O que se sabe sobre a Covid-19 em crianças após um ano de pandemia

Com o desenvolvimento do coronavírus ao longo do ano, percebeu-se que o público infantil é menos suscetível à doença e que não é o seu principal transmissor

Prestes a celebrar a virada de ano de 2019 para 2020, a China notificava o primeiro caso do novo coronavírus, no dia 31 de dezembro, na província de Wuhan. A partir de então, a doença que parecia desconhecida e distante do Brasil, especialmente pelo foco no Carnaval em fevereiro, ganhou outra interpretação no dia 26 de fevereiro, quando notificou-se o primeiro paciente brasileiro contaminado pelo vírus respiratório.

Inicialmente, órgãos públicos procuravam tranquilizar a população acerca da gravidade da doença no país, reiterando que a transmissão do Sars-Cov-2 estava controlada e que era preciso apenas cuidar das medidas de higiene. Entretanto, com o decorrer dos meses, os números de casos da doença começaram a aumentar, até que a primeira morte causada pelo coronavírus em território brasileiro foi registrada no dia 12 de março.

Com o descontrole da transmissão do vírus e a sua gravidade tornando-se cada vez mais visível à população, pais com filhos pequenos começaram a questionar se crianças faziam parte do grupo de risco que se formava diante da pandemia, já que estados ao redor do país (e do mundo) anunciavam o fechamento das escolas para que o isolamento social pudesse acontecer. Simultaneamente, empresas também adotavam a política de home office para que o contato fosse mínimo entre pessoas de bolhas diferentes.

Crianças continuam menos suscetíveis à Covid-19?

Para a tranquilidade dos pais, órgãos governamentais e a comunidade médica começaram a analisar os primeiros casos infantis internacionais, e também aqueles que começavam a despontar no país, e a conclusão mostrava-se positiva. Percebia-se que crianças eram menos suscetíveis ao coronavírus e apresentavam quadros mais leves quando contaminadas.

A boa notícia é que, mesmo após um ano de pandemia, este continua a ser o posicionamento médico sobre a relação entre a Covid-19 e o público infantil. “No Brasil, as crianças não passam nem de 2% do total de internações e a taxa de mortalidade varia de 0-2% até 0-4% dos casos ao redor do mundo, o que é bem baixo”, detalha Flávia Oliveira, pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

A especialista ainda traz outras dados importantes, como estudos que evidenciam a possibilidade de até 50% dos pequenos serem assintomáticos. E, quando apresentam sinais da doença, a tendência é que até 90% sejam atingidos de forma leve.

Já os 10% que apresentam complicações e podem precisar de internação ou até mesmo ir à UTI, Flávia explica que médicos têm percebido um padrão de serem bebês menores de um ano, devido à fragilidade imunológica da idade, e aqueles que apresentam comorbidades. “Mesmo entre as crianças, dois fatores de risco importantes são a diabetes e a obesidade, como nos adultos”, pontua a pediatra.

Os principais sintomas em crianças

Ainda seguindo o quadro observado nos adultos, a pediatra Gabriela Ochoa, pós-graduada em emergências pediátricas pelo Hospital Albert Einstein, esclarece que os sinais que apontam para um quadro de Covid-19 infantil são principalmente febre e tosse. “Mas também podem ser observados: falta de ar, coriza, dor de cabeça, de garganta, abdominal, dores musculares, diarreia, náuseas e/ou vômitos”, completa a especialista.

Como no início da pandemia, a médica lembra que a orientação permanece a mesma quando a criança começa a apresentar os primeiros sintomas da doença. É indicado que os pais recorram ao pediatra da família para que ele possa fazer uma primeira avaliação sem expô-la à emergência dos hospitais.

Só que a situação pode mudar e talvez seja necessário recorrer ao atendimento emergencial adequado caso os sintomas apresentados sejam considerados graves. “São eles febre alta e persistente, falta de ar ou dificuldade para respirar, prostração/queda do estado geral, vômitos incoercíveis, muitos episódios de diarreia, dificuldade de ingerir líquidos ou de se alimentar, fraqueza, e sinais de desidratação como boca seca, choro sem lágrimas, e diminuição da diurese (produção de urina pelo rim)”, enumera a pediatra.

