Por que crianças autistas tendem a ser mais seletivas na hora de comer?

E como inserir novos alimentos no cardápio? Conversamos com especialistas para responder estas questões tão presentes no dia a dia de crianças no espectro.

Por Manuela Macagnan Atualizado em 6 abr 2022, 18h07 - Publicado em 2 abr 2022, 10h56

O Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo acontece no dia 2 de abril e a ideia é trazer luz para o tema. Afinal, quanto mais soubermos sobre o Transtorno do Espectro Autista, mais fácil ficará de encontrar diagnósticos, auxiliar famílias e tanto menor será o preconceito que ronda a vida destas crianças. E um dos temas recorrentes e que preocupa muito pais e cuidadores de crianças com TEA é a seletividade na hora das refeições.

Bianca da Luz é mãe do Erick, que tem 9 anos e tem TEA. Ela conta que o pequeno é extremamente seletivo para comer. “Ele até tem curiosidade sobre a nossa comida, que é arroz, feijão e carne. Mas ele vem, olha com cara de nojinho e volta para a alimentação dele, que é basicamente carboidrato. É muito difícil inserir uma proteína, uma fruta, uma verdura”, conta Bianca.

De acordo com Rosa Magaly Morais, psiquiatra da infância e adolescência, é relativamente comum pacientes com TEA apresentarem seletividade alimentar. “É importante entender que seletividade é a diminuição do número de alimentos e, em alguns casos, existe a restrição alimentar, que é a diminuição da quantidade do alimento”, explica.

Para a população em geral, comer tomate cereja, por exemplo, é uma atividade comum e que talvez não chame a atenção. Mas, para uma criança com TEA, a sensação do tomatinho explodindo dentro da boca pode ser insuportável ao ponto de ela nunca mais querer provar aquilo.

“É algo muito particular de cada criança. Para algumas pode ser a cor, para outras o cheiro, a textura, o barulho que aquele alimento faz ao mastigar ou o conjunto de mais de um desses fatores”

Gabriela Pacheco Ferreira, nutricionista

A repulsa a determinados alimentos pode ter diferentes motivações. “As principais estão ligadas às alterações sensoriais: o cheiro, o gosto, a textura, a aparência de um alimento podem determinar o quanto a criança se sente à vontade ou incomodada em comer”, diz a psiquiatra. E cada criança pode ser seletiva por um motivo diferente, não há um padrão.

Outro ponto importante é que, como parte das alterações sensoriais, muitas crianças podem não ter noção de quando estão satisfeitas. “Podemos encontrar compulsão alimentar no TEA, além de outras alterações, como a pica, por exemplo, que é quando a criança ingere objetos que não são alimentos, como zíperes, plásticos e afins. Existem também interesses atípicos, como pacientes que vão na geladeira, pegam uma cebola e comem como se fosse uma maçã. Ou que sempre preferem alimentos com gosto mais forte”, exemplifica Rosa.

Como apresentar novos alimentos

O primeiro passo é se munir de muita paciência. As crianças, de modo geral, recusam muitas comidas que, depois, são aceitas. Então não desista na primeira tentativa! “Quando ofertamos algum alimento novo, é comum a criança recusar por ser de um sabor e textura diferentes. Oriento a oferecer o alimento de 8 a 15 vezes, com diferentes formas de preparo. Claro que esse processo não vai ser feito todo de uma vez, mas ao longo dos dias”, ensina Gabriela.

Pode acontecer também de a criança só demonstrar interesse por um tipo de comida.“Se dependesse dele, o Erick comeria só pão francês, requeijão, nuggets, pão de queijo, rosquinha de polvilho e almôndega. E ovos! Ele ama ovos fritos. Não podem ser cozidos, não pode ser omelete. Tem que ser ovo frito com a gema meio mole, meio dura. Ah, e ele gosta de banana. Quer dizer, gosta é uma palavra forte, mas ele come”, conta Bianca.

Quando o pequeno só aceita determinado alimento, a nutricionista Gabriela aconselha avaliar os motivos: é por que é só o que oferecem para ele no dia a dia, é por causa da cor ou de alguma outra característica que aquele alimento apresenta ou é porque sente algum desconforto quando come outros alimentos?

“Se for o primeiro caso, devemos começar despertando a curiosidade da criança. Pode ser de maneira lúdica, com jogos ou brincadeiras que envolvam aquele alimento ou pode ser deixando-o ao alcance dos olhos para que ela veja e comece a se familiarizar. Já se for a segunda opção, algo que tenha ligação com a parte sensorial, como por exemplo, o som do crocante sendo mastigado ou a textura mais pastosa, vamos precisar do auxílio de outros profissionais, como terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo. Por último, se for algum incômodo físico, como cólicas ou refluxo, é importante avaliar com o pediatra”, define.

