“Como as redes sociais mudaram minha relação com a maternidade”

Confira o depoimento de Beatriz Zogaib, que resolveu se afastar das "obrigações" da internet para aproveitar mais a vida com os filhos.

Mãe do Léo e da Manu, Beatriz Zogaib tornou-se uma influenciadora digital através do blog Mãe da Cabeça aos Pés e, em meio a correria do dia a dia, percebeu que a sua relação com a maternidade estava sendo afetada negativamente pela presença constante na internet. Ao entender que aquela situação na fazia bem para a sua família, resolveu “dar um tempo” e, aqui, faz uma reflexão sobre o que é ser mãe em tempos de mídias digitais.

“Ok, é óbvio. Quem ainda tem dúvida sobre a influência da internet nas nossas vidas? Ainda mais sendo mãe? Quem nunca pesquisou no Google sobre parto ou amamentação? Quem ousa não ter buscado inspiração para a festa do filho no Pinterest, não curte páginas maternas no Facebook, ou não segue pelo menos uma mãe-influenciadora no Instagram? Ainda tem YouTube, blogs, snapchat, stories ‘mil’. Novos tempos. Mas, você já parou para pensar em todos os aspectos dessa nova realidade materna? Já excluiu todo e qualquer ‘filtro’ – não só da sua foto do dia – mas de dentro de você? Para responder para você mesma ‘que diabos tô fazendo com minha maternidade?’. Pois é, fiz isso e afirmo: o buraco é bem embaixo do nosso nariz!

Não, eu não sou contra o uso da web, muito menos de redes sociais. Veja bem, sou blogueira. Ou, pelo menos, era – até quando resolvi me dar um ano sabático do blog (e de todas as mídias sociais que ele impunha). Longe de mim deixar de usar todas, mas resolvi me desobrigar a… Sabe aquela foto do filho? Só publico se o meu eu interior disser que é mesmo importante PARA MIM. Sabe aquela dica que toda mãe adora dar para outra mãe? Penso duas vezes. E a mania de olhar a nova foto alheia (também conhecida como ‘grama do vizinho’) e fazer inevitáveis comparações com a nossa realidade? Bem, isso estava me fazendo mal. Me doía me colocar à prova a todo instante e me cobrar: por não ser ou estar assim ou assado, não fazer aquele brinquedinho educativo com minhas próprias mãos, por dar papinha de potinho…

Quando tive meu primeiro filho, há 8 anos, não tinha tutoriais para tudo nessa vida de mãe, ou pedras atiradas via ‘enter‘. Você era o que era, trocava ideias com as amigas por mensagens e lia um ou outro blog. Comentar em blog, aliás, era como falar com a vizinha e não com uma celebridade. A gente se abraçava mais, ainda que virtualmente. Velhos tempos! A gente já se enchia de informação, óbvio! Mas era muito menos exaustivo ler sobre livre demanda do que é defender o mesmo assunto hoje. Parto normal era ideal, não ativismo. Sei lá. Posso estar sendo nostálgica, tipo a minha mãe falando do tempo dela? Posso. Mas fato é que, tendo minha caçula dois anos atrás, senti a diferença. Em menos de uma década!

#TBT 😍 Porque a gente tem motivos pra ser muito feliz! Todos nós. Amém! #bomdia #family #amormaiordouniverso

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Conta o fato de ter me tornado influenciadora digital – o que me coloca no olho do furação. Era jornalista, decidi ser mãe em tempo integral por 3 anos e, nesse meio de caminho, me tornei mãe e produtora de conteúdo especializada no universo materno. Era uma delícia, perfeito! E era para eu ser a pessoa menos óbvia a falar mal desse assunto! Só que estou aqui pra dividir algo que não é (e nunca será) exclusivo a mim, mas é e será para todas as mães dessa geração para frente: nós estamos perdendo a mão nas (e com as) redes sociais!

Ao mesmo tempo que nos munimos de informações importantes ao alcance de um clique e nos empoderamos mais e mais diante de uma sociedade pouco empática com a mulher-maravilha-que-tentamos-ser, estamos nos distanciando do nosso instinto mais primitivo, o materno. Em alguns instantes, paramos de ouvir o que nossos bebês querem nos dizer, para ler o que o especialista do momento quer dizer sobre eles. E junto com um tantão de carinho de mães e pais a quilômetros de nós, veio um tantão de cobranças de pessoas que nada têm a ver com a nossa vida! E pior? Não precisa ser nada direcionado a nós, basta ler um post de alguém, com comentários de outro alguém, e o estrago tá feito bem na sua cabecinha! Andamos ‘esquecendo’ de exercer a famosa empatia – e com a gente mesmo! E a corujisse de mãe vive numa corda bamba, prestes a cair numa necessidade de aprovação constante.