Os cuidados necessários para a prevenção

Mesmo as crianças sendo menos suscetíveis à Covid-19, pais tiveram como missão durante a pandemia ensiná-las a importância de lavarem as mãos e aprenderem a usar máscaras faciais, assim como aos adultos. Entretanto, as recomendações sobre o dispositivo de proteção divergem entre as instituições de saúde.

Até o fechamento desta matéria, o pediatra Paulo Telles pontuou a orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP): crianças menores de dois anos não devem usar máscaras. “Nesta fase, elas apresentam salivação intensa, as vias aéreas têm pequeno calibre e, por sua imaturidade motora, têm maior risco de sufocamento”, esclarece o especialista.

A partir dos dois ao cinco anos, elas são recomendadas desde que haja a supervisão constante de um adulto. Ele será responsável pelos ajustes necessários do item, e também analisar se a máscara não está fazendo com que o pequeno leve ainda mais as mãos ao rosto (aumentando as chances de contágio) ou esteja com dificuldade para respirar.

Já Gabriela lembra que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a UNICEF, as instruções por faixa etária são diferentes. As instituições enfatizam que o uso obrigatório do dispositivo de proteção só deve acontecer para aqueles que têm 12 anos ou mais.

Para as que têm entre seis e 11 anos, a ênfase é que a máscara pode ser usada, mas a sua exigência precisa levar em consideração uma série de fatores que reflete o risco de contaminação que o pequeno está exposto. “Como a intensidade de transmissão na área, habilidade da criança em usar máscara, acesso ao item, supervisão adequada de um adulto, e interações que ela mantém com pessoas de alto risco de desenvolver doenças graves”, detalha a especialista.

Neste processo de conhecimento sobre a proteção contra o vírus, Telles lembra que, assim como outros ensinamentos passados às crianças menores, eles acontecem por observação dos pais. Por isso, é preciso que elas vejam adultos indicando máscaras como essenciais na hora de sair de casa e manuseando-as com cuidado tanto na hora de colocá-las quanto de retirá-las.

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A discussão sobre o retorno às aulas

Com o receio sobre crianças não conseguirem usar as máscaras corretamente, lavar as mãos com frequência e manter o distanciamento social, os primeiros meses da pandemia carregaram consigo a defesa de que as escolas voltadas à primeira infância deveriam manter as portas fechadas para que o vírus não se espalhasse ainda mais.

Só que após um ano de estudos científicos voltados para o entendimento da circulação do vírus, inclusive entre crianças, pediatras entenderam e têm reforçado que as consequências de manter os espaços físicos escolares fechados terão consequências graves para o público infantil.

“O Brasil é um dos países com o maior tempo de fechamento de escolas, o que me preocupa muito. Isso porque, ao avaliar a saúde da criança de forma ampla, sabemos que o isolamento social prolongado tem efeitos irreversíveis no desenvolvimento infantil e na sua saúde mental – aumentando muito a taxa de obesidade, transtornos de ansiedade, do sono, e danos pela exposição excessiva à telas“, defende Telles.

Ainda em comparação com o que se pensava no início da pandemia, o pediatra lembra que pesquisas já mostraram que crianças infectam-se de duas a cinco vezes menos que os adultos, e não são os maiores disseminadores da doença como eram descritas.

A pediatra Gabriela ainda traz a justificativa que, de acordo com os estudos realizados até o momento, a percepção dos picos de crescimento da doença não acontecem com a reabertura das instituições que seguem os protocolos indicados. “Resumindo: escolas fechadas não diminuem os casos e escolas abertas não aumentam este número”, declara a especialista.

A vacina segue pelo mesmo caminho

Já para os pais que ainda se questionam sobre a volta das aulas presenciais apenas com a vacinação infantil, é importante ter em mente que este tende a não ser o cenário brasileiro do próximo ano visto o que se sabe até o momento.

Pelas conclusões de crianças serem infectadas com menos frequência ou, ao testarem positivo para Covid-19, apresentarem quadros mais leves da doença, elas não fazem parte do grupo que receberá as primeiras doses da vacina contra o coronavírus. E as chances são altas de que, quando a imunização infantil acontecer, estejamos discutindo um contexto pandêmico mais atenuado.

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