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Como “Red” me deixou mais orgulhosa da minha família asiática

A nova animação da Pixar teve o poder de me levar para minha adolescência e me trazer de volta até a maternidade. E a viagem foi boa.

Por Fernanda Tsuji 18 mar 2022, 19h01

“Você já tá chorando, mamãe?”, perguntou minha filha, ainda no começo de “Red – Crescer é uma fera”, a nova animação da Pixar. Mesmo tendo só cinco anos, ela me conhece bem, sabe que situações de conexão mãe-filha costumam me emocionar. Mas não, eu ainda não estava chorando. Estava é achando bem engraçado.

O filme começa com uma narração espertinha e autoconfiante da protagonista Meilin Lee (dublada por Rosalie Chiang, que entrevistamos aqui!). “Eu aceito e abraço todos os meus rótulos!”, avisa ela logo de cara. Estudante nota dez, amiga leal e filha perfeita, aos 13 anos, sua vidinha em Toronto parece bem OK até que… Você já sabe, ela descobrir que virou um panda vermelho gigante.

Dirigido e co-roteirizado por Domee Shi – ganhadora do Oscar de Melhor Curta de Animação por “Bao”, obra que também dialoga com a questão materna -, a nova animação percorre o costumeiro caminho de via dupla da Pixar de criar empatia instantânea com os pais (lembra de “Procurando Nemo” e “Divertida Mente”?), assim como nos fazer lembrar como era estar na pele dos filhos. Afinal, todos nós já fomos crianças e adolescentes e sabemos quão duro é crescer.

Num olhar mais panorâmico sob “Red”, dá para ver as metáforas mais óbvias, e eu vou listá-las aqui rapidinho, mas não é sobre elas que quero falar, tá?

Primeiro, existe o que o título em português já entrega logo de cara: sim, crescer é uma fera! São mudanças hormonais, pelos nascendo onde antes não existiam, sentimentos confusos e ENORMES que aparecem do nada – repare na cena de Mei Mei desenhando o garoto da loja de conveniência. É o turbilhão de clichês da adolescência reunidos na grande representação do descontrolado panda vermelho destruindo a cidade. Sim, nós já fomos este panda, sabemos como é.

Já o título em inglês, “Turning Red” (“Ficando vermelho”, em livre traducão) foi entendido por alguns como a chegada da menstruação – a cena da mãe, Ming (dublada por Sandra Oh), segurando muitos tipos de absorvente enquanto a jovem se desespera no banheiro é bem representativa. E para quem tiver boa vontade, dá para mergulhar um pouco mais fundo e entender como a aceitação de suas origens, já que Mei, uma garota sino-canadense, entra em contato com sua ancestralidade chinesa, simbolizada pela cor vermelha. “A cor da sorte”, segundo o pai da adolescente.

E isso só pra citar algumas das metáforas mais óbvias. A Pixar ama esconder pequenos recados formando uma camada de referências espertinhas para os espectadores mais atentos.

Algumas críticas apontaram que muitos dos símbolos usados seriam estereótipos da cultura leste-asiática, como o fato de Ming Lee ser uma tradicional “mãe helicóptero” (termo usado pejorativamente para designar as mães que não “saem de cima” dos filhos) combinada com a rígida e exigente “mãe tigre”, dois ícones do modo de criação de pais amarelos. Principalmente, entre os imigrantes das primeiras gerações nos Estados Unidos, Canadá e Europa.

Em busca de quem somos nós

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Veja bem, sou uma mulher asiática, neta de imigrantes japoneses e vou te ser sincera que, sim, no começo essa coleção de simbologias me incomodou um pouco, mas não precisaram nem 15 minutos de filme (não, eu ainda não tinha chorado!) para perceber que isso era, na verdade, algo positivo.

Em tempos de levante da ultradireita nacionalista no mundo todo, crimes de ódio racial e uma onda de agressões e assassinatos de imigrantes asiáticos nos EUA, que originou o movimento #StopAsianHate, é sim importante se ver representada na tela. Principalmente de um grande estúdio como a Disney. E mais: sem estar ligado somente a lendas de guerra ou contos com dragões como em “Mulan” e “Raya“, outras duas incursões dos estúdios com protagonistas asiáticas.

Em Red, a trama é contemporânea, se passa em 2002, e mostra nos pequenos detalhes o que é ser “estrangeiro”, não importando há quantas gerações já estejamos no país.

Acredito, inclusive, que na busca pela identidade da personagem, mora também uma resistência contra o olhar branco e ocidental que tenta a todo custo nos padronizar e invalidar a nossa individualidade com piadas de que “temos todos a mesma cara”.

O conforto da minha casa – e da minha mãe!

(Ei, me desculpa se você chegou até aqui mas ainda não assistiu o filme, porque a partir deste ponto, vou precisar contar uns spoilers mais pesados. Fique por sua conta e risco!)

