Família

Exaustão materna na pandemia: como a covid afetou a saúde mental das mães

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por Ketlyn Araujo Atualizado em 8 Maio 2021, 00h11 - Publicado em
7 Maio 2021
13h47

Que mulheres e mães estão exaustas por conta da pandemia você provavelmente já sabe. Eis aqui o que mais elas gostariam de te contar – e como fazer para ajudá-las.

Março de 2020. Um vírus desconhecido que se espalha pelo mundo inteiro. Nas casas das mais diversas famílias, uma recomendação-chave: isolamento social para conter a pandemia. Quarentena, distanciamento, álcool em gel, home office, ensino remoto, videochamadas, fronteiras fechadas, rotina nova no meio da rotina antiga.

Maio de 2021. O coronavírus está sob controle em algumas regiões do mundo, mas não no Brasil. A vacinação avança, mas as mortes também. Já quem, há mais de um ano, se acostumava com a convivência intensa (e imposta), agora beira o esgotamento. Mães de crianças e adolescentes, que como em um replay sem fim têm de equilibrar os pratinhos das tarefas domésticas, cuidados com os filhos, emprego formal e, vez ou outra, servir de suporte emocional familiar, estão à beira do colapso – não é exagero e os números, dentro e fora do país, confirmam os fatos.

A pandemia afetou, para começar, a relação entre mulheres e trabalho – conforme já te contamos em detalhes. De acordo com uma pesquisa divulgada pela organização Oxfam Brasil, só no ano passado mulheres perderam mais de 64 milhões de empregos, o que representa cerca de 5% de todos os trabalhos ocupados pela classe feminina. O mesmo estudo não enxerga um futuro tão promissor frente à questão do emprego para mulheres: é esperado que 47 milhões delas em escala global caiam na pobreza extrema nos próximos anos.

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39% das mães com filhos pequenos perderam o emprego durante a pandemia, enquanto que 52% delas perderam renda*

*Pesquisa realizada pela startup Famivita, com 7500 mulheres do Brasil inteiro. Mães foram 16% mais demitidas, sendo o estado do Amazonas o líder na perda de empregos por mulheres, totalizando 61% delas.

Crise generalizada

A crise, porém, não é “apenas” econômica e de saúde pública, mas também de saúde mental. Temas como sobrecarga materna, angústia pelo fim da licença-maternidade na pandemia e medo da volta às aulas estão cada vez mais em voga.

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS), inclusive, classificou as mulheres como o grupo mais vulnerável a questões relacionadas à saúde mental durante a pandemia do coronavírus. Gestantes, puérperas e mães, que passam por constantes alterações hormonais e mudanças de rotina, são as mais suscetíveis a apresentar quadros de ansiedade e depressão.

63% das mães tiveram sintomas depressivos durante a pandemia*

*Dado do estudo ‘O impacto da pandemia do coronavírus e do isolamento social: Examinando indicadores de comportamento da criança e da parentalidade’ realizado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP – USP) com apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

O mantra do "tenho que dar conta"

A psicóloga perinatal do Centro de Medicina Integrativa do Hospital e Maternidade Pro Matre Allana Pezzi, relata um aumento expressivo na procura pela terapia, principalmente online, desde o início da pandemia. Ela explica que, quando a quarentena teve início em 2020, as pessoas ainda estavam se acostumando à ideia de ficar mais em casa, e muitas delas, inclusive, aproveitaram o isolamento para retomar hábitos que haviam perdido graças à correria do dia a dia, como almoçar em casa e passar mais tempo com os filhos.

No segundo semestre do ano passado, porém, a coisa mudou um pouco de figura. “Para muitas famílias foi desafiador conciliar trabalho, reuniões, estudos das crianças, afazeres domésticos e lazer em um mesmo espaço, e após certo tempo a procura pela terapia ficou ainda mais evidente. Devido aos altos níveis de estresse, ansiedade e depressão, quem nunca havia passado pela experiência de acompanhamento psicológico pode ter sentido essa necessidade durante a quarentena”, diz a profissional.

