Cansada, mãe? Lia Abbud é jornalista e uma das criadoras do @Fatigatis, um projeto de conteúdo sobre estresse materno que propõe estratégias em direção ao bem-estar físico e mental feminino.

A difícil arte de sair do automático e redistribuir o peso

Bastaram alguns dias de isolamento por causa da Covid-19 para esta mãe repensar o quanto estava sobrecarregada e o tanto que sua casa precisava mudar.

Por Lia Abbud Atualizado em 18 jul 2022, 19h12 - Publicado em 8 Maio 2022, 10h00

A mãe foi a única do pequeno círculo familiar a testar positivo para Covid-19, felizmente sem sintomas graves. A casa rapidamente se organizou para que ela pudesse cumprir o isolamento afim de se cuidar e de evitar que o marido, a filha de 14 anos e o filho de seis, também se contaminassem.

Pelas regras da escola, as crianças, ainda que negativas, não podiam frequentar o ambiente por oito dias, o que obrigou o marido, que é médico, a reduzir sua carga horário no trabalho para assumir a operação da casa, a acionar rede de apoio paga para ajudar com o caçula em um dos dias e a pedir que a filha desse mais atenção ao irmão num outro dia que teve de atender pacientes. Um verdadeiro efeito dominó!

Ao final deste período adverso, pode-se dizer que o que mais afetou este casal foram as reflexões relacionadas à sobrecarga materna e à divisão mais justa das atividades da casa entre todos os integrantes. Essa história é real e aconteceu agora em abril com uma amiga que segue o Fatigatis.

Logo achei que renderia uma boa pensata e trago alguns trechos da conversa que tive com ela, porque funcionam como pequenos lembretes que podem despertar algo em você também:

O que o isolamento trouxe

“Três dias depois que iniciei o isolamento, resolvemos fazer um autoteste para ver se, eventualmente, eu já havia negativado. Confesso que torci para dar positivo, porque eu ainda não estava pronta para sair do meu isolamento. Senti alívio em voltar para o quarto.

Pensei que chegar nesse ponto de torcer para o exame dar positivo e não ter de voltar ao convívio da família dentro da nossa própria casa é porque tinha muita coisa para ser revista. Usei esse momento para isso, porque eu não quero que seja assim. Eu quero querer estar com eles. Me acolhi e mergulhei nessa reflexão.”

As regras da nossa cabeça

“Quando saíam um pouco do apartamento para caminhar, eu ia de máscara até a cozinha, pegar uma coisa ou outra, devolver minha bandeja. Olhava e achava que estava tudo sujo, uma bagunça. E aí percebi que esse meu ideal de limpeza e organização é absurdo, é inalcançável.

A gente tem isso internalizado, de que a nossa casa é quase um reflexo do nosso caráter, de que se você tem uma casa suja e bagunçada você não é nem uma boa pessoa! Percebi que coloco limpeza e organização inclusive à frente do meu conforto, simplesmente porque é uma regra que está na minha cabeça.”

Sempre um problema a ser resolvido

“Outro ponto que notei é que a carga mental vai além do funcionamento da casa. Ela acaba invadindo meu relacionamento com as crianças. Porque essa lista infinita de coisas a serem feitas eu passei a enxergar como problemas a serem resolvidos. Com isso, não sobra espaço para conversa, para curiosidade, para calma.

Continua após a publicidade

Por exemplo, se a filha me avisa que tem uma festa, nem pergunto pra ela de quem é, se ela está animada, que expectativas ela tem, com que roupa quer ir. Zero conexão com a festa em si e em saber o que ela estava pensando e querendo a respeito. Minha tendência é já esquematizar quem leva, quem busca, as coisas práticas. E nessa de resolver, me apresso, me antecipo. Não tenho calma e tranquilidade porque vejo como mais um problema a ser resolvido.”

Por que tudo precisa ser perfeito?

“Durante o meu confinamento, percebi que eles três estavam calmos, bem-humorados e todos colaborando com as atividades da casa. Minha filha lavou a louça todos os dias e ajudou meu marido a tirar as roupas do varal e a dobrá-las. Ajudou a fazer comida. Vinham na porta do meu quarto trazer lanchinhos. Quando caminhavam, me traziam flores na volta. Estavam fazendo tudo do jeito deles. Não ficaram toda hora me perguntando o que fazer ou como fazer. E funcionou.

Depois, quando eu e meu marido conversamos, ele me disse que teve a mesma percepção que eu: de que sou vítima de sobrecarga porque levo o perfeccionismo ao extremo, tenho uma cobrança enorme e o clima pesa, fica difícil pra todo mundo. Não foi uma conversa de apontar dedo. Foi saudável, uma troca de percepções com o intuito de mudarmos as regras do jogo daqui em diante.”

Do que não precisa ser feito agora…

“No dia que saí do confinamento, já saí com um plano de ação. Estava tensa, confesso. Mas acho que esse episódio tinha que servir de algo. Estou tentando simplificar a forma como enxergo as coisas e colocar significado no que estou fazendo, entender a razão pela qual estou fazendo as coisas. Não quero mais fazer as coisas porque minha cabeça diz que tem que ser assim e tem que ficar perfeito. Quem disse?

Estou revendo o conceito de prioridade, listando o que NÃO precisa ser feito, não tem que ser feito NAQUELA hora ou não precisa ser feito DAQUELE JEITO. Convite de festa das crianças, por exemplo, eu encarava como sentença, como se tivessem de ir a todas. Agora vamos sempre refletir se aquele compromisso se encaixa na nossa agenda, também avaliando a proximidade do amigo.”

Todo mundo junto

“Talvez agora a gente faça uma conversa com as crianças sobre todos esses insights que tivemos. Ele já cozinhava mais do que eu, mas o fato novo foi que as crianças ajudaram e gostaram, então vale conversar e redistribuir as responsabilidades, mostrando os benefícios. Sem o peso da sobrecarga, a gente consegue ter calma para pedir a ajuda deles, para envolver nas atividades. Mas acho que todo mundo enxergou coisas novas que podem passar a fazer para diminuir a minha lista. Estamos focados no nosso objetivo viver uma vida mais leve e feliz.”

E aí? Não são muito interessantes as reflexões dela? Achei comovente e uma grande lição. Não sei se você passou por algo assim, mas durante a pandemia ouvi muitas mulheres contarem que gostaram de ficar isoladas. Algumas falavam em tom de brincadeira, mas eu sabia que havia muitas camadas de reflexão nessas falas.

Talvez nem todas tenham conseguido investir numa análise profunda. Não deve ter sido fácil, mas ela encarou e está operando mudanças em direção a uma vida mais leve e feliz. Por aqui, estou torcendo por ela e agradecendo por ter trazido inspiração. Espero que motive você também.

Compartilhe essa matéria via:
Continua após a publicidade

Publicidade