Como maternidades têm protegido grávidas do coronavírus na hora do parto

Gestantes com qualquer sintoma de síndrome gripal têm sido separadas de outras grávidas para evitar possível contaminação.

As incertezas sobre o coronavírus (Covid-19) ainda são muitas, especialmente para as gestantes. Ainda que estudos até o momento indiquem que não há comprovações sobre o vírus ser passado da mãe para o feto durante a gravidez, outras questões são inevitáveis. Uma delas é como está a realidade dentro das maternidades para o momento do parto durante uma pandemia.

Entre as recomendações da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), estão pontuados diferentes fatores que devem ser levados em consideração na hora da escolha da maternidade, como “equipe assistencial qualificada, equipamentos adequados, disponibilidade de laboratório e exames de imagem, banco de sangue, leito de isolamento e UTI neonatal e/ou de adulto”. 

Pensando nisso, conversamos com hospitais de quatro estados diferentes – São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Rio Grande do Sul – para entender como eles estão se preparando para a chegada dos bebês.

Triagem antes de subir para o quarto

Renato Sá, obstetra e Coordenador Geral do Centro de Diagnóstico da Perinatal, explica que o primeiro passo para a segurança das gestantes na maternidade do Rio de Janeiro é uma triagem para que os profissionais da saúde possam entender qual é o estado da grávida. 

“Estamos fazendo uma entrevista bem estruturada no momento que ela chega. Porque se uma mãe estava na quarentena direitinho, não teve contato com ninguém, ela precisa de um nível de proteção menor. Mas se ela não estava guardando a quarentena, ou teve contato com caso suspeito, ela precisará de um nível de proteção maior.”

Essa proteção a mais tanto para a gestante quanto para o acompanhante será o uso de máscara, além do cuidado para que profissionais da saúde tenham os equipamentos corretos em mãos para auxiliar essa família.

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O mesmo processo é seguido pelo hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, que é referência pela maternidade presente dentro da instituição.

“Todas as gestantes passam por uma triagem de exclusão, na emergência principal. Se ela tiver algum sintoma ou sinal gripal, ela é direcionada para o que chamamos de área Covid. Nesse local, ela tem um leito específico para grávida, que é um acomodação melhor com maca para ela poder deitar, e essa paciente é avaliada pelo médico que está na emergência e por outro do centro obstétrico”, esclarece Clarice Alves Fagundes, coordenadora dos serviços da materno infantil.

Já na Rede Mater Dei de Saúde, em Belo Horizonte, a separação de grávidas saudáveis e com possível suspeita de coronavírus acontece antes mesmo de uma primeira análise por profissionais da saúde. 

“Nós colocamos fluxos totalmente separados de pacientes gripadas e não gripadas. Isso significa que nós temos estruturas físicas e de pessoas diferentes. A equipe e os locais de atendimento das pacientes gripadas são diferentes das não gripadas”, pontua a médica Márcia Salvador, coordenadora da Ginecologia e Obstetrícia da rede.

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Em São Paulo, o Grupo Santa Joana também aposta na diferenciação de fluxos. “Nós temos sinalização e treinamos o pessoal das próprias recepções para, caso a paciente tenha algum tipo de sintoma sugestivo de Covid, ela seja direcionada para um área especial que vai ter um atendimento praticamente imediato. Além de receber uma máscara já nesse primeiro contato e depois passar para um atendimento em uma área especializada”, informa Lívio Dias, infectologista do grupo.

O especialista ainda explica que a maternidade também faz uma checagem anterior a chegada da gestante ao local nos casos de parto agendado. Isso significa que é feita uma ligação para saber se ela está com algum sintoma de síndrome gripal ou se o parto será conduzido como um caso normal.

Estruturas específicas para a hora do parto

Após a distinção das gestantes saudáveis para as que apresentam sinais gripais, a atenção redobrada para os casos suspeitos de coronavírus continuam no momento do parto.

Na maternidade Mãe de Deus, Clarice enfatiza que, caso seja necessário internar a gestante com suspeita de coronavírus por motivos obstétricos, ela será levada para uma sala específica para grávidas que precisam de recursos para o controle da doença. E o mesmo vale para a sala de parto estruturada especificamente para pacientes com Covid-19.

“Na sala, deixamos todo o equipamento indicado para o nosso profissional e a gestante também faz tudo ali. Tem o berço de urgência, para atender o bebê dentro da sala, porque nada sai dali. Tudo é feito no local. Se ela precisar de cesariana, também trabalhamos com sala de pressão de negativa, onde há um controle do ar que entra e sai para que não fique circulando no local”.

O Grupo Santa Joana segue a mesma linha de separação de salas, mas também enfatiza como outras atitudes precisam ser levadas em consideração para a proteção da saúde da gestante.

