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Por que precisamos acolher o choro da criança

Validar os sentimentos é importante para a construção da autoestima e para que os pequenos aprendam a lidar com as emoções

Por Carla Leonardi
Atualizado em 2 nov 2022, 10h50 - Publicado em 1 nov 2022, 15h13

“Que feio chorar”, “Isso é coisa de bebê”, “Um rapazinho como você chorando?”. Provavelmente você já ouviu frases como essas e talvez até já tenha falado alguma delas mais de uma vez.

Com o objetivo de incentivar a criança a parar de chorar e sem qualquer intenção de prejudicá-la, é comum recorrer à ideia de que o choro é feio e desnecessário. Mas será que ele é mesmo? Você já parou para observar que, quando há um adulto aos prantos, é difícil que alguém, em vez de abraçá-lo, diga a ele que deveria apenas se controlar?

Todo mundo precisa de acolhimento e não importa o motivo do chororô. “Com o tempo, a criança entende que precisa fazer as pessoas felizes e que chorar não é permitido, não é válido, que significa fraqueza”, explica Camila Menon, especialista em primeira infância, professora e diretriz Montessori da Educar é Preciso. “Ao invés de aprender a lidar com as emoções, ela passa a suprimi-las e isso influencia diretamente a forma que ela percebe a si e ao outro, afetando sua autoestima e confiança”, complementa.

Como agir quando a criança está chorando?

O importante é entender a necessidade dela naquele momento e validar o que está sentindo. Camila lembra que este é um verdadeiro exercício de empatia: “Quando você diz que não foi nada, que o choro ‘é sem razão, é besteira’, ou que ela ‘está com manha, querendo chamar a atenção’, você desqualifica o que a criança sente e a faz sentir vergonha por isso”. 

De tanto ouvir frases como essas, é possível que o pequeno até pare de chorar, mas por medo de não agradar, quando o ideal seria que ele conseguisse entender o que está sentindo. “Prefira se direcionar à criança de forma que valide o que ela sente, colocando-se à disposição. Por exemplo, ao dizer ‘meu amor, está ok chorar e ficar triste. Se você precisar de mim, eu estou aqui para você’. Só depois que ela estiver calma, direcione-a ao que pode ser feito para resolver o problema”, orienta a especialista.

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(Marcos Paulo Prado/Unsplash)
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Ajudar o pequeno a se acalmar

Se nós, adultos, muitas vezes temos dificuldade para lidar com os nossos sentimentos e acabamos nos descontrolando, como esperar que um ser humano de poucos anos de vida consiga fazer isso sozinho? “Não tem nada mais efetivo do que ser a calma de que a criança precisa”, pontua Camila.

Ela orienta que, para bebês com menos de 18 meses, a distração é uma boa saída para desviar o foco do choro, já que muitas vezes ele acaba se estendendo sem que o pequeno lembre qual foi o motivo.

Já para os maiorzinhos, vale apontar o que pode ser feito. “Se a criança chora porque quer fazer X, explique por qual motivo X não pode ser feito, mas dê a opção de fazer Y: ‘eu entendo que você quer assistir televisão, mas agora é hora de brincar no jardim ou com os seus brinquedos’, exemplifica a profissional. “Mas nunca deixe a criança chorando sozinha para ela ‘aprender a se comportar’. Quando o adulto faz isso, ela não aprende a parar de chorar, só entende que você não está disponível para ela e passa a se sentir insegura”, chama a atenção.

Caso a criança demonstre que prefere ficar um pouco sozinha, Camila orienta a se afastar, mas avisando que você está à disposição para quando ela precisar.

Mãe abraça filho no colo chorando e triste
(Ponomariova_Maria/Getty Images)
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Consequências futuras

Se você, assim como muitos adultos de hoje, cresceu tendo seu choro deslegitimado e acha que isso não teve efeitos negativos, talvez valha repensar um pouco. Para a especialista, ser educado dessa forma pode levar a um comportamento considerado imaturo. “Vemos uma geração sem autoestima e confiança, que se preocupa mais com a opinião dos outros do que com o que sente, e que não sabe lidar com frustrações”, afirma. São pais que têm a tendência de transferir ao filho toda a responsabilidade pelo que acontece, atribuindo os comportamentos dele a uma “personalidade forte”.

“São pessoas que passam a esperar, mesmo sem perceber, pela atenção que não tiveram quando crianças. Assim, o filho já nasce com a responsabilidade de suprir o amor que o adulto não sente ter tido de outra forma, o que acaba gerando expectativas e frustrações, como se o filho fosse ingrato por não ofertar o que é esperado dele. Quando menos esperam, se perdem ao educar a criança e o ciclo continua, infelizmente”, alerta a especialista em primeira infância.

E não tem jeito: não dá para esperar que os pequenos resolvam essa questão. Tudo começa pela mudança de atitude dos adultos, que são os que têm condições de entender e de modificar esse relacionamento. O início se dá, inevitavelmente, pelo olhar para si mesmo.

“A criança [cujas emoções não são acolhidas] não se desenvolve emocionalmente como deveria e tende a acreditar que ela não tem valor, que ela não merece atenção e que não é amada, o que acaba por afetar sua autoestima e a construção da sua personalidade”, finaliza Camila.

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