não compare a sua vivência com a da outra pessoa

A psicóloga Katree explica que, muitas vezes, frases e perguntas vindas de pessoas próximas à tentante e que podem soar como falta de empatia ou sensibilidade são, na verdade, uma tentativa de ajuda. “Não podemos generalizar, mas quem tem uma proximidade com a pessoa e sabe que ela está tentando engravidar, provavelmente quer contribuir com uma palavra de apoio, fazer parte daquele momento, fortalecer, mostrar que se importa. Mas, por conta de tudo isso, pode acabar acontecendo um mal entendido”, diz ela e completa: “A pessoa tenta ajudar, mas acaba sendo inconveniente, soando negativa aos ouvidos do casal”.

Para Verônica, o pior aspecto da jornada de uma mulher tentante é o fato de ter de lidar com uma expectativa constante, ainda mais em um mundo marcado pela rapidez da tecnologia. Junto a isso, óbvio, vem a comparação. “Uma parte muito difícil nesse processo é ver outras mulheres engravidando. Não que isso seja inveja, muito pelo contrário. Eu fico muito feliz, mas a gente se questiona ‘por que que deu tudo certo com ela e comigo não?’, ainda mais no meu caso, que tive perdas. E isso é natural do ser humano, é um sentimento que eu sei que todas as tentantes têm. É como se a gente fosse inferior, como se a gente não merecesse aquilo”, desabafa.

Portanto, e por mais que a intenção seja boa, para dar apoio a uma mulher tentante é essencial que você não compare vivências. Não use sua história pessoal de sucesso com uma gravidez, por exemplo, como incentivo para outra mulher – e evite compartilhar relatos de pessoas próximas supondo que toda gestação acontecesse da mesma maneira e no mesmo tempo.

Isso pode gerar sentimentos como frustração, inadequação e inferioridade. Evite, ainda, duvidar do casal, perguntando se eles estão “realmente” tentando: a pergunta é íntima e pode soar extremamente invasiva.

“Na clínica eu acolho várias reclamações que são constantes, sobre frases que ferem os sentimentos das mulheres em relação à demora da gravidez. São perguntas invasivas e constrangedoras, e o casal tentante acaba virando protagonista, pois conceber um filho está inserido em um campo carregado de significações conscientes e inconscientes de questões pessoais, familiares e sociais. Mas a infertilidade é multifatorial e precisa ser investigada por profissionais que trabalham em conjunto, não é uma questão simples que leva a respostas simples. Estas perguntas, comentários e frases, podem levar a mulher tentante a ter sua autoestima profundamente abalada”, reforça Graziela.

Evite minimizar as dificuldades daquela mulher ou casal

Para algumas mulheres a maternidade é prioridade absoluta, para outras, ela vem depois de um investimento maior na carreira, por exemplo, e há também as que não querem ser mães – não existe certo ou errado em nenhum dos casos.

Verônica, que por escolher compartilhar a jornada de tentante nas redes sociais acaba por receber muitos comentários desagradáveis, acredita que essa falta de empatia pode também ter a ver com o fato de algumas mulheres não terem vivenciado o que é tentar uma gravidez e, por consequência, não saberem o quanto isso pode ser complicado ou demorar.

Evite, então, minimizar as dificuldades de uma mulher ou casal tentante. Dizer frases como “relaxe, quando você desencanar a gravidez vem!”, “quando você esquecer que está tentando você vai engravidar”, ou “você está muito ansiosa, isso está te atrapalhando”, de fato, é algo que atrapalha.

Tentar engravidar não é receita de bolo, e para uma mulher tentante é difícil simplesmente esquecer o que ela está vivendo. Graziela explica que, assim como a gestante imagina o rostinho do filho que está para nascer, a tentante também imagina o momento da gravidez e todas as questões envolvidas no futuro desse bebê, que é tão desejado.

Ela ressalta, ainda, que a ansiedade, em muitos casos, não é uma condição passageira, um estado momentâneo: precisa ser tratada quando acaba causando prejuízo em uma ou mais áreas da vida dessas mulheres, e o mais correto é ajudá-las a buscar auxílio profissional o quanto antes.

Não fale em adoção como solução do problema

Ambas as psicólogas explicam que ouvir de outros frases como “Por que você não adota uma criança?” também pode causar um grande sofrimento para quem está tentando engravidar, já que a pergunta pode soar como uma intenção do outro de diminuir a dor daquela mulher.

A adoção, nesses casos, não deve ser vista como um plano B, até porque é algo que o casal ou a família precisa decidir em conjunto, sem banalizar o processo e tendo consciência de que ele pode ser tão cansativo quanto o de anos tentando uma gravidez. O desejo de gestar uma criança, além de tudo, nem sempre é superado – e a mulher ou o casal não têm obrigação nenhuma de querer tratar essa questão por meio da adoção, ela não é algo substituível.

“A questão não é adotar ou não adotar, mas você se sente invadida, como se a pessoa que está dizendo aquilo quisesse colocar uma pedra em cima do seu sonho. Naquele momento que você é tentante você quer um filho biológico, e isso não significa que a probabilidade de adotar uma criança não exista. Mas essa frase tem um peso muito grande, é como se a pessoa quisesse anular suas chances de fertilidade, como se ela já assumisse que você não pode engravidar”, completa Verônica.