“Mais do que ter uma área física, temos um série de fluxos que estão preparados para poder receber uma gestante que possa ser suspeita ou caso confirmado. Esses fluxos têm a ver como o ar que está circulando na sala, equipamentos que as pessoas têm que usar, e restrição de pessoas na maternidade”.

Acompanhante também precisa de atenção

Junto com a atenção para o estado da grávida, a manutenção da saúde dela e do recém-nascido também depende de como está o acompanhante que estará ao lado deles o tempo todo.

A consciência disso tem feito as maternidades estenderem a triagem para essas pessoas, além de repensarem o fluxo dos acompanhantes.

Renato explica que, na Perinatal, é permitido apenas um companheiro independente da gestante ser saudável ou estar com suspeita da doença. E ele não poderá ficar entrando e saindo da maternidade.

Outro cuidado enfatizado pelo médico é que, a partir do momento que a família estiver no hospital, ela não fique circulando pelos corredores. O objetivo é ficar no quarto e sair apenas na alta.

Na maternidade Mãe de Deus, há também a preocupação de que seja apenas um acompanhante por gestante, especialmente para os casos de suspeita de Covid-19. Mas Clarice entende que, com a quarentena, algumas situações podem ser exceções, só que é apenas possível abri-las para grávidas saudáveis.

“Se eu entendo que esse pai tem um outro filho em casa, ou algum compromisso inadiável, ele pode fazer uma troca. Mas é preciso que ela mantenha-se até o final do período na maternidade.”

Em São Paulo, o Grupo Santa Joana também não proíbe o acompanhante independente do estado da gestante. Mas explica que, caso ela esteja com coronavírus, é recomendado que os cuidados de higienização e aparatos de proteção sejam redobrados se o companheiro decidir ficar no local.

Em Belo Horizonte, Márcia explica que gestantes saudáveis têm mais flexibilidade na rotatividade do acompanhante se necessário. Entretanto, para os casos confirmados, apenas uma pessoa está liberada e ela deve entrar e sair junto com a grávida.

Cuidados com o recém-nascido

Para as mães saudáveis, o alojamento conjunto, isto é, o bebê ser mantido por perto o tempo todo após o parto, continua a acontecer normalmente.

Só que, em casos suspeitos ou confirmados, puerpérias precisarão ficar distantes fisicamente dos filhos, ainda que dentro do quarto, na maior parte do tempo. Além de precisarem ter os cuidados de higiene redobrados.

“No caso das avaliações em que o bebê pode ficar no quarto, ou seja, a mãe tem o mínimo de controle desses sintomas, o primeiro cuidado é a distância entre o berço do bebê e a cama da mãe – que deve ser, no mínimo, um metro de distância. Nós também recomendamos o uso da máscara a maior parte do tempo, especialmente quando ela for prestar qualquer assistência ao recém-nascido, e a higiene das mãos”, explica Lívio.

O infectologista também enfatiza que os acompanhantes que não apresentam sintomas auxiliem o máximo que puderem a mãe – como nos atos de trocar fralda, dar banho e até mesmo embalar o bebê para acalmá-lo.

O mesmo distanciamento é defendido por Clarice. A especialista explica que, além de proteger o bebê, ele é uma forma de trazer segurança para a mãe de que, caso ela espirre ou algo parecido, o pequeno não será atingido.

Incentivo à amamentação

Ainda na maternidade, o aleitamento materno é incentivado pelos especialistas para que anticorpos possam ser repassados para o bebê por meio do leite.

Até o momento, estudos mostraram que a amamentação não é uma forma de transmissão do coronavírus. Entretanto, para ser realizada, é preciso de proximidade entre a mãe e o bebê e, por isso, os cuidados precisam ser redobrados em casos suspeitos ou confirmados.

Clarice explica que o primeiro passo é perguntar para a puerpéria se ela está confortável em dar de mamar. Caso ela responda que sim, será necessário fazer um processo de higienização.

“Além da mãe estar com máscara, ela vai sempre fazer a lavagem das mãos mais a das mamas, porque é uma pele muito próxima a região respiratória do bebê e pode estar contaminada com gotículas.”

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Para os casos suspeitos e confirmados, máscaras são obrigatórias durante a amamentação. Já para as gestantes saudáveis, maternidades ainda não estipularam como imprescindível a utilização. Entretanto, Renato defende que o utensílio deveria ser, pelo menos, sugerido à puerpéria e o uso ser uma decisão dela.

“Nós temos disponibilizado-as para as mães usá-las durante a amamentação, porque nós começamos ter preocupação com os portadores do vírus assintomáticos. Tem algumas publicações vindo de Nova York mostrando que até 10 a 15% das mulheres grávidas são portadoras assintomáticas, isso vem nos preocupando um pouco. Como não tem uma norma ainda e não podemos simplesmente impor isso, temos sugerido que as mães, aquelas que quiserem, usem máscara na hora de amamentar e de cuidar do bebê”, finaliza o médico.

 (Juliana Pereira/Bebê.com.br)

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