Allana chama atenção para a questão da sobrecarga materna que também aumentou muito durante a pandemia, já que em muitos casos a quantidade de tarefas e responsabilidades de mulheres e mães chegou a triplicar. A escola, fala a psicóloga, funcionava como uma grande rede de apoio, e o fato de não poder contar com ela fez com que muitas mães atingissem esse esgotamento.

“A carga mental e o mantra de ‘tenho que dar conta de tudo’ não faziam mais sentido, o que gerou muito sofrimento. O reflexo disso é o extremo cansaço físico e mental, além daquela sensação de não ‘desligar’ nunca, o que acabou exaurindo muitas mães”, completa.

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Mais de 50% das famílias experimentaram algum tipo de interrupção na renda devido à pandemia de Covid-19 – e foi constatado que dificuldades financeiras também estão relacionadas ao sofrimento psicológico*

*Resultados de estudo publicado na revista científica Lancet, que analisou parte da população feminina e materna do Canadá, ao constatar que equilibrar a educação em casa com trabalho e outras dificuldades estão associados ao agravamento nos casos de depressão e ansiedade.

"Acabo gritando, tenho crises muito fortes de ansiedade, alto nível de estresse"

Renata Aguiar Fernandes, de 37 anos, é produtora de eventos, DJ, empreendedora materna, e mãe do Davi, de 11 anos, e do Benjamim, de 3.

“O que mais aumentou foi a falta de tempo para eu me dedicar ao meu trabalho, e devido ao fato de me sentir sobrecarregada demais todos os dias percebo minhas mudanças de comportamento com meus filhos, nos momentos de falta de paciência com eles. Acabo gritando, tenho crises muito fortes de ansiedade, alto nível de estresse.

Não ter rede de apoio faz com que a carga mental da mãe se intensifique demais e isso pode levar até a depressão, como aconteceu comigo. Digo isso porque sou casada, mas marido não é rede de apoio: ele não ‘ajuda’, ele cumpre com suas obrigações.

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Renata Aguiar Fernandes/Arquivo Pessoal

Mesmo assim, eu busco focar nas coisas que gosto de fazer sempre que possível, como a música, e converso muito com o meu companheiro sobre a divisão de tarefas. Sempre somos julgadas, e com isso vem a culpa.

Somos criticadas se saímos para trabalhar fora ou se escolhemos ficar em casa. Se amamentamos ou se escolhermos dar a mamadeira, se fazemos cama compartilhada ou não. É um exercício difícil aceitar que, no fim do dia, não conseguimos dar conta de tudo. É frustrante, mas devemos aceitar que somos mães possíveis.

Se colocar em primeiro lugar para fazer ou realizar algo que te deixe feliz não é pecado. Vá, sem medo e sem culpa”.

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Burnout parental

Allana chama atenção para que pais e mães sobrecarregados e exaustos em meio à pandemia tomem cuidado para que não desenvolvam um quadro de Síndrome de Burnout parental.

“O Burnout é quando ocorre um esgotamento físico e mental causado pelo estresse, e isso chegou até as famílias por conta do extremo cansaço dos pais em relação à criação dos filhos”, explica a especialista que recomenda que, ao sentirem mudanças internas como agressividade, insônia, alterações de humor, de apetite e pouca capacidade de concentração, é importante que os pais procurem um profissional especializado em saúde mental. Caso contrário, o Burnout parental pode ocasionar negligência nos cuidados com os filhos e, em casos graves, agressões físicas, psicológicas e verbais às crianças.

41% de mulheres relataram dificuldade em lidar com os filhos durante a pandemia*

*Mostrou o estudo ‘Vivências das mães com seus filhos pré-escolares durante a pandemia de covid-19: contribuições da intervenção precoce para a promoção do desenvolvimento infantil’, realizado pelo departamento de Pediatria da Faculdade de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP/Laboratório de Pesquisa em prevenção de problemas de desenvolvimento e comportamento da criança (LAPREDES)

"Tenho trabalhado muito para contribuir na renda de casa, e isso faz com que eu não consiga dar muita atenção para brincar e ajudar no desenvolvimento das bebês"

Halitane Rocha, 25 anos, jornalista e mãe de duas bebês gêmeas, de 7 meses.