Continua após a publicidade

Hora de procurar ajuda

O ideal é que, tão logo seja feito o diagnóstico do transtorno do espectro autista, a criança receba atendimento de uma equipe multidisciplinar, ou seja, composta por médicos, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, pedagogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, além de um profissional para orientar os pais e cuidadores.

“E diante de um quadro de seletividade alimentar, é importante que essa criança seja direcionada para um especialista que entenda não só do TEA, como tenha familiaridade com o conceito e as questões ligadas à seletividade alimentar”, alerta a psiquiatra Rosa.

No caso do Erick, quem faz o acompanhamento é a nutricionista do posto de saúde. “Ele tem consulta a cada seis meses, em média, e é ótimo porque ela me dá ideias. Várias tentativas e muitas coisas que já conseguimos introduzir na alimentação do Erick foram sugestões da nutri. Por exemplo: bolinhos de carne com brócolis e nuggets de frango com farofa de cereal de flocos de milho. Tem coisas que ele não come mais, mas foram ideias ricas”, descreve Bianca.

View this post on Instagram

A post shared by Bianca da Luz 🌻 (@daluzbianca)

Dieta sem glúten e sem caseína é mesmo eficaz?

Você já deve ter ouvido falar dos benefícios de dietas sem glúten e sem caseína (a proteína do leite e derivados). No entanto, médicos e nutricionistas alertam que restringir alimentos sem orientação pode não ajudar ou, ainda, prejudicar a criança.

“Existem poucas evidências científicas de que a dieta sem glúten e sem caseína (SGSC) funciona como tratamento para todas as pessoas com TEA, não sustentando a sua utilização para todos os casos. Essa dieta funciona para quem tem problemas com o glúten e a caseína, de modo que evita a inflamação do intestino, diminuindo o desconforto e isso reduz alguns dos sintomas comportamentais”, explica a nutricionista Gabriela.

Ou seja, a SGSC só é indicada para tratamento de intolerância e alergia ao glúten e à caseína, o que pode acontecer em algumas pessoas que têm TEA, não para todas.

Ideias que podem ajudar

  • Respeite: A principal orientação é não forçar. “Quando o pequeno recusa o alimento, devemos aceitar a decisão dele. Mas deixe-o próximo à criança, para que ela possa ver, sentir o cheiro e criar proximidade, despertando a curiosidade”, ensina a nutricionista.
  • Analise: Outra sugestão é perceber quais os alimentos a criança aceita e notar quais características eles têm em comum. É a cor, o cheiro ou a textura? Sabendo quais são as características que agradam, busque outros tipos de comidas parecidas e ofereça.
  • Padrão: Ah, e não se esqueça da rotina! Manter um padrão para as refeições faz com que as crianças assimilem que aquele é o momento específico para a comida. É importante que seja um ambiente tranquilo, livre de barulhos, telas ou outras formas que distraiam o pequeno. “E não obrigue a criança a raspar o prato. Respeite quando ela não estiver mais com vontade de comer”, aconselha Gabriela.

E o que não fazer…

menina comendo
zlikovec/Getty Images

Saber que os filhos não estão se alimentando conforme o esperado é algo que preocupa pais e cuidadores, que acabam agindo errado sem perceber. A nutricionista Gabriela preparou uma lista de atitudes que devem ser evitadas:

  • Forçar a colher na boca: o momento da refeição acaba se tornando estressante tanto para os adultos quanto para as crianças. Além disso, o pequeno pode criar aversão ao alimento forçado.
  • Utilizar falas como “se você comer tudo vai crescer forte”.
  • Utilizar formas de barganha, como deixar comer doce ou jogar videogame se consumir determinado alimento. É errado porque a criança não constrói um relacionamento saudável com a comida.
  • Utilizar distrações como TV, celular, tablet, brinquedos, livros, etc. Isso faz com que a criança não preste atenção ao que ela está comendo.

O processo alimentar de uma criança é cheio de desafios e, quando vem acompanhado do TEA, pode ser que existam ainda mais obstáculos. Mas não se cobre tanto e não desanime se as coisas não saírem conforme você planejou, mesmo com tanto carinho, investimento e dedicação. Assim como nenhuma pessoa é igual a outra, crianças com TEA também são muito diferentes entre si. É observando as particularidades do seu filho ou filha, de passinho em passinho, que a evolução vai acontecer. E, sempre que possível, procure ajuda especializada.

Compartilhe essa matéria via:
Continua após a publicidade

Publicidade