Poliomielite: tudo sobre a doença e a necessidade da vacinação

Vacina oral previne contra a paralisia infantil e é a principal da campanha de atualização de cadernetas promovida pelo Ministério da Saúde em 2020.

Da virada para o século 21 até o triênio 2013-2015, a vacina contra a poliomielite era presença garantida nas cadernetas de vacinação infantil no Brasil. Sua cobertura sempre chegava a 100% ou a algo muito próximo disso. De 2016 em diante, no entanto, essa porcentagem vem caindo, até chegar ao ponto de ficar na casa dos 70% na média nacional em 2019.

Em 2020, o Ministério da Saúde quer reverter esse quadro. Apesar do atraso causado pela pandemia de Covid-19, a campanha de vacinação nacional está focada, ao longo de todo o mês de outubro, em atualizar as cadernetas e chegar à meta de 95% de cobertura da vacina contra a poliomielite, doença que causa a paralisia infantil.

Mas por que a adesão às gotinhas contra a pólio caiu tanto? Conversamos com Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), e Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), para entender esse fenômeno e também para saber exatamente quais são os riscos que as crianças e a sociedade correm por causa da falta de vacinação.

Uma doença “do passado”

Cunha e Kfouri afirmam que o maior problema em relação à adesão à vacina contra a poliomielite é ela ser considerada, por muitos, uma doença do passado, algo que não existe mais (embora ainda exista – não no Brasil, mas em outros países).

Além disso, fatores como a dificuldade de levar as crianças às UBSs em horário comercial, a eventual falta de vacinas e as fake news dificultam. Mas, como bem coloca Kfouri, “nada disso teria importância se as pessoas tivessem medo da doença, soubessem os males que ela pode causar”.

“Existe a falsa segurança quanto às doenças que nunca foram vistas. O último caso de pólio no Brasil foi em 1989, e tem pais que nem eram nascidos naquele ano. Como a doença não acontece mais no nosso meio, muitos têm a impressão de que não precisam mais vacinar seus filhos”, observa Cunha.

Mas precisam. A poliomielite tipo 1 ainda ocorre no mundo e, mesmo com muitas fronteiras temporariamente fechadas devido à pandemia, há sempre o risco de ela “viajar”. Até setembro deste ano, os dois países em que a doença ainda é endêmica registraram 204 casos: 147 no Paquistão e 57 no Afeganistão, como conta o presidente da SBIm.

Vírus vacinal: perigoso, mas não no Brasil

Em alguns países que ainda usam na vacina contra a poliomielite o vírus tipo 2 vivo atenuado – na África e na América do Sul –, foram registrados nos últimos anos casos de poliomielite justamente do tipo 2. O chamado “vírus vacinal” é tão perigoso quanto raro: 1 caso para cada milhão de habitantes. Mas no Brasil não há motivo para preocupação.

Em nosso país, a imunização gratuita contra a poliomielite é aplicada em cinco doses: três injetáveis (contra os três tipos existentes de poliovírus: 1, 2 e 3), aos 2, 4 e 6 meses de vida, e dois reforços com a famosa gotinha (contra os poliovírus 1 e 3), aos 15 meses e aos 4 anos.

Cunha explica que a versão injetável conta com o vírus inativado em todas as doses, enquanto a oral (gotinha) traz o vírus atenuado, ou seja, enfraquecido e que não apresenta praticamente nenhum risco de contaminação vacinal.

Para quem imunizar os filhos na rede privada, é possível optar pela vacina injetável hexavalente, que previne contra a poliomielite e também contra outras cinco doenças (hepatite B, coqueluche, tétano, difteria e doenças causadas pela bactéria Haemophilus influenzae tipo B). Ela deve ser aplicada aos 2, 4 e 6 meses de vida, com reforços entre 15 e 18 meses e 4 e 5 anos de idade.

Entenda melhor a poliomielite

A poliomielite é uma doença causada pelo poliovírus, que entra no organismo pelas vias aéreas e pela boca (em alimentos e água contaminados) e é eliminado pelas fezes (que causam a contaminação). A transmissão se dá especialmente em ambientes de baixa higiene e saneamento básico inadequado.

Seus sintomas são semelhantes aos de uma gripe ou infecção intestinal e suas consequências, devastadoras. Kfouri explica: “A poliomielite causa paralisia aguda e atinge especialmente os membros inferiores, podendo chegar aos braços e até aos músculos respiratórios e deixando sequelas para toda a vida”.

Isso porque as inflamações causadas pelo poliovírus são irreversíveis. Quem tem paralisia infantil costuma perder o domínio dos músculos de uma das pernas ou de um dos braços. Os casos mais graves são os respiratórios, em que a intubação se faz necessária.

Não existe tratamento ou remédio para o vírus da pólio. O que se faz é esperar ele sair do organismo naturalmente e, então, cuidar das sequelas.

Campanha de vacinação contra poliomielite no Brasil em 2020

Na campanha de 2020, todos que não tiverem tomado as cinco doses da vacina contra a poliomielite poderão colocar a caderneta em dia, independentemente da idade. Também é possível receber doses de vacinas contra outras doenças que estejam faltando para completar o calendário de imunização recomendado no Brasil.

“A vacina é segura, eficaz e gratuita. Temos que estimular e valorizar a vacinação, lembrar que ela não é uma proteção apenas para o seu filho, mas para o coletivo – quanto mais pessoas vacinadas, menor o risco de o vírus voltar a circular no Brasil. É um ato de amor e de cidadania”, resume Cunha, da SBIm.

É seguro ir à UBS para tomar vacinas em plena pandemia?

Sim. Mesmo durante a pandemia de Covid-19, é absolutamente seguro ir à UBS mais próxima de sua casa para vacinar seus filhos nesta campanha e também fora dela. O protocolo de segurança e higiene colocado em prática pelo Ministério da Saúde considera medidas para garantir o distanciamento, evitar aglomerações e controlar infecções por meio do uso obrigatório de máscaras, luvas e demais equipamentos de proteção.

A coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Francieli Fantinato, esclarece que “as medidas visam a segurança dos trabalhadores da saúde e da comunidade”. Ela ressalta ainda que “as vacinas precisam estar em dia para reduzir a probabilidade de surtos de doenças como febre amarela e sarampo, assim como a mortalidade de grupos vulneráveis”.

Convenhamos: no meio de uma pandemia, a última coisa de que o Brasil precisa é um surto de doença evitável por vacina, não é mesmo? Saiba como manter a caderneta em dia mesmo em tempos de coronavírus.

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