Por que as crianças gostam tanto de repetição?

Saber todas as falas do filme e escolher sempre o mesmo lugar da mesa para se sentar têm um motivo. Entenda por que os pequenos gostam tanto de repetir.

Por Carla Leonardi 12 Maio 2022, 16h15

Você já perdeu as contas de quantas vezes sua criança assistiu ao mesmo desenho? Já sabe a história do livrinho de todas as noites de trás para frente? Não aguenta ouvir a mesma música que seu filho aprendeu na escola e nunca mais parou de cantar? Ouve reclamação se escolhe outra cadeira na mesa para se sentar? Se a resposta foi “sim” para todas as perguntas, saiba que isso não acontece só na sua casa. Crianças gostam de recorrências – de assistir ao mesmo filme dezenas de vezes, de manter os mesmos hábitos, de fazer as mesmas brincadeiras. Mas nada disso é à toa, já que a repetição é parte do desenvolvimento intelectual e emocional dos pequenos.

“A repetição, que ocorre principalmente nos primeiros anos de vida, traz à criança uma sensação de segurança, além de um estado confortável e seguro”, explica a psicóloga e psicopedagoga Katherine Vicentim. Ao fazer atividades que já conhece e que vai aperfeiçoando à medida que as repete, ela se sente mais segura, pois sabe como funcionam e como fazê-las da melhor forma.

Não é por acaso que a rotina é tão importante nos primeiros anos da infância, já que a previsibilidade não só diminui a angústia de não saber o que está por vir, como ainda traz conforto aos pequenos. Ao saber o que vai acontecer em seguida, e que acontecerá de forma parecida todos os dias, a criança tende a se sentir mais confiante e confortável.

Além disso, a repetição ajuda a desenvolver a autonomia, já que as ações, por serem feitas tantas vezes, vão ficando cada vez mais fáceis. “A criança vai aprendendo e tendo a sensação de escolha, de que escolheu algo porque já se apropriou daquilo. Ela sabe fazer e sente prazer em saber”, destaca a especialista.

É repetindo que se aprende

Mãos infantis brincando com massinhas coloridas.
Julietta Watson/Unsplash

A repetição, portanto, é ponto central no desenvolvimento intelectual da criança, pois, como explica Katherine, “ela estimula a aprendizagem e alimenta os detalhes do que se está aprendendo”. Quanto mais ouve a mesma história, por exemplo, mais atenta aos pormenores a criança fica.  

É interessante lembrar que os primeiros anos de vida são o período de maior desenvolvimento cerebral. “De zero a 3 anos, acontece um boom e a criança desenvolve cerca de 80% do cérebro, formando as conexões neurais conforme as experiências que ela tem. E como a formação da memória é a base da aprendizagem – a gente aprende repetindo – a criança fortalece esse processo dessa forma”, explica a neuropsicóloga Luciana Garcia de Lima. 

Segundo a especialista, para dar conta de todo o conteúdo com que se tem contato – por exemplo, ao assistir uma animação – a criança tem a necessidade de repetir muitas vezes. “Cada vez que assiste de novo, ela consolida as informações que já obteve e, ao mesmo tempo, vai percebendo novas características, como aspectos do cenário, falas novas, entre outras coisas”, complementa Luciana.

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Além disso, a neuropsicóloga lembra que, além dessas questões cognitivas , há um aspecto psicológico, já que ao elaborar essas histórias da ficção, a criança vai elaborando sua própria vivência.

Repetir é importante, mas o novo também é essencial

Com cada vez mais informações, é natural que pais e cuidadores se atentem a alguns sinais que podem acender um sinal de alerta. Por isso, observar as repetições dos filhos às vezes pode trazer uma pulga atrás da orelha, já que certos distúrbios do desenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista, são caracterizados por certa rigidez em relação aos hábitos.

“Essa preocupação, porém, deve existir quando a criança realmente não dá a possibilidade de ter novas experiências, porque toda essa repetição é importante para o desenvolvimento, mas, ao mesmo tempo, é preciso fazer novas conexões, que se dão a partir de novas experiências. As duas coisas importam”, alerta Luciana.

Crianças brincando no jardim
lisegagne/Getty Images

Por isso, proporcionar novas vivências aos pequenos é essencial. É dessa forma que eles também conseguem, por exemplo, aceitar imprevistos e se adaptar mais facilmente ao meio. “Precisamos ir trabalhando a flexibilidade da criança, ver o que ela já gosta de fazer e variar. Por exemplo, se ela gosta de carrinho, é possível introduzir uma pista nova, brincar com ele na terra, deslizar no corpo da criança como se ele fosse a estrada… Aproveitar os interesses que ela já tem para abrir o leque. Quanto mais variação, mais oportunidade de desenvolvimento”, acrescenta a especialista.

Portanto, como na maior parte das vezes, a palavra-chave é equilíbrio. Ainda assim, talvez você precise se conformar com a Família Madrigal ou com as irmãs Elza e Ana tomando conta da programação familiar diariamente – ou, ao menos, até o próximo lançamento da Disney.

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