O que é ataque de fúria infantil? Veja como lidar com a raiva da criança

A manifestação até lembra um episódio de birra, mas não é a mesma coisa! Especialistas indicam o que fazer durante e após as "explosões" do pequeno.

Por Flávia Antunes Atualizado em 18 mar 2022, 18h25 - Publicado em 19 mar 2022, 10h00

É um sábado de manhã e vocês decidem descer até o playground do prédio para o pequeno brincar. Ele logo se enturma com outras crianças e está tudo calmo, até que acontece algum desentendimento durante a brincadeira e seu filho começa a gritar, chorar e atirar objetos para todos os lados.

Comportamentos agressivos como esses são comuns quando os ataques de raiva tomam conta da criança, mas nem sempre os pais sabem identificar o motivo da crise e como agir perante ela, para acalmar o pequeno e para que ele não carregue essas emoções indesejadas por mais tempo.

“Devo tentar distrai-lo? Afastá-lo da turminha?”. Antes de tudo, vale entender o que diferencia esses picos de fúria de outras reações que já conhecemos.

Ataque de raiva é a mesma coisa que birra?

Deitar no chão, espernear, berrar… Observando o comportamento do filho de longe, a família pode até pensar que não passa de birra, mas especialistas concordam que as manifestações não são idênticas.

Podemos pensar na birra como sendo um movimento que faz parte do desenvolvimento da criança, na fase em que está assimilando as regras e leis da cultura e quando acontecimentos externos começam a regular o que ela internamente pode ou não fazer”, explica Raul Spitz, psicanalista e consultor do Laboratório Inteligência de Vida.

Por exemplo, se a criança quer continuar assistindo à televisão, mas está na hora do banho, a birra pode aparecer. Aos poucos, porém, o pequeno vai entendendo que existe uma ordem a ser respeitada e que não pode realizar todos os seus desejos. “A birra é bem vista em alguns momentos, porque a criança está entrando em contato com suas vontades, diferenciando-se dos pais. São crises naturais e saudáveis”, complementa o psicanalista.

Por outro lado, os ataques de fúria não precisam ser associados necessariamente a um entendimento de regras. Pode estar ligado a emoções intensas com as quais a criança está começando a entrar em contato, como o medo, o pavor, o ciúmes excessivo. “São sensações incontroláveis, que não consegue racionalizar e precisa colocar para fora de forma reativa esses conteúdos que não entende”, pontua Raul.

O que fazer quando a “explosão” acontece

menina chorando
gahsoon/Getty Images

O primeiro ímpeto dos pais na hora do ataque de raiva pode ser de dizer o que é certo e errado para o filho, na tentativa de fazê-lo se acalmar. Porém, como esclarece Adriana Severine, psicóloga especialista em terapia cognitiva comportamental, nem sempre essa atitude é efetiva.

“Na hora da crise de raiva, os pais não devem conversar nem discutir, porque a criança está impermeável a qualquer palavra que é dita a ela”, orienta. Sua dica é que os cuidadores deem tempo para o pequeno se acalmar e para sentir o que não está conseguindo expressar.

Nos casos em que a criança manifesta comportamentos agressivos com os outros – podendo colocar em risco pessoas que estão por perto – algumas medidas mais concretas devem ser tomadas.

“Pais e cuidadores precisam estar preparados, prontos para acolher o filho e por vezes construir um espaço para contê-lo”, indica Raul. O ponto chave aqui é afastar o pequeno das outras crianças, mas sem isolá-lo. “Recomendo que os responsáveis fiquem junto em algum ambiente em que possam passar um tempo, para que a criança acalme os ânimos”, acrescenta.

Neste momento, não existem regras a serem faladas, mas é importante que o adulto partilhe deste momento, servindo como companhia para o filho, seja propondo alguma atividade ou ficando em silêncio. Outra dica valiosa é evitar responder da mesma forma que o pequeno – tendo em vista que ele pode dizer palavras feias ou até tentar bater nos pais. 

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No fim, é interessante que a criança veja que seu cuidador pôde suportar a crise e manteve-se firme diante dela. “Isso porque, como os ataques de fúria não são racionais, existe uma fantasia do pequeno de querer destruir o que está em sua volta, e ele precisa entender que o adulto conseguiu enfrentar essa fantasia de destruição”, afirma o psicanalista.

Depois da tempestade…

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Catherine Falls Commercial/Getty Images

Quando a poeira abaixar, aí sim o diálogo pode surgir. O ideal é que a família se reúna e converse sobre o que cada um sentiu no momento do ataque de fúria, buscando entender o que deixou o pequeno tão raivoso e também como os pais receberam aquela reação.

“A criança vai poder escutar, falar e muitas vezes se sentir culpada pelo que aconteceu – a culpa e a vergonha são sentimentos absolutamente saudáveis no desenvolvimento. Os pais devem não criminalizar as crianças e nem protegê-las do sentimento”, explica Raul.

Ou seja, deixar claro que o pequeno foi responsável pela situação, mas que pode fazer diferente das próximas vezes e construir novas soluções. 

A fúria pode ser algo mais grave?

Na maioria dos casos, os ataques de raiva não passam de reações comuns entre as crianças pequenas. Em algumas situações, porém, o comportamento merece uma atenção extra para verificar se não se trata de alguma condição mais séria.

“Existe, por exemplo, o Transtorno Opositor Desafiador (TOD), que costuma surgir a partir dos três ou quatro anos,” lembra Adriana. Ele se caracteriza por reações emocionais extremamente exageradas, em que a criança chega a quebrar objetos da casa, fazer chantagem emocional e demonstrar reações desafiadoras perante à família e na escola, por exemplo.

“A criança com TOD não consegue elaborar bem situações em que é contrariada e o quadro não se modifica com o tempo (sem intervenção), como ocorre com a birra – pelo contrário, tende a piorar com o tempo”, acrescenta.

De maneira parecida, há também o Transtorno Explosivo Intermitente (TEI), quando o pequeno manifesta comportamentos agressivos e ataques de fúria desproporcionais e com bastante frequência. “Este transtorno, por outro lado, é bem mais comum em adolescentes e adultos”, esclarece Adriana.

Apesar das várias possibilidades de classificação, a psicóloga infantil e neuropsicopedagogia Deise Moraes alerta para que a família não se desespere ou tente fechar um diagnóstico por conta própria. “Não é qualquer pessoa que consegue avaliar esses tipos de comportamento, nem os pais são capazes de dizer se é apenas uma birra ou um transtorno”, diz.

Caso o comportamento do filho esteja gerando sofrimento para ele e atrapalhando a dinâmica familiar, Deise indica que os pais busquem uma profissional da psicologia, que será capaz de auxiliá-los e direcioná-los ao melhor caminho para lidar com as questões da criança.

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