Família

Luto materno: mães relatam como enfrentaram a perda de um bebê

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por Ketlyn Araujo
11 jun 2021
17h54

Três mulheres abrem o coração e falam sobre as dores de perder um filho logo após o nascimento – mas também sobre a gratidão de poder dizer que eles são parte da família.

No fim do mês passado o humorista Whindersson Nunes anunciou que seu filho com a estudante de engenharia Maria Lina, João Miguel, havia falecido após um nascimento prematuro, quando o bebê estava com apenas 22 semanas de vida. A notícia fez com que a mídia voltasse os olhos para um tema tão delicado quanto recorrente: o luto no pós-parto.

Apesar de tabu para parte da sociedade, a morte de um filho logo após o nascimento não deve ser ignorada, mas compartilhada numa tentativa de acolher quem está passando por uma situação similar. Assim como ocorre na perda gestacional (que acontece ainda durante a gravidez), o que muitas famílias desejam ao enfrentarem o falecimento de um bebê que chegou a nascer ou a viver por um tempo, é serem ouvidas, além de encontrarem suporte emocional.

Aqui trazemos depoimentos de três mulheres que passaram pelo luto neonatal e encontraram, cada uma a seu tempo e maneira, motivos para continuar. E, mais ainda, celebrar sempre que possível a existência, ainda que breve, de seus filhos.

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"Uma coisa que me ajuda muito é honrar a existência da Clara, falar dela com naturalidade. Ela faz parte da minha história, ela está aqui dentro do meu coração, e isso me ajuda a seguir"

Carolina Antonio da Silva, 41, engenheira de produção.

“Eu sofri o luto na minha primeira gestação. Tinha casado havia dois anos, meu relógio biológico estava ‘apitando’, eu tinha uma carreira consolidada e planejei engravidar. Foi uma gestação tranquila, sem intercorrências e acompanhada por médicos de confiança: estava tudo normal e os planos estavam se concretizando.

Até que, na hora do parto, minha filha faleceu, logo após o nascimento. O dia mais importante da minha vida se tornou meu maior pesadelo. Eu entrei na maternidade feliz, ansiosa, esperançosa, e saí sem chão, de braços e de ventre vazios.

Tive um parto normal, e eu cheguei a pegá-la no colo, achando que ela estivesse viva, mas logo depois a pediatra a tomou dos meus braços. Eu não escutei o choro, fiquei em choque, não conseguia nem olhar para a minha filha: perguntei para a anestesista que estava do meu lado se estava tudo bem, vi uma movimentação de médicos e enfermeiros, meu marido angustiado… foi um baque.

Algum tempo depois a minha médica e a pediatra me falaram que a Clara não tinha sobrevivido. Sem explicação. Foi muito traumático, porque eu não esperava – ninguém esperava, nem a médica. Foi uma gravidez muito bem acompanhada, fiz todos os exames, tive a Clara em uma clínica conceituada do Rio de Janeiro, mas aconteceu. E me mostrou que a gente não tem controle de nada do que importa nessa vida.

Eu fiquei em choque e a minha reação foi ficar calada. Os meses se passaram, foi tudo muito complicado. A sociedade não sabe lidar com o luto de ninguém, e quando é uma perda assim as pessoas tendem a achar que você vai ter outro filho logo – e elas falam isso para você: ‘Deus não dá um fardo maior do que você pode carregar’, ‘você é muito nova, você vai ter outro filho’, ‘que bom que ela foi cedo, não deu tempo de você criar um vínculo’… Como não? Eu passei nove meses criando esse vínculo, esperando por ela. Eu não queria outro filho, eu queria a Clara, eu fiz vários planos pensando nela.

O problema não está apenas nessas pessoas, mas também na equipe médica. No meu caso, após eu ficar paralisada, em nenhum momento me perguntaram se eu queria me despedir da minha filha, se queria guardar alguma coisa dela. Durante anos eu me senti culpada por não ter conseguido olhar para ela no momento em que os médicos estavam tentando reanimá-la, por não ter tido essa coragem na hora.

Foi só depois de anos que eu entendi que eu estava em choque, que essa é uma situação muito traumática. Não foi porque eu estava com medo, porque eu não a amava, eu não olhei para ela porque eu precisava de um tempo para digerir essa situação, eu precisava de alguém que me ouvisse e ficasse do meu lado.

Sinto muita falta de ter uma recordação da minha filha, de ter tido essa chance de me despedir dela. Eu queria que a equipe médica tivesse mais preparada para momentos como esse, que dessem esse suporte para mães que estão passando por isso. Uma coisa que não aconteceu comigo, mas que já ouvi relatos, é que às vezes a mãe passa por uma perda e fica ao lado de mulheres que acabaram de parir. No meu caso, eu fui colocada em uma ala de cirurgias eletivas, então eu não vi balões, bebês, não ouvi choro de criança. Mas muitas mães não têm nem isso.

