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Criança com dificuldade de acordar cedo para ir à escola: o que fazer?

Readaptação da rotina na volta às aulas, alimentação, horário de telas, maneiras de chamar… Entenda como isso pode impactar o despertar do seu filho

Por Da Redação
1 fev 2023, 10h49

A volta às aulas, em muitas casas, significa a retomada de toda uma rotina matinal – o que inclui, lógico, crianças acordando cedo. Ou tentando acordar cedo. Ou acordando cedo, mas dando um baita trabalho aos pais! Você chama seu filho, ele não quer levantar, demora, quando sai da cama está com o humor daquele jeito, todo mundo atrasado e estressado… Enfim, um cenário diário de caos. Mas, acredite, é possível fazer alguns ajustes na rotina para ajudar o pequeno a se readaptar.

Antes de tudo, é importante entendermos por que, para algumas pessoas, acordar cedo parece ser um sacrifício, enquanto outras fazem isso com total naturalidade. “As necessidades de sono que cada organismo são resultado de uma conjunção de fatores”, explica a bióloga, consultora parental e consultora de sono infantil Zioneth Garcia, doutora em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP) e idealizadora do Mães com Ciência. “Estamos falando de fatores biológicos, como os ciclos de luz natural, fatores genéticos (alguns distúrbios de sono da infância têm um componente hereditário importante), fatores ambientais – como a rotina escolar e familiar – e fatores comportamentais, como os hábitos de sono que estamos construindo”, detalha.

Vale ressaltar que dormir é uma função vital básica, como comer, evacuar ou se exercitar. “A falta dela pode gerar grandes consequências no desenvolvimento, no comportamento e nos processos de aprendizagem. É durante o sono profundo que o corpo produz o hormônio de crescimento e é na fase de sono REM [última fase do ciclo do sono, que se repete durante a noite] que o cérebro fixa memórias e aprendizados”, explica Zioneth.

Segundo ela, muitas crianças têm dificuldade de acordar cedo por causa do horário que vão dormir à noite. Aquelas em idade pré-escolar e escolar precisam de 9 a 11 horas de sono noturno para satisfazer a necessidade de repouso. “Se vão para cama tarde demais ou apresentam sono fragmentado, com múltiplos despertares ou perda de sono durante a noite ou na madrugada, é claro que não conseguirão estar suficientemente descansadas na hora de levantar para a escola”, afirma. E aí, você já sabe: vem aquela irritação, o choro…

Quando e como começar a readaptar os horários?

É normal que, no período de férias, a rotina seja mais flexível, ainda mais para crianças um pouco maiores, acima dos 4 anos. “Nessa idade, elas já compreendem bem a dinâmica de escola, fim de semana e férias escolares”, pontua a consultora. No entanto, o ideal é tentar não deixar bagunçar demais. Assistir à TV até alta madrugada e acordar meio-dia, por exemplo? Melhor não!

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Ainda assim, é importante fazer combinados e começar a retomar, aos poucos, os horários da rotina do colégio pelo menos duas semanas antes do início das aulas. “Desta forma, há tempo para o organismo da criança se reajustar, evitando que na volta à escola haja picos de estresse, irritação, choro e sofrimento para sair da cama”, orienta.

Comece antecipando a hora de levantar e de ir para a cama alguns minutos a cada dia – até chegar no horário ideal para quando as aulas recomeçarem. Zioneth ressalta que é interessante considerar ajustes a cada fase, se necessário. “Quase dois meses em casa podem significar mudanças importantes no desenvolvimento, especialmente para as crianças pequenas”, lembra.