Não use sua crença como justificativa

Não questione, em hipótese alguma, a religião (ou ausência de uma), a fé ou a crença de uma pessoa que está tentando engravidar. Primeiro porque é importante lembrar que no mesmo grupo de amigos ou familiares existem pessoas exercendo a própria fé de maneiras variadas, e questionar se uma tentante acredita ou não em Deus, usando isso como justificativa para a sua situação atual, é bastante problemático e cruel.

Tratar a infertilidade e lidar com a frustração constante pode ser estressante e afetar muito a mulher ou o casal, e isso não tem nada a ver com inveja, energias negativas e, muito menos, ausência de fé.

Não faça o papel do médico

Por fim, não cobre a mulher que está tentando engravidar, não pergunte se ela já conseguiu ou para quando é o bebê, pois isso aumenta ainda mais a ansiedade, além de fazer com que ela se sinta pressionada ou tenha que justificar sua dificuldade para os outros.

Evite fazer suposições, projetar um diagnóstico médico que não foi comprovado e agir como se a mulher ou o casal não estivessem fazendo acompanhamento com profissionais da área. Não pergunte, ainda, qual o problema que aquela pessoa tem, não questione se a infertilidade vem dela ou do companheiro, não aja de maneira invasiva.

Como dar apoio a alguém que está tentando engravidar

Antes de mais nada, pergunte para si mesmo/a se você quer realmente ajudar aquela mulher ou se você quer apenas saber sobre a vida dela, matar a curiosidade. Se a resposta for a segunda, evite qualquer comentário.

Já para dar apoio a alguém que está tentando engravidar, você não precisa evitar conversar sobre a infertilidade, mas sim saber como abordar o assunto da melhor maneira possível. É importante, também, estar aberto/a para ouvir o outro, desconstruir preconceitos e convenções sociais e evitar qualquer tipo de julgamento. Muitos casais e mulheres, na verdade, não querem ajuda propriamente dita, mas apenas acolhimento.

Katree acrescenta que, conversar ou não com uma mulher tentante também vai depender do grau de intimidade que você tem com ela. “Se estamos falando sobre uma amizade mais superficial, sobre uma colega, deve-se ter mais cautela. Quando se é mais próximo, a pessoa acaba se aprofundando mais e também fazendo perguntas e comentários cada vez mais íntimos. Mas podemos ter como parâmetro a questão do falar menos e ouvir mais. Deixe um espaço aberto para o que o outro tem a dizer e afirme que está mandando energias positivas, que está torcendo para que fique tudo bem. O básico é sempre perguntar o que a pessoa precisa e, assim, se colocar disponível para o que ela necessitar”, explica.

Se for o caso, e se o casal te der esse tipo de abertura, ajude-os a encontrar profissionais e tratamentos para o problema deles, pois muita gente também sofre por consequência da desinformação.

Observe o quanto aquela mulher se sente à vontade para conversar sobre algo tão doloroso com você, e o quanto ela se abre para partilhar suas dificuldades. Escute-a falar sobre a própria dor, sem julgar ou fazer comparações, se coloque à disposição caso ela queira sair e se distrair, e espalhe palavras de amor e positividade

Se você é tentante, procure ajuda médica e psicológica

Segundo Graziela, existem estudos que comprovam o fato de mulheres que fazem acompanhamento psicológico por meio de terapias cognitivas terem resultados mais satisfatórios sobre o tratamento da infertilidade. Ou seja, mulheres tentantes têm mais chances de engravidar quando cuidam também da saúde mental, já que isso ajuda na melhora do estresse, da ansiedade, dos relacionamentos pessoais e da autoestima.

“Muitas das clínicas de reprodução humana que realizam atendimento para tratamento da infertilidade oferecem o serviço de acompanhamento psicológico, além de existirem várias clínicas de psicologia com atendimento especializado na demanda relacionada à reprodução humana. Porém, sabemos da realidade de diversas famílias brasileiras que não possuem condições financeiras para tratamentos caros, acima do orçamento”, diz ela e recomenda que, nesses casos, é aceitável ainda considerar os atendimentos sociais que alguns psicólogos ofertam em suas agendas, além das clínicas em escolas e faculdades de psicologia. “Vale lembrar, também, que com a abertura dos atendimentos online pelo Conselho Federal de Psicologia é possível o paciente procurar ajuda com psicólogas de várias cidades e estados brasileiros, e pesquisar qual psicólogo cabe melhor em seu orçamento familiar”, completa.

Além do atendimento psicológico, tentantes também podem procurar por grupos de apoio formados por mulheres que estão vivendo a mesma realidade que elas. Esses grupos podem ser facilmente encontrados na internet e redes sociais, e trocar experiências acaba sendo terapêutico e ajudando no desenvolvimento da empatia.

Não podemos esquecer, ainda, do acompanhamento médico, tão essencial para uma tentante quanto a ajuda psicológica. Logo, se você está tentando engravidar, não tenha receio de pesquisar, procurar um ginecologista e/ou especialista em reprodução humana para investigar corretamente o que está acontecendo com você e fazer exames pré-gestacionais ainda no início das tentativas. Ter dificuldade para engravidar não deve ser um tabu, e falar sobre isso é o primeiro passo para mudarmos esse estigma.

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