Algumas cenas especialmente falaram com a garotinha amarela de óculos que me habita. Logo no começo do filme, ela troca um karaokê com as amigas por uma tarde de faxina com a mãe, seguida de um jantar recheado de comidinhas típicas com os pais e maratona de novela falada em mandarim. Pode não ser uma cena tão emblemática para os outros, mas este trecho me deu um tipo de conforto – seguido de um desconforto – muito familiar.

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Eu fui uma garota como a Mei Mei. Dividida entre a vontade de sair com as minhas amigas e descobrir o novo e o desejo de ficar no mundinho confortável com a minha mãe, tamanha a conexão que sempre tive com ela.

Minha mãe, veja bem, foi uma mãe adolescente, não faz parte do estereótipo nem da “mãe tigre” e nem da “mãe helicóptero” – e nem planejou que eu trabalhasse na ONU, como a mãe de Meilin. Ela até me deixava ir nos shows de punk rock que eu curtia! Mas minha mãe também sempre me ensinou que eu deveria ser firme e fiel a quem eu sou. E estava lá para segurar meu panda vermelho quando ele tentava destruir a cidade – assim, como eu também estava lá quando o panda adormecido dela ameaçava o mundo.

Quando ela precisou ir trabalhar no Japão, eu logo dei um jeito de ir também e seguimos criando nossos rituais do outro lado do mundo. Sim, tiveram momentos em que a gente precisou romper para poder crescer (e cada uma andar no seu ritmo), mas sempre nos pareceu melhor caminhar amparadas.

Uma mãe puxa a outra

E se estamos falando de amparo, talvez seja a hora de falar sobre um traço muito marcante da cultura asiática – e nestes anos lendo e estudando sobre o tema, percebo que é um conceito muito enraizado em povos amarelos: a família não te deixa para trás.

Talvez resida aí um bônus e um ônus. Se por um lado o clichê dos exigentes pais amarelos é verdadeiro, com a imagem real do obediente filho pressionado pelos sonhos pesados dos pais, por outro lado, se você faz parte de uma família tradicional asiática, você sabe que eles farão de tudo para te amparar visando um futuro melhor.

Vejo nisso um traço muito marcante nos imigrantes, já que apenas unidos era possível caminhar longe da sua terra natal em um país que nem sempre era receptivo com quem era de fora.

Por isso, Red tem cenas de caso pensado. A diretora Domee Shi, uma sino-canadense, sabe do que está falando. Quando descobre que a neta despertou a tal maldição do panda vermelho, a avó de Mei convoca todas as mulheres da família para ajudar a jovem a lidar com o seu panda fofo e raivoso. Aquele simbolismo bonito da nossa cultura – e as nossas marcas (repare na cicatriz no rosto da matriarca causado pelo panda da filha) – sendo passada adiante, com cada geração tentando curar as dores de sua antecessora.

(Vou reforçar o spoiler, porque agora vou falar de uma cena perto do final!)

“Oi, meu nome é…”

E aí, finalmente, eu chorei. Minha filha pareceu adivinhar e apertou a mãozinha mais forte na minha. Numa cena apoteótica, com direito à boy band que Mei é fã tocando ao fundo, a pandinha junto com sua avó e as tias tentam mover a panda-mãe para salvá-la. Elas entoam um mantra (tão similar aos que eu também já ouvi nas rezas nos templos budistas e velórios da minha família), enquanto vão puxando-a para dentro do círculo que a fará voltar a ser humana. Apesar de ter algo cômico na cena, eu chorei de soluçar.

Vi ali as minhas tias, as minhas avós, a minha mãe… e a minha filha. Pensei na rede de apoio que sempre me cercou, me deu suporte para que seguisse nas minhas escolhas, nas muitas marmitas com receitas da família que chegaram na minha portaria quando eu tinha acabado de dar à luz. Pensei na potência de todas que vieram antes de mim e na que eu deixo para continuar a nossa história.

Não quero romantizar. Nem sempre estive em paz com minha ascendência e a batalha do pertencimento é longa. Sei bem da problemática das aparências, de esconder o que não é perfeito que assombra as criações mais tradicionais asiáticas. O mito da perfeição e da expectativa, que me é tão dolorido e que é tão difícil de combater. Sei que em outras famílias, este suporte pode vir com muitas demandas que não te deixam enxergar quem de fato você é. E isso pode ser bem difícil na adolescência. Sonhos e esperanças alheias são um fardo pesado de carregar, sabe?

Mas assim como Mei Mei, quando você, de fato, cresce, e banca quem você é de verdade, dá para enxergar beleza na ancestralidade, no amadurecer e em você mesma. Talvez o segredo seja manter o que nos faz sentido e nos conecta àquela família e àquele povo, mas guardar um tanto dentro do peito que é só seu. O seu panda vermelho. O meu continua aqui. Alguns dias mais selvagem do lado de fora, alguns dias mais perdido por dentro, mas nunca mais escondido.

Assista “Red- Crescer é uma fera” no Disney+.

-Não deixe de ser você por ninguém, Mei. Quanto mais longe você for, mais orgulhosa eu ficarei.

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