Estes pais contam sobre como ter filhas os fizeram repensar padrões

Dois pais revelam seus anseios de um futuro mais gentil para as filhas e reconhecem a responsabilidade de criar uma menina nos dias de hoje.

Por Ketlyn Araujo Atualizado em 6 ago 2021, 17h32 - Publicado em 8 ago 2021, 10h00

Entre os desafios de uma educação parental positiva, mais igualitária e menos opressiva está um trabalho diário para criar meninos que respeitem as mulheres e meninas que saibam desenvolver o amor próprio. Por mais que estas questões centrais possam surgir antes, é natural que muitos pais e mães só percebam a necessidade disso na prática, a partir do momento em que a chegada da criança se torna realidade.

Quando falamos especificamente sobre paternidade, a virada dessa ‘chave’ geralmente é ainda mais evidente. Isso porque, ao se tornarem pais, muitos homens precisam rever e repensar antigos padrões pré-estabelecidos – seja pela sociedade, seja dentro de casa-, caso desejem e estejam dispostos a lutar por um futuro mais gentil para seus filhos.

Neste Dia dos Pais, trazemos dois relatos sensíveis de diferentes homens que são pais de meninas. A seguir, eles falam sobre as mudanças provocadas pela paternidade, e dividem seus desejos de felicidade – e mudança na sociedade – para o futuro das filhas.

Fernando Tenorio Barros, 43 anos, empresário e pai da Gabriela, de 2 anos e 6 meses:

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“Tinha vontade de ser pai, de viver esse amor, mas não era algo que considerava um sonho. Na verdade, antes de realmente acontecer, achava que não aconteceria, por conta do meu estilo de vida e fase pela qual estava passando.

A Gabi não foi planejada, mas a paternidade mudou a minha vida em muitos sentidos. Eu e a Marcela [mãe da Gabriela] passamos praticamente todo o período de gestação viajando de carro pela América do Sul, e isso fez com que eu pudesse vivenciar a gravidez dela em tempo integral, acompanhando todas as mudanças e desafios ao longo dos nove meses. Desde o início, então, posso dizer que me conectei demais com o fato de que seria pai.

Quando a Gabi nasceu, percebi que o que eu queria – e deveria – fazer era dar a ela a minha presença, e permitir que ela tivesse mais contato com a natureza. Foi então que eu decidi mudar: saí completamente de uma vida de trabalho como executivo, e me joguei em busca de novos caminhos que me permitissem viver dessa forma com a minha família.

Amo ser pai de uma menina, aprendo muito todos os dias. Acho que você se conecta muito mais com o ‘feminino’, e com certeza isso me faz ser mais livre para expressar as minhas emoções, como as mulheres tendem a ser.

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Acho que a parte mais difícil da paternidade é a necessidade de dedicação full time, a grande demanda de tempo de qualidade que criar um filho requer. Com isso vem o preço de sobrar pouco tempo para você e para o casal, mas eu tento lidar vendo o copo meio cheio, e não meio vazio. Tudo o que ganho de maravilhoso com a experiência de ser pai compensa aquilo que deixo de viver.

Já as melhores partes são muitas, desde as mais sutis às mais profundas, é uma lista sem fim: receber um abraço cheio de amor da minha filha, um sorriso puro, perceber que ela é uma misturinha nossa, acompanhá-la devorando o mundo, aprendendo e vivendo coisas simples pela primeira vez, sentir que ela se emociona quando está com saudades, aproveitar os momentos nos quais ela dorme no meu peito, escutá-la me chamando de ‘papai’… No dia a dia, minha filha me ensina a ser mais leve com a vida.

Eu sonho com um futuro menos desigual, no qual o sucesso não seja apenas uma métrica financeira, que governos e empresas estejam comprometidos verdadeiramente em contribuir para preservar a natureza e melhorar a vida das pessoas. Com relação à minha filha, portanto, eu primeiramente tento dar o exemplo, na intenção de diversificar ao máximo as experiências que ela vive.

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Espero ensinar a Gabi a ser livre, a respeitar e entender as diferenças. Quero contribuir para que ela questione, seja curiosa, busque se conhecer sempre e tome suas decisões com consciência. Meu papel como pai é também de ampliar a noção de mundo, padrões e culturas da minha filha”.

