Além de pai e mãe: a importância da criança conviver com outros familiares

Desde que não sejam relações tóxicas, quanto mais pessoas de confiança contribuam para a segurança emocional da criança, melhor.

Por Manuela Macagnan 16 nov 2021, 17h21

Quando o exame de gravidez dá positivo, a impressão é que tudo muda e começa a girar em torno daquela vida que está crescendo na barriga – especialmente quando é o primeiro filho. A criança nasce e, salvo algumas visitas dos amigos e familiares mais próximos da sua rede de apoio, o mundo passa a ser uma bolha, normalmente com a criança e os pais. 

Com o passar do tempo, no entanto, é preciso sair dessa zona confortável, quentinha e com cheiro de bebê e voltar à rotina da vida real – seja porque os pais precisam de ajuda, seja porque a família quer participar. É aí que surgem as primeiras dúvidas: posso confiar o meu filho a outra pessoa? Com que idade posso me ausentar por algumas horas? 

Primeiro, é importante entender que a relação emocional da criança com outros adultos tem um grande impacto no desenvolvimento na primeira infância. Ao confiar no adulto, o pequeno aprende a se comunicar, a entender as suas emoções e a explorar o mundo com confiança. E crianças com bom suporte têm mais chances de serem adultos positivos e seguros.

Quanto mais pessoas que contribuem para a segurança emocional da criança estiverem em sua convivência, melhor. É interessante também para que os pequenos percebam e respeitem as diferenças entre as pessoas de diferentes costumes ou diferentes gerações”, explica a psicóloga Clara Monteiro.

Não existe idade certa para deixar o bebê com outro adulto de confiança. Mas é importante que o vínculo da criança com essa pessoa seja forte e, para isso, é necessário ter convivência. Com tempo de qualidade perto da criança, esse adulto vai conhecer a rotina e entender o que o pequeno precisa, de quais brincadeiras gosta e até como acalmá-lo se precisar. 

“Para que a criança se sinta à vontade em estar com alguém, sem a presença das figuras centrais (geralmente, pai e/ou mãe) o que se faz necessário é que ela tenha, com essa pessoa, um bom vínculo. Podemos dizer que, assim que o bebê não estiver mais exclusivamente em aleitamento materno (porque aí, ainda se faz necessário que a mãe esteja perto para poder amamentar em livre demanda) ele já pode ficar sob os cuidados de qualquer pessoa que seja de confiança e que possa cuidar e acolher bem esta criança”, esclarece Clara.

Dito isso, comece a se ausentar por pequenos períodos e vá aumentando, assim a situação fica confortável para todos e a criança vai se acostumando aos poucos.

“A questão de deixar sozinho está ligada ao vínculo pré-existente com a avó ou com outro familiar. E a gente sempre começa por um período curto de tempo, experimenta, vê como vai ficar por uma hora, duas horas e, a partir daí, isso pode ser aumentado até a criança ter o hábito de dormir na casa dos avós”, exemplifica Ana Merzel, psicóloga no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

No entanto, se o período sem os pais é maior, no caso de uma viagem, por exemplo, a psicóloga Ana orienta que se espere até o filho ser um pouco maior. “Eu indicaria que essa criança já tivesse alguma condição de perceber que esses pais se ausentam e voltam, que ela já tenha um maior controle do tempo. Muitas vezes me dizem que, quando a criança é pequena não entende, não vai perceber que os pais saíram. E isso é um engano muito grande, porque as crianças têm os pais como referência e, se eles de repente desaparecem, para o bebê é o mesmo conceito de morte. Eles não têm noção do tempo: ou existe ou não existe.”

Benefícios de a criança conviver com outros familiares

Segurança, socialização e desenvolvimento são alguns dos pontos positivos trazidos para a criança ao conviver e confiar em outros adultos, além do pai e da mãe. E, para os pais, uma rede de apoio é a possibilidade de se ausentar  com a confiança de que o pequeno estará em boas mãos.

“Os benefícios que a criança pode ter por conviver com outros familiares desde cedo, tem a ver com apropriação da cultura que passa de geração para geração dentro daquela família; assim como, também sentir segurança afetiva – que independente dos pais, ela tem pessoas que a amam e zelam por ela”, enumera Clara. 

Sobre a socialização, propriamente dita, ela pode se dar com quaisquer pessoas que sejam da confiança dos pais da criança (como amigos ou até de cuidadoras – babá ou professoras) e, mais tarde, com outras crianças.

