A verdade sobre a Síndrome do Ovário Policístico e a gravidez

A síndrome, que afeta a regulação hormonal do corpo feminino, é mais comum do que se parece e poderá influenciar a fertilidade. Saiba como!

Por Isabelle Aradzenka Atualizado em 7 abr 2022, 10h56 - Publicado em 7 abr 2022, 10h00

Ela é a endocrinopatia (tipo de doença que afeta a produção e secreção de hormônios no corpo) mais comum entre as mulheres em idade reprodutiva e, mesmo assim, a Síndrome do Ovário Policístico (SOP) ainda é cercada por dúvidas sobre os seus efeitos no corpo feminino e o diagnóstico.

De acordo com Mônica de Oliveira, endocrinologista e vice-presidente do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), para ser caracterizada com a SOP, não é necessariamente obrigatório que a mulher apresente uma aparência policística nos ovários – identificada pela ultrassonografia.

Segundo o consenso vigente, ela apenas precisa atender a dois dos três critérios seguintes:

  • irregularidade menstrual;
  • hiperandrogenismo (aumento dos níveis de hormônios masculinos no corpo);
  • morfologia policística.

A partir disso, a especialista nos ajuda a compreender que a síndrome é, de fato, bastante complexa e heterogênea – ou seja, se expressa de diferentes maneiras no organismo de cada mulher – e, caso a paciente apresente as três características indicadas, a doença costuma ser mais expressiva.

Os sintomas da SOP, de modo geral, irão se caracterizar pela produção aumentada de pelos no corpo feminino, acne, alopecia (queda de cabelo), irregularidade menstrual ou sangramentos excessivos e, sim, a infertilidade. Além disso, eles se manifestam em diversas fases da vida, até na forma de uma puberdade precoce.

A verdade sobre a SOP e a gestação

Por afetar justamente a liberação dos hormônios no corpo feminino, a mulher portadora da SOP poderá sim apresentar problemas na hora de engravidar. “A perturbação no ambiente hormonal proporciona dificuldades para a ovulação. E, se não há ovulação, não há possibilidade para que os óvulos sejam fecundados”, complementa Mônica.

Entretanto, a endocrinologista pontua que nem todos os ciclos menstruais da paciente com a síndrome serão anovulatórios, ou seja, sem a ovulação. Portanto, o que ocorrerá é uma redução da probabilidade de engravidar e não a infertilidade completa da mulher.

Além disso, é importante ressaltar que as causas de baixa fertilidade podem ser inúmeras e geralmente o diagnóstico da SOP é de exclusão. Em outras palavras, é necessário que se afaste outros motivos que possam estar por trás da irregularidade menstrual, que irá dificultar a gravidez, para podermos culpar a síndrome.

“Sem falar que, nunca é demais lembrar também a necessidade de investigar o fator masculino na infertilidade conjugal. A realização de um espermograma deve ser sempre incentivada quando se avalia um casal infértil”, lembra Mônica.

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Como a doença se comporta no corpo?

Neste momento, podemos estar pensando que, se a portadora da SOP conseguiu dar início a uma gestação, os problemas em relação à doença passaram, certo? Bom, o que acontece não é exatamente isto…

Grávida com mão na barriga
AsiaVision/Getty Images

“Além de afetar a fertilidade, a paciente com a síndrome apresenta maior risco de complicações quando comparadas a gestações normais. Mulheres com SOP têm risco aumentado de diabetes gestacional, distúrbios gestacionais hipertensivos, parto prematuro e nascimento de bebês pequenos para a idade gestacional”, alerta a especialista.

Além disso, fora do período gestacional, as portadoras de SOP possuem mais fatores de risco para o desenvolvimento de complicações metabólicas – associadas a uma maior resistência insulínica e ao acúmulo de açúcar no sangue – e até de distúrbios e transtornos psiquiátricos. Neste último caso, Mônica pontua que não há uma explicação clara por trás, mas acredita-se que sejam resultado de maiores concentrações androgênicas (de hormônios masculinos) no Sistema Nervoso Central.

“A SOP pode estar ligada às doenças cardiovasculares, apneia do sono e hipertensão. Além disso, transtornos depressivos, ansiosos e distúrbios da sexualidade também são algumas condições comumente associadas à síndrome”, completa.

Como é feito o tratamento?

Não existe uma causa única e definida por trás da SOP, sendo uma doença multifatorial. Ainda assim, a endocrinologista esclarece que a síndrome pode ser fruto de componentes genéticos (que passam de mãe para filha) e de fatores ambientais que irão se expressar através do nível de insulina no organismo. Ou seja, um estilo de vida sedentário teria implicação direta na progressão da doença.

“A resistência insulínica vai determinar alterações na dinâmica da liberação dos hormônios femininos, tanto a nível de sistema nervoso central quanto a nível ovariano, acarretando o quadro clínico”, acrescenta Mônica.

Sendo assim, uma condição básica de tratamento seria a melhora do estilo de vida através de atividade física e ações que trabalhem a resistência à insulina. Já para controlar o nível dos hormônios masculinos alterados pela presença da SOP, o tratamento seria através do uso de contraceptivos combinados, que regulariam os ciclos menstruais.

Entretanto, para as mulheres que buscam iniciar uma gestação, os anticoncepcionais não seriam uma opção viável. Neste caso, além da mudança no estilo de vida, a especialista pontua que podem ser utilizadas medicações que estimulam a ovulação e, por fim, técnicas de reprodução assistida.

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