  • Jadilson Lima Júnior, 33 anos, gerente de manutenção, fotógrafo e pai da Lavínia, de 1 mês e 11 dias:

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    “Eu amo crianças, sempre quis ser pai, mas não planejava a paternidade por agora. Após um mês do falecimento da minha querida sogra, no ano passado, porém, recebemos a notícia de que estávamos ‘grávidos’. A princípio, por ser algo não planejado, fiquei um pouco assustado, mas no dia seguinte acordei saltitando de alegria, já ouvindo músicas infantis.

    ‘Agora a coisa ficou séria, tenho que trabalhar mais’, foi a primeira coisa que pensei quando recebi a notícia de que seria pai (risos). Mas a ficha não caiu até o nascimento da minha filha, mais especificamente quando escutei o primeiro choro da bebê – lindo, por sinal. Foi uma sensação indescritível, a mais maravilhosa que já senti na vida, como se por um instante todos os meus problemas deixassem de existir, porque ali estava a minha verdadeira felicidade. Fiquei com vontade de chorar, de abraçá-la, de beijá-la.

    Me tornar pai da Lavínia despertou em mim um lado muito mais carinhoso. Antes dela eu me considerava uma pessoa menos sensível, e agora me vejo conversando com ela até na hora de trocar uma fralda, com os olhos brilhando diante de tanta perfeição. Digo que, com ela, aprendo a ser mais cuidadoso, mais responsável.

    Já passei por momentos nos quais não entendia o tamanho da responsabilidade que é ser pai, do quão complexa é essa mistura de sentimentos e preocupações decorrentes da paternidade. Eu tenho um emprego estressante, que gera muita cobrança e que, em decorrência da pandemia, me deixou muito mais sobrecarregado: sou gestor de dois setores que funcionam 24 horas por dia e com todas as demandas anteriores à pandemia, embora metade dos colaboradores tenha sido demitida.

    A parte mais difícil, para mim, é conciliar meus horários para estar sempre em casa, já que o serviço ainda faz com que eu, constantemente, chegue mais tarde. Ainda estou aprendendo a mudar essa rotina que vivo há anos, mas hoje já consigo abrir mão de muito mais coisas e estar adiantado em vários momentos. Ao entrar em casa e ver a Lavínia, porém, é como se todo o peso do trabalho ficasse da porta para fora, é simplesmente delicioso.

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    Me tornei pai de uma menina, e por isso quero e pretendo dar o meu máximo para que ela seja feliz, possa fazer o que tiver vontade e prove que é capaz de qualquer coisa. Eu gosto muito de praticar esportes, por exemplo, e vou incentivar a minha filha para que ela possa se enxergar em qualquer lugar ou espaço. Seja praticando alguma atividade ou se divertindo de outras formas, quero me doar para que ela tenha todos os direitos que uma mulher deve ter. Sempre admirei mulheres que são apaixonadas por elas mesmas, e desejo isso para a minha filha, que ela seja fantástica.

    Quero contribuir para que a minha filha seja gentil, educada, que não trate ninguém com diferença. Os locais que frequento estão repletos de pessoas com as mais diferentes aparências e estilos de vida, e espero incluir a Lavínia na minha rotina, para que ela tenha contato com a diversidade.

    Com acesso à educação, a meu ver, a criança tem uma visão maior sobre a quantidade de coisas que pode fazer com prazer e felicidade. Falo isso porque meu pai sempre me incentivou a praticar esportes, ir para sítios, acampar e estar em meio à natureza, e todas as pessoas que conheci que fazem o mesmo são muito fáceis de conviver. Crianças que não têm a chance de contato com as possibilidades que o mundo proporciona, na minha opinião, tomam caminhos infelizes.

    Pegar a bebê no colo e dar um ‘cheirinho’ nela é o melhor dessa jornada. Ela é muito novinha e ainda não retribui os sorrisos, mas só de estar na presença dela eu já me sinto em paz. As pessoas me perguntam se eu sou um ‘pai babão’… vocês têm alguma dúvida de que sim? Graças à minha filha sou o homem mais feliz do mundo”.

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