#Lancheiradodia: o que aprender com a trend sem sobrecarregar mais as mães

Apesar de demonstrar carinho e chamar atenção para a alimentação, estes virais podem acrescentar mais uma carga para mulheres já sobrecarregadas.

Por Nathalie Ayres 15 mar 2022, 17h29

É só entrar no TikTok ou Instagram que em algum momento você será impactado com mães e pais no mundo todo preparando lanches caprichados para seus filhos: são frutas em forma de coração, pães cortados formando estrelinhas, bilhetinhos falando como amam os filhos, tudo isso armazenado em potes coloridos e lancheiras de bichinhos!

É, a volta às aulas após a covid-19 ressuscitou mesmo a trend #lancheiradodia para as redes sociais!

@lima.dani

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♬ Up and Away [Bydureon] – GHOSTLAND

Apesar de ser uma iniciativa muito fofa e divertida, ela esconde um perigo, muito bem exibido em um post da escritora e roteirista Tati Bernardi, que postou no Instagram a seguinte conversa com a psicóloga Vera Iaconelli, com pitadas de ironia (veja abaixo). Será que as redes sociais estão inventando mais uma tarefa para as mães sobrecarregadas?

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Precisamos falar sobre carga mental!

A educadora Fabiolla Duarte, especialista em comportamento alimentar infantil e adulto e criadora do projeto Colher de Pau, concorda com esse questionamento. “A carga mental é um problema muito grave que está adoecendo as mães. Até porque muitas vezes elas são as provedoras, administram o lar, gerenciam milhões de tarefas, é um lugar muito exaustivo. Então isso virar uma mania, não ajuda em nada. Comida bonita e estética é a comida respeitosa, não precisa ser algo feito para o Instagram!”, preocupa-se.

Isso não quer dizer que quem faz esse tipo de trend está errado ou que você não deve tentar preparar lanchinhos caprichados. Mas é importante não se sentir culpada se você não conseguir ou não quiser. “Só faça se for lúdico para você. As mães estão o tempo todo a serviço, a meta é fazer o que dá certo. Pode fazer, mas quando você cansar, pare!”, considera Duarte.

É o caso da criadora de conteúdo e mãe Dani Lima, de 32 anos. Desde fevereiro ela tem compartilhado em suas redes os vídeos preparando as lancheiras para sua filha Luna, de 2 anos. “Como trabalho em casa e já costumava me envolver com esses preparos para ela comer desde sempre, não senti que me tomou um tempo extra”, reflete Dani, que demora entre 15 e 30 minutos para preparar os lanchinhos e estima que demoraria ainda menos se não filmasse todo o processo.

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Ela entende que não é a mesma realidade de outras mulheres, inclusive tem esse exemplo em casa. “Dia desses a minha mãe, que é uma mulher preta, mãe solo e que sempre trabalhou em mais de um emprego para complementar renda, deixou um comentário em um vídeo em que eu montava o lanchinho, falando o quanto ela achava importante e emocionante ver que eu podia fazer isso pela minha filha, como ela não pode fazer por mim, já que a necessidade a impossibilitava”, relata Dani.

No final do dia, ela compartilha esses vídeos não porque quer fazer bonito nas redes sociais, mas por que essa é uma forma de expressar seu amor: “As formas de compartilhar afeto são diversas, diferem de família pra família, e o que é realmente importante é não deixar de partilhar o que carregamos no nosso coração, seja da forma que for”, reflete a criadora de conteúdo.

Tanto que no dia 9 de março, por exemplo, Dani não conseguiu preparar o lanchinho que tinha planejado, já que a cuba de sua pia da cozinha se soltou da pedra. “Eu estava nada motivada a montar o lanchinho, com a cabeça a mil, a cozinha um caos… E entendi que naquele dia eu não poderia fazer uma receita superespecial, mas que o lanchinho teria tanto carinho quanto qualquer outro”, conta. Ela enviou alguns biscoitos de polvilho e frutas, além da água gelada que ela sempre manda.

“O nível estético não é o mais importante e sim a construção do elo da criança com um lanche saudável ao participar do planejamento e da montagem da lancheira, por exemplo”

Amanda Ferrão, nutricionista do Fleury Medicina e Saúde

A nutricionista Amanda Ferrão, do Fleury Medicina e Saúde, nos lembra que o lanche não é a única refeição do dia, muito menos a principal. “O sentimento de culpa pode gerar mais estresse e ansiedade, sentimentos que só atrapalham no processo de mudança dos hábitos alimentares e de curtir outros momentos importantes que terá ao lado da criança”, pondera.

