O que é privação do sono no puerpério e o que fazer para driblá-la

A chegada do bebê pode fazer das noites mal dormidas parte da rotina dos pais, principalmente nos primeiros meses. Mas há maneiras de amenizar o problema.

Por Ketlyn Araujo 3 set 2021, 19h34

Pergunte a uma mãe ou pai de recém-nascido quais são suas primeiras sensações sobre a rotina com um bebê: “cansaço, sinto falta de dormir” costuma ser a resposta para muitas famílias. Também chamada pela medicina de “sono insuficiente”, a privação do sono é identificada quando dormimos menos do que o necessário para manter nosso corpo e mente funcionando de maneira saudável. Com o passar do tempo, explica Rosana Cardoso Alves, neurologista e médica da Associação Brasileira do Sono, a pessoa que sofre com esta privação passa a apresentar alguns sintomas identificáveis, como sonolência excessiva durante o dia, alterações de comportamento, sensação de cansaço e fadiga, o que varia de acordo com as características individuais de cada um.

Isadora Bettarello, psicóloga e coordenadora de psicologia da Vibe Saúde diz que esta privação pode ocorrer tanto de forma pontual, como quando acordamos mais cedo para um compromisso ou dormimos mais tarde por algum motivo, quanto de forma crônica. Esta última está relacionada à diminuição da rotina de descanso, cujo ideal está entre 7 e 8 horas por noite, para menos de 6 horas, devido a fatores como altas demandas de trabalho ou, em muitos casos, o período do puerpério.

“No caso das puérperas a privação pode ocorrer por diversos motivos, mas o mais comum é a adaptação à chegada do novo membro da família, que tem uma rotina própria e demandas que, em muitas ocasiões, apenas a mãe poderá suprir, como a amamentação. Fatores externos, como ruídos no ambiente, exposição a luz e incômodos com o parceiro (a), como roncos, também podem atrapalhar”, fala a profissional.

Rosana complementa ao pontuar que essa mudança no ambiente e dinâmica da casa, naturalmente, causa a sensação de ansiedade nos pais, que estão mais preocupados com as necessidades do bebê e possíveis “perigos”, ainda que hipotéticos. Já a questão do sono do recém-nascido, também responsável por afetar as horas de descanso da família, tem a ver com o fato de ele ser polifásico. Ou seja: “Os ciclos do bebê são bem curtos, ele dorme entre uma hora e uma hora e meia e acorda para mamar, o que pode ocorrer entre 4 e 5 vezes durante a noite. A mulher que está amamentando obviamente também desperta, e fica com o sono muito interrompido – sendo que muitas vezes o parceiro ou parceira também acorda”.

Quais os sinais que o corpo dá quando precisa de repouso?

Como já citamos, a privação do descanso leva a um desgaste no organismo, o que prejudica a memória, a criatividade, a atenção e o funcionamento fisiológico do corpo. No período do puerpério, ainda, além da sonolência excessiva e irritabilidade, dificuldades de concentração, mudanças constantes de humor, desmotivação e até alterações metabólicas podem ocorrer, e são sinais que o corpo dá quando pede por repouso.

Quanto maior o tempo ao qual a pessoa está exposta à privação do sono e se não tratada, a longo prazo ela pode afetar gravemente a saúde mental, evoluindo assim para casos crônicos de ansiedade, depressão e outros transtornos psiquiátricos, explicam as especialistas.

mulher segurando bebê
Atipati Netiniyom / EyeEm/Getty Images
  • A rede de apoio é fundamental

    Para que mães e pais que estão passando pelo puerpério melhorem a qualidade do sono, algumas medidas práticas são fundamentais, e a principal delas é contar com uma rede de apoio bem articulada e organizada, seja entre o próprio casal, seja com auxílio de amigos e outros membros da família. Além disso, ter sempre em mãos o contato de uma equipe de saúde que acompanhou a gestante durante a gravidez e no pós-parto é igualmente relevante.

    “O que o casal costuma fazer e que ajuda muito é dividir igualmente as tarefas, ainda que a função da amamentação seja materna. A ajuda de familiares em algumas noites também pode amenizar o cansaço”, sugere Rosana. Contar com o suporte de quem possa auxiliar nas trocas de fraldas, banhos e outros cuidados também permite que a mãe descanse e tenha pequenos momentos de autocuidado.

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    A médica acrescenta, ainda, que alguns cochilos durante o dia, nesta fase, são inevitáveis, e mesmo que eles não sejam responsáveis pela reposição do sono noturno, são capazes de trazer maior descanso para a mãe. Adotar a rotina do bebê o mais precoce possível, fala ela, equilibrando as mamadas, a alimentação e o próprio cochilo, é outra dica de ouro.

  • Suporte médico e psicológico

    Após adaptar a rotina e recorrer a uma rede de apoio atuante na divisão de tarefas, a privação tende a ser amenizada. Porém, há casos em que é necessário que os pais busquem ajuda profissional.

    “Quando houver alteração de comportamento, muita sonolência e quando a pessoa perceber que isso está afetando o dia a dia dela ou do casal, deve acontecer a procura por auxílio profissional. Por exemplo, se uma mãe que já tem tendência à depressão puerperal começa a ficar muito privada de dormir, isso pode ser um agravante”, explica Rosana, que alerta, ainda, para episódios nos quais as mães e pais já sofrem de insônia mesmo antes da maternidade.

    Nesses casos, nos quais a chegada do bebê tende a piorar ainda mais quem é insone, orientações com médicos especializados no tema, além da implementação de técnicas como a terapia cognitivo comportamental, mindfulness e meditação são essenciais para que o puerpério não gere um descompasso generalizado.

    Por ser altamente idealizada e supervalorizada, diz Isadora, a maternidade faz com que acreditemos nas “supermulheres”, o que pode gerar o sentimento de culpa em algumas mães quando se sentem exaustas. Isso, complementa a psicóloga, não é nem um pouco saudável, e é importante que essa mãe se permita ser ajudada.

  • Respeitar e entender as fases de adaptação – da mãe e do bebê

    Por fim, e ao colocar em prática as medidas necessárias para driblar a privação do sono, é importante também que pais entendam que esta é uma fase da parentalidade – e, por isso mesmo, ela vai passar. O tempo no qual ela dura, porém, varia de acordo com cada bebê e cada família.

    “Algumas crianças se adaptam com facilidade à rotina, enquanto outras apresentam mais dificuldade. É natural que o bebê vá amadurecendo e tendo períodos mais extensos adormecido, e a mãe também tende a se adaptar e a criar estratégias que se encaixam na sua nova realidade. Porém, é necessário estar atenta aos sinais de exaustão e procurar ajuda, já que muitas vezes o ‘esperar passar’ também pode ser desgastante”, reforça Isadora.

    Os três primeiros meses, corrobora Rosana, costumam ser mesmo mais difíceis, pois o bebê acorda mais para mamar e a mãe tem de ficar mais atenta.

    “Geralmente, depois dos seis meses os bebês já têm um sono mais consolidado. Essa alteração do descanso dos pais, então, costuma passar naturalmente, porque à medida em que o sono do bebê vai se regulando, o da mãe também melhora”, finaliza a médica.

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