“Ano passado era menos exaustivo porque eu estava grávida, precisava e podia repousar. Hoje eu mal consigo tirar um tempo para respirar. Tudo me deixa sobrecarregada! Estamos falando de duas bebês, então eu levo o dobro do tempo para dar comida, leite, trocar fralda, dar banho… Quase não sobra tempo para arrumar a casa e, quando sobra, eu fico relutando entre descansar ou limpar tudo.

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Halitane Rocha/Arquivo Pessoal

Sinto falta de poder ver as minhas amigas com frequência, de sentar em uma mesa de bar, ir a exposições e festas. Ter um companheiro de verdade para a divisão de tarefas me ajuda a não enlouquecer, já que por causa da pandemia eu faço o possível para proteger as meninas. Isso faz com que eu me restrinja de querer pagar alguém para cuidar das bebês ou colocá-las em uma creche. Ainda penso muito a respeito, mas continuo com muito medo.

Tenho trabalhado muito para contribuir na renda de casa, e isso faz com que eu não consiga dar muita atenção para brincar e ajudar no desenvolvimento das bebês. Fico um pouco triste, mas é preciso trabalhar e estou dando o meu melhor”.

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Como ajudar?

Não foi difícil encontrar mulheres à disposição para compartilhar suas próprias experiências que entrariam nesta matéria. Em poucos minutos, a caixa de entrada estava lotada de e-mails de mães exaustas e desesperadas para serem ouvidas, e essa é uma das principais recomendações caso você não seja mãe, mas esteja convivendo de perto com uma delas.

“A melhor forma de ajudar [essas mulheres] ao perceber oscilações e alterações de humor constantes é validar e escutar o que elas estão sentindo. Muitas vezes elas se queixam pois esperam que o outro faça algo ou perceba que elas estão cansadas e, quando isso não ocorre, ficam ressentidas”, exemplifica a psicóloga, que enxerga o diálogo como alternativa para permitir que essa mãe se expresse livremente dentro do convívio familiar.

Já parceiros devem, sim, colaborar para uma divisão de tarefas mais justa, já que a carga extra costuma vir para a mulher. A recomendação de Allana é começar listando aquilo que precisa ser feito em casa, bem como quem será o responsável por cada coisa. Isso só vai funcionar, porém, se a mulher trabalhar para tentar reduzir as cobranças internas.

“É muito importante que a mulher saia do lugar de que precisa ser perfeita, diminua algumas metas e peça ajuda sempre que necessário, pois é a partir desse reequilíbrio que começa o autocuidado. Cabe ao parceiro escutar com carinho e atenção: a mulher precisa ser ouvida em sua queixa de exaustão, e valorizada por ele”, fala.

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69% das mães disseram ter sentido efeitos adversos na própria saúde devido a preocupações e estresse durante a pandemia, em comparação a apenas 51% dos pais*

*De acordo com pesquisa encomendada pelo jornal The New York Times, para o especial “The primal scream: America’s Mothers are in crisis”.

"Não existe uma só atividade que me sobrecarrega, o que existe é um acúmulo de tarefas que vão se somando e que não acabam"

Ariane Ferrari, de 38 anos, é influenciadora digital e mãe da Antonella.

“A rotina, por incrível que pareça, parece estar ficando mais pesada a cada dia. O que era temporário foi se estendendo, e o cansaço acumulando. Não existe uma só atividade que me sobrecarrega, o que existe é um acúmulo, um excesso de tarefas que vão se somando e que não acabam. O cansaço é físico, emocional e mental, estamos no limite. Falta de paciência, irritação, dor de cabeça, nos ombros… até o corpo é afetado.

A demanda maior é sempre da mãe e, aqui em casa, apesar de ter um super parceiro, minha filha pede muito mais pela minha atenção: a mamãe dá banho, a mamãe que lê, a mamãe faz dormir.