Eu chamaria essa a era das mães ‘menos mães’! Não que sejamos menos! Mas é assim que cada conhecida se sente, que cada leitora do blog se sente, que cada amiga blogueira se esforça para não se sentir. É assim que eu me sentia! Isso porque a gente faz parte de uma geração que abraçou um universo de afazeres e ainda é e sempre será ótima mãe! A gente se preocupa com isso, de verdade. Só que se afunda em cobranças que se multiplicam a 4G.

Ter a Manu nesse caos de informação e interação em redes sociais me fez sentir o impacto. Não ter parado de trabalhar, e ainda trabalhar com tudo isso, me fez sentir em maior escala. Ou talvez de forma mais nítida? Minha maternidade teve influência muito positiva das redes sociais, no sentido de ter informação, companhia, colo, distração. Mas me cobrei bem mais e até me policiei demais, além de ter perdido tempo. Na real? Não tive como fazer só comidinha 100% saudável e ela comia feijão da marmita, mas isso foi menos prejudicial do que as horas que passei amamentando teclando no celular! Independentemente da minha profissão, eu era fisgada por um ou outro post, por uma foto, ou uma matéria interessante compartilhada. Eu ‘tinha que’ trabalhar, responder e-mail, mensagens, sinais de fumaça… A hora que fosse.

Foi assim, me sentindo exaurida por demandas reais e virtuais, engolida por um mundo tão moderno quanto opressor, que me dei conta de como estava me perdendo num universo cada vez mais cruel com as mulheres (e por vezes com homens) que têm filhos. A gente não faz mais só a comida enquanto empurra o carrinho com o pé. A gente amamenta e olha o celular! E você não imagina (ou imagina sim!) como me sinto culpada por isso. Logo eu, que nunca fui viciada nisso. Logo eu, que sempre protegi a privacidade dos meus filhos nas redes. Logo eu, que vivia de sling só pra ter mais tempo grudada com minha choroninha.

Eu, você, qualquer uma pode cair nessa. A questão é perceber e voltar o foco. A tempo. E sempre é tempo, embora quanto antes melhor! Como percebi, afinal? Me vendo mais no smatphone do que na vida real em momentos únicos, que não voltam mais. Virando a neurótica das mil e uma dicas sobre tudo e mais um pouco sobre filhos. Me sentindo a louca por ter uma filha que demandava demais, afinal, “por que ela chora tanto?”. Me obrigava a ter TODAS as respostas, já que todo mundo tem (além de palpites) uma dica que leu num site X. As pessoas também passaram a não saber como me ajudar por acharem que eu sabia muito.

Como mudei? Como consumidora de redes sociais, reduzi minhas ‘ídolas’ a metade! E ainda assim, escolho quem quero ver em cada momento – e se quero. Não vivo na fantasia de estar linda a todo instante, e – principalmente – de publicar isso! Veja bem, nem todo mundo precisa fazer pose de blogueira, ainda que seja uma. A vida real é mais legal, acredite. Parei com leituras sobre todo e qualquer tópico referente a filhos – filtrando o que leio, de acordo com a credibilidade do veículo que publicou. Tem tanta asneira por aí, né? Além de desgraça, meu Deus! Como influenciadora digital, vim mais para o lado de cá, das mães que me leem, para voltar a ser apenas uma mãe comum, que erra e acerta. E está tudo bem! Dicas, toda mãe pode dar, mas mostrar a fragilidade, quem? Somos reais!

Aliás, essa é uma coisa muito boa das redes sociais. A gente pode se sentir extremamente acolhida, menos sozinha, compreendida. Dar colo para outras mães, receber o colo… Ah, como é bom! Lembro de conversar com amigas via whatsApp de madrugada e não me culpo por isso. A gente se dava APOIO, sabe? Mas, assim como as mensagens delas me confortavam, olhar a janela e ver luzes acesas na cidade também. Mães estão em toda parte. Críticas e amor idem. A questão é escolher suas batalhas, se envolver com o que te faz bem e ter a medida do bom senso. Está perdendo a mão? Pega de volta!

Olhando aquelas luzes na escuridão, na janela da minha casa e não numa aba de internet, eu sabia que o meu lugar era bem ali, ninando a minha pequena, sendo a melhor mãe que eu poderia ser. Errando, acertando, perdendo a paciência, recuperando o fôlego, chorando junto. E deixando mensagens para depois. Sendo uma mãe real. É o que todas nós podemos e precisamos fazer. Assim, somos mais fortes! Juntas? Ainda mais! Empoderadas e abraçadas, melhor ainda. Se for assim, o virtual faz bem para o real. Do contrário, liga o botão do off.

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