“Para os pais, o ponto positivo é poder contar com rede de apoio para cuidar de seu filho quando há uma necessidade de se ausentar por algum motivo como, por exemplo, por trabalho ou, até, para momentos de lazer – também é importante que os pais tenham vida para além dos filhos; isto é autocuidado e passa uma boa mensagem aos pequenos, de que todos podem se amar, sem que haja dependência emocional uns com os outros”, explica a psicóloga. 

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Avó-brincando-com-as-netas

Além disso, precisamos falar sobre o desenvolvimento social. Ana explica que, ao longo da infância, partimos da dependência para a independência: “Caminhamos de uma relação única, com a mãe, depois com o pai, depois com pessoas que frequentam o nosso círculo social. O ser humano é um ser sociável, ele vive em comunidade e isso faz parte do desenvolvimento natural do conceito de sociedade”.

Tem problema se a criança não tem contato com outros adultos?

De acordo com a psicóloga Clara, existe, sim. “O maior prejuízo para a criança que convive exclusivamente com seus pais, é que ela pode tornar-se dependente emocional destes. Alguém com autoestima frágil, que depende de estar próximo de alguém para se sentir feliz e a tendência é que acabe repetindo este modelo em relacionamentos na vida adulta”, diz.

Segundo ela, é importante salientar que a segurança afetiva pode também se fortalecer no convívio com pessoas que não tenham um grau de parentesco, necessariamente, já que ela é construída através do vínculo de amor entre criança e as figuras que seus pais e ela elegem como família, com as quais pode ou não ter um laço sanguíneo.

Pai e mãe abraçando criança
Ketut Subiyanto/Pexels

Nem sempre é fácil permitir a chegada de outra pessoa no mundinho dos pais e do bebê – ainda mais num tempo como o que vivemos, cheio de receios em função da pandemia -, mas é importante avaliar quando passa do limite de uma preocupação natural. “Os pais precisam promover a independência da criança. Então, aqueles que têm muita dificuldade, precisam buscar ajuda e entender quais são os temores de deixar a criança sem sua presença por um tempo ou que ela tenha outros relacionamentos”, orienta Ana.

“É provável que esta pessoa já tenha sido criada em uma cultura de dependência emocional, onde sua autoestima e independência não se desenvolveram suficientemente bem. Daí, a importância de que se busque terapia para compreender melhor os porquês e como superar esta questão, para que este modelo não seja repetido com seus filhos”, completa Clara.

Sinais de alerta: quando não deixar a criança com determinado adulto

Vale ressaltar que todas as orientações até aqui são baseadas em uma relação saudável, de carinho, amor e segurança. Infelizmente, existem casos em que a criança não deve conviver com familiares por motivos que precisam ser respeitados, como uma família tóxica e situações de abusos físicos, sexuais ou psicológicos.

Fique atento aos sinais que o pequeno dá, mesmo antes de saber falar. As psicólogas alertam que quando os pequenos se sentem desconfortáveis com alguma situação, desde bebês, conseguem nos comunicar à sua maneira. Portanto, observe: 

  • se a criança não volta feliz ou fica chorosa sempre depois da visita;
  • faz muita birra;
  • se ela regride em alguma questão de seu desenvolvimento, por exemplo: volta a precisar usar fraldas, depois de já ter desfraldado ou volta a querer dormir com os pais, depois de já ter passado a dormir no seu quarto;
  • desenvolve algum tipo de sintoma como roer unha;
  • se recusa a ir ou diz que não gosta de ficar com determinada pessoa

“Se você perceber comportamentos alterados, é preciso investigar o que está acontecendo. Temos que entender se isso é com todo mundo ou se é específico com alguma pessoa”, alerta Ana e Clara completa: “Provavelmente isso significa que ela não está conseguindo adaptar-se aos cuidados desta pessoa, então, é importante repensar e buscar uma outra alternativa como, por exemplo, não deixar a criança sozinha com ela, ainda que seja um familiar”. 

E, no caso de crianças maiores, procure ter uma conversa fluida, entender porque ela não quer estar perto de determinada pessoa. O primeiro passo é sempre acolher o pequeno e, aos poucos e com muita calma, buscar quais são os motivos.

Ter uma rede de apoio saudável e baseada em confiança é muito valioso e traz benefícios para a criança e para os pais. Reconheça o esforço dos familiares em se aproximar e, dentro do seus parâmetros, aceite receber ajuda. Claro que os relacionamentos não são fáceis, demandam tempo e ajustes de rotina e, sim, é possível que alguém dê um pitaco que você não pediu, mas busque dialogar com paciência. E tenha em mente que todos vocês – pais, avós, dindos, tios – estão reunidos com o propósito de amar e cuidar dessa criança e isso é o que realmente importa.

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