Entenda se o seu filho está com tédio ou ficando ansioso na quarentena

A pandemia do novo coronavírus traz um cenário diferente para as crianças, com respostas aos dias iguais que chamam atenção para saúde mental da família.

Permanecer em isolamento social continua a ser a medida mais efetiva para proteger adultos e crianças do novo coronavírus, mas sabemos que não é fácil. E se a ausência da família, dos amigos e até mesmo do contato com outros ambientes mexe com a saúde mental dos pais, o mesmo pode acontecer com a dos pequenos.

Com quase cinco meses de reclusão para o controle da doença no país, famílias precisaram criar uma nova rotina na tentativa de equilibrar o home office, as aulas virtuais e os momentos de brincadeira. Só que a prática tende a não ter tanto sucesso como a teoria e, muitas vezes, o resultado é um misto de dúvidas sobre o comportamento da criança.

Uma delas é sobre a percepção de como o pequeno está reagindo ao tempo em casa: se ele está apenas com tédio – como nós, adultos, também experimentamos em dias que parecem iguais – ou se a situação é mais delicada, cogitando a possibilidade de ele estar sofrendo de ansiedade.

Como relata Bárbara Calmetto, neuropsicóloga especializada em atendimento infantil e diretora do Autonomia Instituto, a ansiedade durante a pandemia pode ser causada pela preocupação excessiva das crianças de quando elas poderão voltar às aulas, ver os avós e até mesmo o que será sobre o futuro.

Só que para as crianças menores, mais do que sentir essas inquietudes, o mais desafiador é conseguir verbalizá-las. Neste caso, é essencial que os pais fiquem atentos a outros sinais que elas podem desenvolver.

“Como maior irritabilidade, agressividade, comer um pouco mais compulsivamente ou ficar mais queixosa”, exemplifica Cristina Borsari, coordenadora de psicologia hospitalar da Beneficência Portuguesa de São Paulo (BP). A especialista também alerta para alterações do ciclo do sono, como dormir demais ou de menos e acordar repetidas vezes durante a noite.

Entretanto, vale ter em mente que é preciso que essas mudanças sejam frequentes e com uma intensidade que chame a atenção dos pais para que se comece a pensar que tais sintomas são reflexos de ansiedade.

E qual a diferença para o tédio?

Ainda que estar ansioso possa parecer uma sequência de se sentir entediado pelos dias parecerem iguais na quarentena, os pequenos podem apresentar sinais físicos que também ajudam a diferenciá-los.

Bárbara explica que a criança entendiada é aquela que está cansada da repetição do dia a dia e não consegue encontrar motivação para conseguir fazer as atividades dela.

Essa frustração pode levá-la a ficar mais cabisbaixa e prostrada, como pontua Cristina. Entretanto, diferente do sentimento de ansiedade que é difícil de colocar em palavras, o tédio pode ser identificado em frases mais simples como “Eu não tenho mais nada para fazer” ou “Já brinquei de tudo, não sei o que fazer agora!”.

Para entender se este sentimento está prejudicando a saúde mental da criança, os pais precisam tentar alterar a sua rotina para ver como ela responde, especialmente aos finais de semana. Se ao propor atividades diferentes, o pequeno ainda não se sinta estimulado, é preciso atenção para encontrar outros sinais que ajudam a entender em qual situação ele se encontra emocionalmente.

Caso a emoção seja esporádica, o tédio pode ser até mesmo benéfico para a criança. “Tivemos uma desaceleração da rotina, mas aumento também da ansiedade dos próprios pais, que depositam nos filhos que eles não podem estar sem fazer nada, porque significa que a criança não está aprendendo, evoluindo. Mas não é bem assim!”, comenta Cristina.

O tempo ocioso e sem os estímulos das telas, por exemplo, ajuda a criança a aprender desde cedo a importância de pausar e ficar sem fazer nada – ainda mais dentro desta realidade em que, antes da pandemia, havia sempre uma nova aula ou atividade para fazer. Observar o mundo ao redor, atento às sensações dos sentidos do corpo, também estimula a criatividade infantil.

O exemplo começa com os pais

Só que esta pausa para perceber o que está ao entorno pode não ser fácil para as crianças pequenas. E o principal motivo disso é que se os adultos não têm nenhuma experiência com o que é uma pandemia, elas têm menos ainda.

Apesar do diálogo ser essencial para explicar o que é o coronavírus e como ele está afetando as famílias, Gláucia Faria da Silva, coordenadora da equipe de psicologia hospitalar do Sabará Hospital Infantil, explica que a assimilação tende a ser mais difícil para os menores. E, mesmo que eles entendam, é difícil bancar tais informações sem o auxílio consciente dos pais.

“Todos estão um pouco desorganizados, mas as crianças da primeira infância estão muito. Elas vão parecer mais barulhentas, birrentas e agitadas, mas elas estão precisando de adultos de referência disponíveis para reorganizarem o universo delas que também não sobrou nada”, enfatiza a especialista.

Neste processo em que os filhos têm menos bagagem para conseguir lidar com o turbilhão de sentimentos do momento, é essencial que os pais apresentem o que é cada uma das emoções em vez de pedir para que eles exponham o que estão sentindo, pois eles não sabem.

Isso significa que a criança vai reagir à frustração, tristeza e até mesmo ao tédio da maneira que ela conhece. Mas cabe aos adultos elucidarem para ela de onde eles vêm.

Por exemplo, se o domingo chegou e a família estava acostumada a visitar os avós no dia, é importante conversar com a criança para dizer que o choro dela pode ser saudade ou até mesmo raiva de não poder ver quem ama e, principalmente, de que isso vai passar.

O mesmo para quando chega a segunda-feira e ela esperava rever os amiguinhos ao ir para a escola. Esta validação das emoções ajuda a criança a construir uma relação mais saudável com a complexidade do que é o sentir ao longo da vida.

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