Ser lúdico é realmente um diferencial?

Para Fabiolla Duarte, a ludicidade do alimento anda sendo superestimada, o mais importante é conhecer a criança e entender do que ela gosta nesse momento, afinal os gostos dos pequenos estão em constante transformação. “Tudo que uma criança precisa é ser lida, então quando eu penso em vegetais eu vou na direção dos lugares que fazem sentido para meu filho, e nem sempre tem a ver com o lúdico não!”, considera a educadora.

Para ela, muitas mães acabam usando essa estratégia de lanches mais divertidos como uma forma de disfarçar a comida, o que com o tempo se torna exaustivo. “O que que eu estou disfarçando e escondendo? Eu estou distraindo a criança do que?”, questiona. No final das contas, o que vai garantir que a criança coma é ela gostar ou não dos alimentos que você está ofertando e tentar adaptar essa alimentação ao gosto dela!

“Então em vez de me esforçar nessas estratégias, eu deveria usar a minha energia para observar quem ele é. Vendo as comidas que ele gosta, quais são as características delas? E as que ele não gosta? Se eu fizesse um mapa, a cartografia do gosto do meu filho, como seria? Será que isso conta quem meu filho está agora?”, provoca Duarte.

O mesmo vale ao convidar a criança para cozinhar com você. No caso da Luna, filha da Dani Lima, ela adora participar e as formas e cores dos alimentos chamam muito sua atenção. Mas se você convidar seu filho e ele disser que não quer, respeite! “O que enriquece o vínculo em si é o respeito, cuidado, amor e delicadeza”, lembra Fabiolla Duarte.

Mãe e fiha cozinhando juntas
Dani e Luna preparam os sanduíches da lancheira juntas Dani Lima/Arquivo Pessoal

Sem culpa, com planejamento

De qualquer modo, muitas escolas não contam com lanchonetes ou não permitem que a criança pequena compre o lanche sozinha, o que faz com que a lancheira diária seja realmente necessária — seja com ou sem sanduíches em formato de estrelinhas! E é possível tirar algumas lições dessa trend.

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A primeira delas é a importância do planejamento alimentar. “Uma coisa que ajuda o processo a ser mais fluido e não pesar na rotina é ter as frutas/legumes que vou usar nas lancheiras já higienizados e os demais ingredientes previamente organizados. Para isso ser possível, eu também deixo montado no início da semana uma espécie de cardápio dos lanchinhos, então sei exatamente o que vou precisar e posso deixar pré-pronto”, ensina Dani.

O processo é importante não só para facilitar o preparo na hora H, como também para garantir que o lanche seja saudável. “Quando se planeja a alimentação como um todo, é mais fácil de mantê-la equilibrada e conseguimos economizar tempo”, considera a nutricionista Renata Bressan, membro do Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO).

É importante também que esse planejamento leve em conta os gostos da criança. Você sabe do que ela gosta? “O mais importante é que, com o passar do tempo, você vai sacando quem é seu filho. Meu filho, por exemplo, não é aquele que vai comer vegetais ou saladas pura e simplesmente (nem muitas outras crianças!), mas ele gosta de vegetais fermentados (como picles) ou crocantes e assados (como os chips), então ao invés de eu inventar coração, o que preciso de fazer é entender quem meu filho é, do que ele gosta e investir nisso”, contextualiza a educadora Fabiolla Duarte.

Lancheira feita pela Dani Lima
Frutas, como banana e morango, fazem parte da lancheira da pequena Luna, que ainda conta com sanduíche e água. Dani Lima/Arquivo Pessoal

Dani leva isso em conta na hora do planejamento. “Considero primeiro itens que ela ama, depois coisas que ela não se importa muito, mas come, e por fim o que eu gostaria de inserir com mais regularidade na alimentação dela e que talvez ela não curta tanto assim, e que por isso eu preciso apresentar mais vezes”, descreve.

De fato, a nutricionista Ferrão reforça essa necessidade da repetição para aceitação de um alimento novo, que varia conforme a idade:

  • Entre 8 a 10 ofertas às crianças com 2 anos;
  • De 8 a 15 vezes às crianças entre 4 e 5 anos de idade.

Como equilibrar os nutrientes do lanchinho?

Tá, mas por onde começar o planejamento? As nutricionistas ressaltaram a importância de o lanche ter ao menos um item dos seguintes grupos alimentares:

  • Frutas e hortaliças: ricas em vitaminas, minerais e fibras;
  • Alimentos à base de grãos e pães: fonte de energia, ricos em fibras, vitaminas e minerais quando utilizados os integrais;
  • Fontes de proteínas como laticínios magros e ovos: crescimento e desenvolvimento, no caso dos laticínios importantes para a saúde óssea.

