Solidão materna: 5 desafios enfrentados no puerpério por causa da pandemia

Especialistas explicam quais são os prejuízos que acometem as puérperas a partir do distanciamento social necessário por causa do coronavírus.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 7 Maio 2021, 10h16 - Publicado em 6 Maio 2021, 19h26

Preocupação constante, ir ou não ao exame do pré-natal, medo de ser contaminada pela covid-19… Estas são apenas algumas das aflições que atingem mulheres que estão experimentando a gravidez e o parto diante da pandemia do coronavírus. Só que as subidas e descidas emocionais não param com a chegada do filho. Ao tê-lo nos braços, acontece a abertura de uma porta para um intervalo que muito se fala, mas pouco se prepara a figura feminina para ele: o puerpério.

O processo de 45 dias após o nascimento do bebê é marcado por episódios desafiadores, como privação de sono, a jornada da amamentação e principalmente o reconhecimento da própria mulher como mãe. Não por acaso, a solidão costuma surgir, especialmente porque a mulher sente que ninguém consegue entender verdadeiramente o que está acontecendo com ela – nem ela mesma.

E se este cenário já é tão particular para cada mãe, nota-se que a pandemia tem transformado esta sensação de estar à parte do mundo em um fardo ainda mais difícil de ser carregado e sim: há motivos para isso.

Abaixo, com o auxílio de especialistas, listamos situações do puerpério que foram duramente potencializadas com o isolamento social e o que é possível fazer para amenizá-las.

  • 1. A ausência da rede de apoio presencial

    Se a desigualdade social e a romantização da maternidade – dando a entender que a mãe deve dar conta de tudo sozinha – já iniciavam a discussão sobre como a ausência de uma rede de apoio deixa mulheres à mercê da solidão, a covid-19 potencializou esse cenário em que não há mais escolha, já que o isolamento social é a medida mais efetiva para a proteção contra a doença.

    “Eu não duvido que uma mulher possa dar conta de um bebê sozinha, mas o custo disso é muito alto. Então, para que possamos cuidar do recém-nascido e também da mãe e da sua saúde mental, é preciso de uma aldeia e ela não precisa ser necessariamente presencial“, defende Maiumi Souza Ferreira, psicóloga perinatal.

    A especialista explica que o auxílio à puérpera pode ser físico, enviando uma comida ou algum item que tenha memória afetiva para esta mulher, questionando (JAMAIS julgando) como está a amamentação e até mesmo cogitando contribuir financeiramente com um processo terapêutico.

    Só que, para além do suporte material, a maior dificuldade enfrentada por mulheres que acabaram de dar à luz está relacionada a necessidade de uma escuta ativa, como lembra Patrícia Grinfeld, psicóloga e sócio-fundadora da Instituição Ninguém Cresce Sozinho.

    “Algumas famílias têm conseguido fazer isso via vídeo conferência. Mas está faltando essa presença que, muitas vezes, só de olhar para esta mulher reconhece o esgotamento e diz ‘deixa que agora eu faço para você!’. Isso não está podendo existir. E para além do cansaço, da sensação de que não está dando conta, o grande prejuízo disso é o não reconhecimento dessa mulher como mãe”, pontua Patrícia.

    Lembrando que, quem passou pela gravidez na pandemia, não foi vista, não teve marcos ou reconhecimento social da maternidade, fatores importantes para a internalização e amadurecimento desta mãe. E ao ter também um pós-parto isolada, Patrícia explica que psicologicamente instala-se dúvidas sobre a própria maternidade, com a mãe questionando se o que ela está fazendo é certo ou até mesmo o suficiente para o filho. Portanto, antes de decidir pela puérpera como você a ajudará, pare e escute o que ela tem a dizer.

  • 2. O desencontro do casal dentro da mesma casa 

    Após a saída da maternidade, muitos casais permanecem em isolamento apenas um com o outro e por tempo indeterminado, dado o cenário pandêmico que vivemos. Nesta jornada com o recém-nascido, Patrícia pontua que existem dois cenários: no primeiro, o vínculo entre os pais é fortalecido com a chegada do bebê, já no segundo, esta relação fica fragilizada. Tudo depende da disponibilidade emocional do parceiro ou parceira de entender que o puerpério não é apenas um momento de cuidado do pequeno, mas também da mãe.

    Além de suporte físico, como, por exemplo, tomar as rédeas do gerenciamento da casa, hidratar a mãe durante o aleitamento, sentar para escutá-la ou ajudar a relaxar da tensão do dia, esta nova mãe está sensível a subidas e descidas emocionais. E o motivo disso não são apenas os hormônios, mas a descoberta do que é ser mãe, processo carregado da migração entre os extremos, especialmente na pandemia.