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Ariane Ferrari/Arquivo Pessoal

Dar conta de tudo é algo que nunca vou conseguir, mas eu tento fortemente. Preciso tentar ser mais relaxada. Eu comecei a praticar ioga todos os dias na pandemia, e para conseguir esse momento eu acordo mais cedo e me tranco no closet alegando ir ao banheiro. Não é o melhor dos cenários, mas ter um tempo, mesmo que pequeno, só pra mim foi fundamental, e foi como consegui criar meu espaço”.

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Não julgarás...

Quem vê a situação de fora, diz Allana, deve evitar ao máximo o julgamento para com essas mães, que não vivem um período fácil. Estar cansada ou irritada, pontua a profissional, não é sinônimo de uma maternidade ruim, e todo e qualquer sofrimento humano, principalmente o materno, merece respeito.

A saúde mental da mãe, principalmente quando olhamos para o futuro, solicita novos olhares, seja vindo dos profissionais da saúde quanto de outras mulheres dentro e fora das famílias.

"Sinto falta de conseguir parar e dar atenção para a minha filha como ela merece. Não sei se ela percebe isso, mas é tudo tão corrido, cronometrado"

Luciana Nunes dos Santos, assessora de imprensa e mãe da Anita, de 2 anos.

“Tive que me reorganizar e me adaptar dentro de um apartamento de 42m² que não estava estruturado para ter um ambiente de trabalho. A rede de apoio faz falta e é muito importante, pena que muita gente não entende isso. O nível de trabalho não diminui, e infelizmente na hora do sufoco eu tive que recorrer ao apoio das telas e dos desenhos animados. Não acho o ideal, mas em situações de emergência nos ajuda um pouco. Nos momentos em que minha filha dorme, me sento em frente ao computador e vou trabalhar ou adiantar alguma entrega.

Sinto muita falta de socializar normalmente com as pessoas: antes da pandemia eu poderia parar para tomar um café, conversar com os colegas sobre assuntos variados, trocar experiências. E ver pessoas diferentes e o movimento da cidade ajuda muito a espairecer a mente. A pandemia me ensinou a valorizar a liberdade.

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Luciana Nunes dos Santos/Arquivo Pessoal

Percebi em mim uma irritabilidade muito mais elevada, afinal precisamos administrar a casa, o relacionamento, filhos e trabalho. Dormimos e acordamos em cima do trabalho, e isso causa uma exaustão muito grande. Vejo que as pessoas me olham como se eu fosse uma boa mãe, mas não me enxergo assim.

Sinto falta de conseguir realmente parar e dar atenção para a minha filha, como ela merece. Não sei se ela percebe isso, acho que não, mas é tudo tão corrido, cronometrado. Ela se habituou à rotina, mas gostaria de não depender tanto do relógio para poder caminhar com ela ao ar livre ou brincar sem muita preocupação com o horário.

Nos adaptamos, mas confesso que é muito desgastante e não vejo a hora disso tudo acabar. Maternar é uma tarefa árdua e eu sigo em constante aprendizado”.

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Abaixo a maternidade perfeita

Ao contrário do que acontecia anos atrás, explica a psicóloga Allana, hoje em dia a sociedade já não compra mais o ideal de ‘maternidade perfeita’, e muito disso se deve às trocas de experiências e vivências realizadas por mães dentro de espaços físicos e virtuais. No lugar da perfeição, hoje na psicologia é difundida a ideia da ‘mãe suficientemente boa’, conceito apresentado pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott.

“Sua teoria sugere que, quando uma mãe tenta ser perfeita, acaba sofrendo mais do que deveria, pois suas expectativas são frustradas. Falar de maternidade é falar de imperfeição, tentativas, erros e acertos, do possível e real. Precisamos mostrar que o processo de se tornar uma mãe suficientemente boa acontece naturalmente ao longo do tempo, e é ao encontrar essa suficiência, que virá a tranquilidade na maternidade”, finaliza.