“Os alimentos ricos em fibra combinados com as fontes proteicas levam a maior saciedade”, ensina Bressan. Outro ponto importante das frutas são suas quantidades de micronutrientes: quanto mais cores, maior a diversidade de vitaminas, minerais e fitonutrientes.

É importante lembrar que essa é uma das cinco ou seis refeições que a criança terá no dia, e é importante equilibrá-la com as outras. “Indica-se que os lanches intermediários (manhã e tarde) supram de 10 a 15% das necessidades nutricionais diárias. Contudo, variando conforme o consumo alimentar nas demais refeições principais (café da manhã, almoço e jantar)”, ressalta Ferrão.

Bressan que reforça que as porções são individuais e dependem da idade, altura e peso da criança. A escola, inclusive, é uma aliada nesse equilíbrio, assim como a equipe que cuida da saúde de seu filho. “A família junto com seu pediatra podem dosar isso nas consultas, um acompanhamento com nutricionista ajuda nesse processo. Mas com contato direto com a escola e professoras ajuda a entender se a criança comeu todo o lanche ou se sobrou ou faltou”, pondera o pediatra Pedro Cavalcante, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

Lembrando também que você sempre pode contar com a nutricionista da escola do seu filho, se existir esse tipo de serviço. E se seus pequenos estudam em uma escola pública, fique tranquila, pois normalmente ela conta com esses profissionais.

Como variar esse cardápio?

Dani Lima dá as receitinhas que usa no cardápio de Luna em seu instagram @lima.dani. Ela também se inspira em outras mães: “Amo ver os lanchinhos que Naise (@maedaafra) monta pra Afra, também gosto de ver, não só sobre lanches, o que a Gabi (@gabidepretas) compartilha de receitas, e os lanchinhos que a Manu (@manuuvianaa) monta sempre pro Heitor”, enumera.

Outros bons lugares para tirar ideias são os manuais elaborados pelas sociedades médicas, como o e-book “Lancheira Saudável”, da ABESO, e “Lanche Saudável – Manual de Orientação”, da SBP.

Fabiolla Duarte também compartilhou algumas ideias que usa nos lanches de seu filho Hari de 11 anos: “Eu gosto muito da ideia de lanches compactos e fáceis, como sanduíches, que coloco na lancheira com frutas e água. Ou chips de batata-doce com pão de queijo. Adoro fazer uma torta de liquidificador com uma proteína e os legumes que tenho na geladeira. Faço também uma omelete em forma de bolinho, na forminha de silicone, com os vegetais que tem em casa. Ou crepioca: com 3 ovos, uma colher de tapioca, misturo bem e faço um grande disco que recheio como meu filho quiser”, exemplifica a educadora.

Meu planejamento deu errado, e agora?

Mas mesmo com planejamento, imprevistos acontecem e, às vezes, não há muito o que se fazer. E fique tranquila, acontece com todo mundo! “Várias vezes eu estou sobrecarregada e quando vejo estou na padaria comprando saquinho de pão de queijo para o meu filho levar. E eu trabalho com alimentação saudável, é assim que eu pago minhas contas, mas é vida real, sabe?”, confessa Duarte.

Não há nada de errado, por exemplo, ter na despensa alguns industrializados para usar como um curinga, mas é preciso ter bastante consciência na hora de comprar. “Eu sempre leio os rótulos e o primeiro critério é que eu preciso entender tudo que está escrito lá. Outro ponto é que eu evito comprar itens que tenham gordura hidrogenada – salvo o pão de queijo de emergência da padaria!”, aconselha a educadora.

Amanda Ferrão ensina um truque importante ao ver os ingredientes: a ordem em que eles aparecem é sempre do que possui maior para o que tem menos quantidade na receita. Ou seja, fique atento se açúcar e sal estão nos primeiros lugares! “E seguindo o alerta, evite produtos com outros nomes que pode-se utilizar para designar o açúcar adicionado como: sacarose, xarope (de milho, por exemplo), glicose, açúcar invertido, entre outros”, frisa a nutricionista.

Outra dica valiosa de Fabiolla é buscar alguém de quem você possa comprar esses lanches quando precisar. “Sempre tem uma mãe empreendedora que cozinha e precisa de ajuda, se eu criar uma parceria com ela, a gente se ajuda”, resume a especialista.

O mais importante de tudo é colocar amor não só nesse cuidado, mas em todo seu relacionamento com seu filho e não é um pãozinho em formato de coração que vai demonstrar isso!

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