Eu fazia terapia antes de engravidar, mas na época, tinha tido alta. Depois da Clara, porém, senti muita necessidade de falar com alguém – no primeiro mês todo mundo quer falar sobre o assunto, dar opinião, te visitar… Mas depois de um tempo, quando eu queria falar sobre minha filha, eu percebia que muita gente ficava incomodada. As pessoas não querem mais te ouvir e tudo o que eu queria era falar sobre a Clara com naturalidade, porque apesar de ela não estar aqui comigo, ela é minha filha e sempre vai ser.

A terapeuta me incentivou a escrever sobre os meus sentimentos, o que me ajudou bastante. Outra coisa que eu tento fazer hoje, através do meu Instagram, é ouvir histórias de pessoas que passaram pelo que eu passei e que tiveram finais felizes. Isso me deu e me dá uma força absurda.

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Depois da Clarinha, eu tive mais três filhos, mas sempre falo da minha perda. Sinto que, de certa forma, mostrando os meus filhos hoje eu consigo ajudar outras mães que estão passando pela dor da partida.

O meu marido sofreu de uma forma diferente, ele não gostava de falar sobre a perda, mas quando eu falava, ele me escutava. Isso fez dele a pessoa que mais me ajudou nesse processo. Além disso, tive uma amiga querida que me ouvia o tempo todo, mesmo meses depois do luto, quando eu ainda estava tentando engravidar do meu segundo filho, Arthur. Foram poucas as pessoas que estiveram do meu lado, mas essa era a ajuda que eu precisava para conseguir suportar o luto durante o primeiro ano que, para mim, era o mais difícil.

Lembro que quando estava saindo da casa de saúde, vi uma capela. Estava muito difícil sair da maternidade com os braços vazios, em um carro com uma cadeirinha instalada, com uma mala cheia de fraldas e roupinhas que não seriam usadas. Eu pedi ajuda para Deus, e na hora eu senti um desejo no coração de engravidar novamente, saí da maternidade com a certeza de que queria focar em construir a minha família.

Cumpri o período que a médica pediu para fazer novos exames e procurei especialistas para entender o que tinha acontecido. Foi difícil, eu tinha medo do diagnóstico: descobri uma mutação que deu à Clara grande possibilidade de ela ter tido uma trombofilia, que pode ter sido a causa da morte dela. Fui acompanhada por um hematologista, e tudo isso fez com que eu canalizasse minha atenção na possibilidade de um segundo filho, sempre pensando na Clara com amor e gratidão, porque ela mudou a minha vida. Eu sou uma outra pessoa e, sem dúvida nenhuma, um outro tipo de mãe para os irmãos dela que estão aqui na Terra comigo.

A partida da Clara me transformou tanto, que quando o meu quarto filho nasceu, eu resolvi pausar a minha carreira de engenheira para me dedicar inteiramente à maternidade. Eu precisava viver essa experiência intensamente, e ela fez com que eu me conhecesse como mulher. A Clara foi um divisor de águas na minha vida, dói falar dela, a saudade dói muito, mas hoje em dia é diferente. Sinto muito amor, muita gratidão por ela, entendo que tudo aconteceu, porque tinha de acontecer.

E eu sei que ela me acompanha onde quer que ela esteja: Clara é minha filha e faz parte da família.

É uma dor que não tem fim, um buraco no peito que vai existir para sempre. Mas mesmo assim é possível ser feliz, seguir em frente, fazer novos planos e viver. Temos que agradecer por sermos escolhidas por anjos, eles esperam que a gente seja feliz.

Depois que a fase aguda do luto passou, uma coisa que me ajuda muito é honrar a existência da Clara, falar dela com naturalidade. Ela faz parte da minha história, ela está aqui dentro do meu coração, e isso me ajuda a seguir em frente todos os dias”.

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"Pensei: Eu posso deitar aqui e me afundar ou levantar e seguir. Nenhuma das duas coisas traria o meu filho de volta ou me levaria para junto dele, mas eu decidi por levantar a cabeça e ir. Com uma dor imensa, que vive em mim e persiste, mas com a qual hoje eu consigo conviver"

Luana Drummond, 33 anos, empresária.

“Casei com 26 anos, e em menos de um ano depois, engravidei. Não foi planejado, foi durante uma troca de anticoncepcional, mas foi uma gravidez muito desejada e comemorada, porque eu sempre tive a maternidade como uma certeza muito forte em mim.

Quando completei 30 semanas, fui fazer um ultrassom e descobri que o meu líquido havia secado. Não sabíamos a causa, os médicos acreditavam que eu tinha tido uma bolsa rota, mas eles decidiram por fazer uma cesárea de urgência, e então nasceu meu primeiro filho, o Rafael, que foi direto para a UTI.

Como achamos que o problema era a bolsa rota, pensamos que o Rafinha ia ficar internado para ganhar peso, mas no mesmo dia que ele foi para a UTI a médica disse que sentiu uma massa palpável no abdome dele. Fizeram os exames e descobrimos que ele sofria de uma doença chamada de rins policísticos, que é genética, recessiva – ou seja, o bebê tem de herdar o gene recessivo da mãe e do pai -, e ocasiona a presença de vários cistos nos rins da criança.

