“A pandemia me fez adiar a maternidade e congelar óvulos”

Mais de um ano após a chegada da Covid-19 ao Brasil, mulheres contam como e por que decidiram postergar o desejo de ter um bebê e optaram pelo procedimento.

Por Ketlyn Araujo 26 mar 2021, 18h34

Após pouco mais de um ano de pandemia, informações, estudos diversos e pesquisas não faltam quando o assunto é gravidez e o coronavírus. Sabe-se, a essa altura, que algumas das vacinas contra a covid testadas em gestantes e lactantes apresentaram resultados preliminares positivos na imunização, que não é recomendado parar a amamentação caso a mãe contraia Covid-19, já que o vírus não é passado para o bebê através do leite materno, e que ele pode ocasionar um parto prematuro e contribuir para outros problemas durante a gravidez, o que reforça a necessidade de isolamento social por parte da gestante.

A saúde mental, já em discussão na sociedade antes mesmo da covid surgir, também ganhou e ganha destaque por conta da pandemia: mulheres que acabaram de ter filhos tendem a apresentar mais sintomas de ansiedade e depressão graças ao isolamento, pais e mães estão mais cansados e sobrecarregados, e o momento de incerteza acaba por atrapalhar os planos de quem planejava uma gestação em breve, mas vem repensando a escolha. Como se não bastasse, o desemprego e as complicações na vida financeira são outro fator para que a maternidade seja pausada.

Aumento na procura pelo congelamento de óvulos

Já quem conta com uma situação financeira mais estável, tem visto no congelamento de óvulos uma alternativa para preservar o desejo da maternidade, mas não colocá-lo em prática durante a pandemia.

É o caso da médica Maria Cecília Fittipaldi, que desde sempre quis ser mãe e formar uma família, mas não enxerga este como o momento ideal. “A pandemia não me fez mudar de escolha, mas neste cenário de medo e incertezas programar uma gestação não é mais um plano a curto prazo. Tanto a pandemia quanto a minha carreira influenciam na minha decisão sobre este não ser o melhor momento para engravidar: além da maternidade, pois gestar um ser humano, criá-lo, amá-lo e protegê-lo serem tarefas que exigem muito, a dificuldade de ter o apoio presencial de um familiar, por exemplo, pode tornar tudo mais difícil. Além do medo real de contrair a infecção”, diz ela.

Fernando Prado, ginecologista, obstetra, especialista em reprodução humana e diretor da Clínica Neo Vita, informa que no último ano houve um aumento de 30% na procura pelo congelamento de óvulos, o que para ele é um reflexo direto deste período de incertezas.

O médico explica que, como ao congelar os gametas é possível guardá-los por períodos de mais de dez anos, mas mantendo os níveis de fertilidade que você tinha, por exemplo, aos 25, o procedimento acaba funcionando como alternativa para o pós-pandemia. “Segundo muitas de minhas pacientes, é um alívio não se sentir dependente do relógio biológico, e acho que isso representa um novo tipo de autonomia muito importante para a mulher”, completa.

  • Dificuldade em encontrar parceiros/as graças ao isolamento

    O ginecologista e obstetra especialista em reprodução humana Rodrigo Rosa, chama atenção para o fato de que o distanciamento e isolamento social ocasionados pela pandemia de coronavírus contribuírem também para uma maior dificuldade de pessoas solteiras se relacionarem. Se antes já era complicado encontrar um parceiro ou parceira que quisesse formar família, a impossibilidade de consolidar relações afetivas na quarentena só piorou isso.

    “Em um mundo ‘ideal’, pacientes congelariam seus óvulos aos 35 anos, já que a fertilidade diminui significativamente depois disso. Mas hoje, para solteiras na casa dos 30 que desejam ter filhos, um ano passado no isolamento pode fazer o relógio biológico parecer ainda mais alto”, opina.

    Rebeca Gerhardt, médica ginecologista, também acabou recorrendo ao congelamento de óvulos, e estar solteira foi um dos fatores determinantes. “Tenho o desejo de ser mãe desde a infância, mas a idade, o fato de não ter um parceiro no momento e das chances de conhecer alguém e engravidar ficarem ainda mais postergadas com a pandemia, me despertaram uma certa urgência na necessidade de congelar os óvulos”, conta.

    Continua após a publicidade

    Para ela, manter a saúde mental e a saúde do relacionamento são os maiores desafios para as novas mães na pandemia, já que o respeito ao próximo e maior comprometimento nas relações são, em sua opinião, fatores-chave para um mundo mais seguro quanto à maternidade.

  • Dúvida, futuro e caos

    Há, ainda, quem não tenha a certeza sobre a maternidade, mas que enxergue a possibilidade no futuro, com ou sem pandemia. Para Paola*, por exemplo, o desejo de ser mãe não é tão claro no agora, mas pode se intensificar com o passar dos anos.

    “A pandemia não me influenciou muito, inclusive foi algo que me fez pensar bastante antes de tomar a decisão de congelar os óvulos, já que eu tive que viajar para fazer o procedimento. O que me influenciou foi a idade e o fato de saber que, quanto mais velha eu estiver, minhas chances diminuem. Ter um filho é um grande desafio, mas pretendo que isso aconteça daqui a uns 6 anos”, fala.

    Apesar disso, ela enxerga que a falta de apoio que muitas mães de recém-nascidos estão enfrentando por conta do isolamento, bem como o medo da contaminação (da mãe e do bebê) são dois dos grandes desafios que mulheres vêm enfrentando agora. Para um futuro menos atribulado, ela espera que haja uma diminuição da violência e um maior preparo das pessoas para lidarem com as mídias sociais.

    Saber equilibrar os desafios da maternidade, os medos e as ansiedades que a vivência nos traz com a incerteza do momento no qual estamos vivendo foi um dos motivos que fizeram a também médica Silvia Jau postergar a gravidez – e ser mais uma adepta do congelamento de óvulos.

    “Meu desejo em relação à maternidade sempre fez parte da minha vida e dos meus planos, antes mesmo da pandemia. Eu ainda considero ter um filho, sim, mas não no momento atual”, diz ela, que vê como problema, ainda, o fato de muitas crianças terem que lidar com traumas e perdas tão precoces devido às circunstâncias. “A forma com que as pessoas vêm se relacionando ultimamente precisa mudar. Precisamos de mais tolerância, menos julgamentos e mais compreensão, já que respeito e humildade podem tornar as relações melhores e, consequentemente, o mundo também”, pontua.

  • Só depois da vacina

    Nem todo mundo, porém, pode ou quer investir em procedimentos como o congelamento de óvulos por ter adiado a escolha da maternidade devido à pandemia. Para algumas mulheres, os planos de uma gestação estão em um futuro menos distante, caso a campanha de vacinação contra a Covid avance antes que a situação piore ainda mais.

    “Eu segurei meu projeto de maternidade até, pelo menos, estar vacinada. Infelizmente não imaginava que a situação difícil que estamos vivendo fosse perdurar tanto”, desabafa a empresária Cinthia Carolina.

    Se para você a maternidade pode esperar, ótimo. Se você acha que agora é a hora certa de ser mãe, ótimo também. Não existe certo ou errado, e seja qual for a sua decisão, o importante é que ela vá de acordo com os seus desejos e possibilidades no momento e, acima de tudo, seja respeitada. Avalie suas prioridades – emocionais, financeiras, de saúde -, e lembre-se de que a pandemia vem sendo um exercício prático de desenvolvimento de paciência, coletividade e cidadania para todos nós.

    Continua após a publicidade
    Publicidade