Confessionário: “A depressão foi tão forte na covid, que pensei em morrer”

Sem renda e com o pai doente pelo coronavírus, esta mãe solo enfrentou uma depressão ao descobrir que também estava com covid-19.

Por Fernanda Tsuji 14 Maio 2021, 16h59

“A pandemia para mim chegou com uma voadora no peito logo no início”. É assim que Meire Kimura, 39 anos, começa seu relato destes longos meses que passamos a conviver com a covid-19. Com certeza, a invasão do vírus alterou a rotina de todo mundo, mas para algumas pessoas, ele transformou tudo. E foi o caso desta artesã e fotógrafa de Guarulhos, São Paulo.

Mãe de Clarice, de 3 anos, Meire viu seu pai ser infectado logo no começo da pandemia no Brasil, quando nem bem a quarentena tinha se instaurado. O quadro dele evoluiu rápido, ele foi entubado, passou um período na UTI e hoje continua lutando contra as consequências da doença em casa, reaprendendo todas as funções básicas. Ao mesmo tempo, Meire, recém-separada, tinha saído do emprego e estava no princípio de sua maternidade solo, morando sozinha com a filha.

Com a doença do pai, ela precisou voltar para o lar de sua mãe para ajudar nos cuidados e, foi justamente saindo para rua para tentar resolver as pendências burocráticas dele, que ela também se infectou com o coronavírus. A partir daí, mesmo lutando para manter a saúde mental, ela se viu diante de um abismo de incertezas e uma aflição pelo futuro da filha.

A seguir, Meire revela como depressão chegou e relata, de maneira honesta, como está sendo o longo processo de cura física e emocional. “Pensei em me matar. Chegava a implorar ‘não quero matar ninguém com a doença, por favor, me leva embora'”, conta ela, que, aos poucos, está recomeçando: voltou a empreender, planejar o futuro e reativar desejos. Com paciência consigo e amor de sobra para a filha.

Veja o relato na íntegra:

“A pandemia para mim chegou com uma voadora no peito logo no início. Me pegou logo no começo da minha maternidade solo, bem quando eu tinha saído do emprego e estava começando meu próprio negócio no ramo de lembrancinhas. Mas aí começaram a falar de isolamento, quarentena, então suspenderam festas, e com elas, as lembrancinhas. Meu negócio parou.

Nisso, meu pai pegou Covid logo no início. Parei tudo para me dedicar a cuidar dele e voltei pra casa dos meus pais com minha filha Clarice e minha cachorra. Apesar dele ter cuidados de home care, tive que vir para cá para administrar tudo, porque minha mãe também é idosa e não estava conseguindo lidar sozinha.

Foi um abalo psicológico terrível. Passei 2020 inteiro cuidando 60% do meu dia do meu pai, 40% da minha filha e 0% cuidando de mim. Então, imagina o meu desgaste mental, né? Literalmente eu não tinha tempo pra mim e isso foi se acumulando. Minha mãe não consegue mais cuidar da minha filha para eu fazer as outras coisas, então eu cuido dela praticamente sozinha e, por questões financeiras, ela ainda não está matriculada numa escolinha.”

  • De cuidadora a paciente

    “Eu lembro bem do momento em que cheguei no meu limite. Eu estava em isolamento, mas precisei correr atrás de questões burocráticas do meu pai, ir em UBS, Secretária da Saúde, enfim, e nisso, acabei apresentando sintomas de covid-19. Me deu medo, mas fiquei monitorando minha saturação, minha temperatura e comecei a ter sintomas terríveis. Achei que eu ia morrer, porque nunca senti dores tão extremas.

    Eu não queria sair para ir ao posto fazer teste, porque minha saturação estava boa e eu estava conseguindo respirar. As enfermeiras que cuidam do meu pai diziam que a fila de espera no pronto-atendimento estava muito longa e que, se eu não tivesse covid, com certeza, iria pegar.

    Então, eu me mantive em casa, fiz isolamento só eu e minha filha dentro do quarto. Não podia deixar ela sair, porque ela poderia infectar meus pais também (caso estivesse assintomática). E como não tinha ninguém pra cuidar da Clarice, e só temos um quarto, ela precisou ficar comigo 24 horas por dia, por isso, eu não tirava a máscara nem para dormir. Nesse período, eu literalmente só saia do quarto para ir ao quintal, que é um local aberto. Eu higienizava cada lugar que eu passava. Por 30 dias foi assim.”

  • A saúde mental em frangalhos

    “Foi aí que pegou psicológico. Eu achei que ia morrer, que ia infectar e matar a minha filha e transmitir para minha família, para as pessoas ao meu redor. O medo começou a me dominar e eu entrei em depressão. Pensei em me matar. Chegava a implorar ‘não quero matar ninguém, por favor, me leva embora’.

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    Entrei numa ‘bad’ terrível e, de uns anos pra cá, eu sempre fui uma pessoa que tentava manter a saúde mental com meditação, tomando cuidado com meus pensamentos e realizando práticas de bem estar. Isso, até então, me manteve sã. Mas nesse período, eu caí de um jeito que eu achei que não ia levantar mais.

    Mas quando pensava em me matar, eu olhava pra minha filha. E logo, percebia que era por ela que precisava ficar bem, que precisava me levantar e fazer o meu melhor. O pai dela não conversa muito comigo e também pegou covid, então não poderia deixar com ele.

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    Quem me conhece sabe que eu faço muitas atividades com ela, tem dias em que Clacla nem rela na TV, mas este foi o período que mais viu televisão na vida dela, porque eu não tinha força pra nada. Quando me sentia melhor, a gente lia livros e ela teve um bom desenvolvimento com as palavras e o alfabeto. Isso foi me dando cada vez mais ânimo, apesar do cansaço extremo. Todos os dias eu só pensava em dormir e acordar melhor para fazer algo pela minha filha.

    Foquei nesse pensamento, o tempo foi passando e fui melhorando fisicamente da doença. Me permiti ficar mal por algum tempo, me permiti passar por essa treva, porque percebi que era uma fase. A partir deste entendimento, voltei, aos poucos, a meditar e a fazer minhas práticas de bem estar, como acupuntura sem agulhas (TFT), por exemplo.”

  • Vida saindo aos poucos do caos

    “Agora estou colocando minha vida em ordem, retomando minha lojinha, voltei a produzir. Estou confiante que vai dar certo. O que mais me ajudaria é voltar a ter uma fonte de renda e colocar a Clarice na escola para conviver com crianças, já que ela é muito sociável. Com isso, eu teria um tempo pra mim, poderia trabalhar, me exercitar, me cuidar e conhecer pessoas.

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    Tento manter minha mente focada e todas as vezes que o desespero vem, eu recebo o momento, sinto, acolho e deixo passar, porque entendi que por mais difícil que seja, não é eterno. Eu olho para Clarisse, vejo o desenvolvimento dela, o sorrisinho e respiro: vai passar. Quero ter a minha vida de volta.”

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