Você também precisa se reajustar

Os horários dos adultos acabam pesando na rotina de sono dos filhos. “Se o pai costuma chegar do trabalho depois das 20h, vai ser muito difícil persuadir a criança a ir dormir às 20h30. A convivência também é uma necessidade básica a ser atendida”, diz a especialista.

casal deitado no chão, brincando com uma menina. O homem está levantando ela para cima
(PeopleImages/Getty Images)

“Já atendi situações em que os pais trabalham em plantões noturnos. É o caso de garçons, enfermeiros, músicos, organizadores de eventos, agentes de segurança pública, entre outros. É uma realidade muito mais comum do que parece. É claro que, nesses casos, não é possível a criança esperar o pai ou mãe para brincar às 3h da madrugada. Por isso, é importante suprir a necessidade de convivência e vínculo emocional em horários mais adequados à vida escolar”, explica.

A sugestão é separar um tempo antes do trabalho ou programar pelo menos uma das refeições em família. Cada casa vai exigir um arranjo diferente. “Já tive situações em que o pai preferia brincar com o filho na volta do plantão, logo de manhã, porque isso o ajudava relaxar e dormir melhor depois. Também vi casos em que mãe e filho se encontravam apenas à tarde, depois da escola, quando ela já tinha descansado após o plantão noturno”, conta. O importante é encontrar um ponto de equilíbrio.

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Além disso, para que a criança descanse, a casa inteira precisa diminuir o ritmo conforme o horário estabelecido para dormir for se aproximando. Diminua o volume, as brincadeiras, os sons e as luzes, crie uma rotina relaxante, como a de ir para o banho e depois ler uma história, já na cama.

Alimentação também faz diferença

Nas férias, é comum, em muitas famílias, relaxar também com a alimentação – tanto com o tipo de comida quanto com os horários da refeição. Se isso acontece na sua casa, um pouco antes da retomada da rotina, também é indicado começar a regular novamente esses pontos. “O sono é um processo complexo e a alimentação pode, sim, influenciar”, diz Zioneth. 

Uma alimentação diurna com baixo consumo de nutrientes e, especialmente, de proteínas, pode levar as crianças pequenas a procurar mais alimentação noturna, priorizando a comida, em vez do descanso”, afirma a consultora. E aí é possível que o sono fique mais fragmentado. O pequeno não descansa e, como consequência, fica mais difícil despertar pela manhã.

A influência das telas

Os dispositivos eletrônicos, quando utilizados próximo do horário de ir para a cama, tendem a prejudicar o sono. “Este tipo de luz [azul] interage diretamente com os centros hormonais que regulam o ciclo circadiano [que ajusta horários de sono e vigília do nosso organismo]. Nosso metabolismo é diurno e responde a mudanças de luz”, afirma.

O cortisol e a melatonina são os dois hormônios principais envolvidos na função de regular o momento de dormir e o de despertar. “Pense neles como interruptores, que ligam ou desligam vários processos metabólicos. O cortisol é o hormônio que nos deixa ligados, em alerta. Também associado ao estresse, ele aumenta com a presença da luz”, explica Zioneth. Por isso, de manhã, quando percebemos a luz do sol, nosso organismo recebe a mensagem de que é hora de acordar. “No entanto, ele também pode ser ativado pela luz emitida pelas telas eletrônicas”, diz. Deu para perceber o tamanho da confusão, não é?

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Já a melatonina é o hormônio que diminui o ritmo metabólico, ou seja, o interruptor que “desliga” e inicia os processos associados à fase de descanso. “O aumento dos níveis de cortisol no organismo pode bloquear os receptores de melatonina nas células e até bloquear a produção”, afirma. “Apesar de existirem alguns recursos para filtrar a luz emitida pelas telas, o efeito sobre o cérebro infantil não se limita à iluminação, porque tem também a agitação causada pelos conteúdos e pelas imagens”, acrescenta.

garoto de lado, mexendo em uma tela no escuro
(Jasmin Merdan/Getty Images)

Para ajudar seu filho a dormir no momento certo e garantir que ele descanse bem à noite (e, consequentemente, acorde com mais facilidade pela manhã), é fundamental restringir o uso de dispositivos eletrônicos pelo menos de uma a duas horas antes de ir para a cama.