    Terão momentos que a mulher se questionará sobre o vínculo com o próprio filho ou até de situações corriqueiras como o choro do bebê e a privação de sono, mesclando com a angústia de não poder pedir ajuda. Já em outros momentos, ela experimentará um amor tão forte que poderá levá-la a crer que não cabe mais ninguém dentro deste sentimento.

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    Nestes momentos, Patrícia explica que é normal pais e mães revisitarem lugares da própria infância e de como foram ensinados a lidar com demandas alheias mais urgentes do que as próprias. Isso influenciará em uma conexão mais rápida entre o casal e é preciso também realinhamento com a atual realidade.

    Caso o parceiro ou parceira não seja alguém disponível emocionalmente para dividir as questões mentais e sentimentais do puerpério, a psicóloga orienta mães a procurarem por grupos virtuais de mulheres que já viveram ou estão passando pela mesma situação, além de claro, suporte terapêutico. O conselho também vale para o próprio casal que, ao perceber os primeiros sinais de desencontros, pode recorrer ao auxílio profissional para manejar a situação.

    3. Dificuldade para identificar baby blues e depressão pós-parto

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    Arte: Bebê.com.br / Foto: Jelena Stanojkovic/Getty Images

    Ainda em relação a saúde mental da mulher que está dentro do puerpério, o isolamento social apenas com o parceiro ou parceira pode acabar dificultando a percepção dos sinais do baby blues e depressão pós-parto apresentados pela mãe.

    Como lembra a psiquiatra Denise Gobo, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), antes da pandemia já se sabia que 80% das mulheres apresentam sintomas de baby blues após o nascimento do bebê, enquanto que 25% desenvolvem um quadro de depressão pós-parto.

    Muitas vezes, os dois transtornos psicológicos demandam atenção de quem está ao redor da puérpera para serem evidenciados, portanto, a ausência da rede de apoio presencial também respalda na falta de busca por ajuda especializada para que a mulher receba o diagnóstico e tratamento corretos.

    4. A mudança de amizades em tempos tão incertos

    E se o próprio parceiro ou parceira pode apresentar algum tipo de resistência inconsciente neste período, a situação fica ainda mais delicada quando falamos dos amigos.

    “Amizades são fortalecidas por compartilhamento de interesses e, muitas vezes, é possível que exista um distanciamento quando estamos em momentos diferentes”, esclarece Maiumi. Isso significa que, em diferentes níveis emocionais e de conexão, a puérpera acaba passando por uma espécie de luto ao afastar-se de determinadas pessoas.

    “Ela se identificava com aquele grupo de amigos, trabalho, com a vida que tinha antes de bebê e, de repente, ela perde tudo isso ainda que temporariamente, o que também exige uma elaboração. E, normalmente, os processos de luto também são muito solitários”, detalha Patrícia.

    Essa situação acaba sendo contornada quando a mãe permite mergulhar na vulnerabilidade de entender o que mudou, o que permanece o mesmo e reconsidera seus laços afetivos. Há novos amigos a serem conhecidos, ainda que online neste primeiro momento, e tem aqueles que mesmo não estando dentro do mundo materno, buscarão sobre o assunto para que vocês tenham temas em comum para conversar e consigam ter trocas emocionais.

  • 5. Culpa, sempre ela! 

    Diante de tudo isso, fica clara a necessidade de mães recentes precisarem de auxílio tanto de quem está próximo quanto de quem está longe. Só que pedir ajuda não é um processo fácil e ele está ainda mais nebuloso quando pensamos que o suporte essencial pode acabar colocando a saúde do outro em risco.

    “Antes mesmo da pandemia, existe uma grande dificuldade de pedir ajuda. Isso porque a mulher tem assumido muitas tarefas ao mesmo tempo e se saído muito bem ao desempenhá-la. Diante disso, o ato de pedir ajuda acaba sendo associado com a ideia de que ela fracassou em algum ponto e à falsa ideia de que damos conta de tudo. Só que precisamos de uma rede porque não temos tudo para oferecer para um bebê ou a qualquer pessoa”, enfatiza Patrícia.

    Com esta consciência, é possível amenizar a culpa materna e ainda montar uma rede de apoio por meio de saídas inteligentes. Uma delas é recorrer a pessoas que não estão dentro do grupo de risco e mostram-se disponível a ajudar, outra maneira é os recentes pais fazerem isolamento com uma pessoa também disposta a manter-se em quarentena com a família e que está ali realmente para auxiliá-los nas tarefas, cuidados com o bebê e com a puérpera,

    Vale também o pedido de ajuda voltado ao emocional, ligando para alguém de confiança para dizer que não está se sentindo bem e, caso se sinta confortável, solicitar uma opinião sobre a situação. Entretanto, se o cenário começar a ficar mais pesado do que você consegue aguentar, não tenha vergonha em procurar por ajuda profissional. Está sendo possível realizá-la de maneira virtual e é um olhar carinhoso tanto para si quanto para a futura criação do seu filho.

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