A melhor forma de acordar

E depois de fazer tudo isso, qual é a melhor estratégia para acordar a criança e evitar o mau humor logo cedo? Usar um despertador? Programar aqueles intervalos de “soneca” do celular, permitindo o famoso “só mais 5 minutinhos”? Colocar uma música? De acordo com Zioneth, a melhor forma de despertar é a luz, depois de ter garantido a quantidade de sono suficiente para a criança.

“Um ritual para a hora de levantar que associe vários estímulos para o corpo ir finalizando o ciclo de descanso pode ser bom: abra as cortinas, pouco depois ligue uma musiquinha de bom dia e siga para uns beijinhos e para a troca do pijama, por exemplo”, orienta.

Preste atenção também aos sinais que o pequeno dá. “A dificuldade de despertar de manhã é um sintoma comum que deve ser atendido. Pode sinalizar um intervalo de sono curto, um sono muito fragmentado, pouco reparador ou mesmo a presença de algum distúrbio”, aponta. “Mais do que arrancar a criança da cama à força, é importante avaliar a higiene do sono, ou seja, repassar tudo e ver como está a rotina, a interação com a rotina da família, o descanso diurno, as atividades diurnas, a exposição aos eletrônicos e o consumo de açúcares, entre outros pontos”, recomenda.

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Se, mesmo assim, seu filho acordar de mau humor, recarregue a dose de paciência e tente esperar passar, sem entrar em disputa ou briga. Isso só vai piorar a situação em um momento já tenso. Mais tarde, quando tudo se acalmar, dependendo da idade da criança, vocês podem tentar conversar e acertar os ponteiros.

Devo levar a criança dormindo para escola?

Essa pode não ser uma boa ideia, mesmo para crianças menores ou até bebês. “Acordar no carro ou na creche, de forma abrupta e repetitiva, pode levar à desorientação e, eventualmente, à rejeição da hora de dormir, à noite, pois a criança vai associando que ‘ao dormir, a mamãe some’”, explica.

Segundo a consultora, o melhor a fazer é ajustar a rotina familiar e a rotina da criança de forma que ela tenha um período de sono adequado à fase de desenvolvimento. “Às vezes, isso significa que os pais também precisam ir para a cama mais cedo, para acordar antes e ter mais tempo para organizar a saída de manhã. Trocar a criança no carro, trocar dormindo ou deixar que acorde somente na escola não é o ideal”, afirma.

6 dicas para ajudar a criança a acordar cedo

1. Converse com a criança, ainda nas férias, sobre a mudança de rotina que se aproxima. O ideal é começar o processo pelo menos duas semanas antes da volta às aulas, mas nunca é tarde. Explique que em breve vocês retomarão as atividades normais, adultos ao trabalho e crianças à escola, e que, portanto, todos deverão ajustar os horários de ir para cama, para descansar bem.

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2. Comece a regular os horários de alimentação. Organize os intervalos entre as grandes e pequenas refeições, adaptando também o tamanho e o conteúdo do prato. Programe o almoço e o jantar para horários adequados ao ritmo escolar.

3. Diminua o consumo de açúcares da criança. Ao regular a quantidade e qualidade dos alimentos durante o dia, fica mais fácil controlar o nível de energia que o organismo dela terá.

4. Reduza o uso de eletrônicos, limitando o tempo de televisão, videogames, tablets e de outros aparelhos. Tente retomar o ritmo para aquele que acontece durante o período escolar, com regras. A exposição a esses dispositivos superestimula o cérebro, deixando a criança em um constante estado de alerta, o que dificulta a concentração e o sono, mesmo quando ela está exausta.

5. Defina novamente o horário ideal para o pequeno ir para a cama. Tenha em mente a idade. Pode ser que o horário anterior já não seja mais aplicável porque, agora, seu filho é (e se sente) maior. É bem provável que, nos primeiros dias, leve mais tempo para conseguir conciliar o sono. E isso é normal.

6. Respeite o horário de sono da criança. É importante baixar o ritmo da casa toda para criar o ambiente propício para seu filho descansar.

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