O Rafa ficou quatro meses na UTI, foi muito difícil. Ele sofreu muito, foi entubado, fez traqueostomia, fez uma cirurgia para a retirada de um rim, tentaram fazer diálise nele, depois ele usou uma máquina para uma hemodiálise mais leve, fez outra cirurgia, e retirou o segundo rim, enfim. Ele não aguentou mais, e com quatro meses e três dias de vida, ele faleceu. Foram meses de muita dor, mas de muito amor, também: tudo o que eu tinha de amor eu dei para ele, porque eu ouvia todos os dias que ele iria morrer.

Depois da perda, eu e meu marido descobrimos que era quase certeza de que nós tínhamos o gene da doença, o que representava 25% de chance de termos outro filho doente em uma gravidez natural – mas isso também significava 75% de chance de não ser, e nos agarramos muito nessa possibilidade.

O Rafa faleceu em abril de 2015, e em janeiro de 2016 eu engravidei da Maria Julia. A doença do Rafael poderia ter sido descoberta durante a gestação, e não foi, mas isso não faria diferença. Porém, durante a gravidez da Maria Julia ficamos mais de olho, e com 21 semanas descobrimos que ela também tinha a doença. O desespero tomou conta.

Foi muito difícil, eu fiquei bem abalada emocionalmente, minha fé sumiu – eu acreditava tanto que ia dar certo! A minha ideia era de que, se eu conseguisse atingir uma idade gestacional na qual fosse possível o bebê sobreviver fora do útero, se o meu líquido secasse, a gente retiraria a criança para que ela pudesse se desenvolver. Mas o meu líquido secou com 27 semanas de gestação e nenhum médico quis retirar a Maju.

Entrei em trabalho de parto com 37 semanas, minha filha nasceu de uma cesárea e viveu apenas por três horas. Eu não a conheci direito com vida, porque foi tudo muito rápido na sala de parto e eu fiquei em observação. Quando cheguei no quarto ela já havia falecido. Eles a trouxeram para mim, eu consegui me despedir, mas não pude ir ao velório por estar internada por conta da cesárea.

O luto do Rafael foi muito difícil para mim, eu não sabia o que fazer da minha vida, eu vivi quatro meses com ele na UTI. Ao mesmo tempo, eu pensei: eu posso deitar aqui e me afundar ou levantar e seguir em frente. Nenhuma das duas coisas traria o meu filho de volta ou me levaria para junto dele, mas eu decidi por levantar a cabeça e ir. Com uma dor imensa, que vive em mim e persiste até hoje, mas com a qual hoje eu consigo conviver e me assumir como uma pessoa feliz.

A perda da Maju também foi muito difícil. O meu marido foi muito forte quando o Rafael faleceu, ele me ajudou muito, mas quando aconteceu com a Maju ele desmoronou, e aí fui eu quem me senti na obrigação de ser forte para ajudá-lo como ele me ajudou. O meu segundo luto foi diferente, eu não me permiti chorar, sofrer, tinha alguém ali que não tinha feito isso para me apoiar e me dar força, então eu que tive que ser muito mais forte – não por sentir menos, de forma alguma, mas por escolher ser a força dele.

No fim das contas o meu marido foi o meu maior apoio, nas duas ocasiões. Ele estava ali para me ouvir, para me dar um abraço, por também ter passado pela minha dor. Eu tive apoio dos meus amigos e familiares também e sou muito grata.

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Eu também criei um Instagram para compartilhar o que aconteceu. No começo você fica até com uma certa vergonha, se perguntando se tem algo de errado com você. Afinal, ter um filho é tão ‘normal’, né? Por que que comigo não foi assim?

Ter contato com outras histórias foi essencial para mim, e é por isso que eu conto muito a minha. Para ajudar e dar força para outras pessoas. Também passei a fazer um trabalho voluntário de contação de histórias em orfanatos, que virou um projeto de vida, para canalizar todo o meu amor e ajudar aquelas crianças que não tinham pais e mães.

O luto pós-parto é um grande tabu social, mas acho que para quem sofre com uma perda gestacional isso é ainda mais forte. Tem pessoas que diminuem essa dor, achando que ela vai passar, mas quero poder falar sobre isso. É importante, porque mais gente vai se identificar e ver que acontece, que aquela pessoa não é diferente dos outros por ter passado por aquilo. Perder um bebê com cinco, sete, dez semanas ou um ano de vida, é uma dor que você vai carregar para sempre. A gente tem vergonha, não sabe se a culpa foi nossa, porque gestar é visto como algo natural.

Depois da minha segunda perda, decidi que nunca mais ia tentar engravidar naturalmente, que eu não tinha condição psicológica alguma de passar pelo que eu passei. A solução para o meu caso era a Fertilização in Vitro (FIV) com biópsia embrionária, para descobrir quais os embriões saudáveis que poderiam ser implementados. Eu tinha outras formas de realizar meu sonho da maternidade, como a adoção, mas naquele momento eu queria passar por tudo o que me foi tirado: chegar no hospital, sair de lá com o meu bebê, amamentar.

Fui atrás de bons profissionais, e em 2017, dei início à minha fertilização in vitro. Meu primeiro embrião foi colocado em março de 2018, mas eu não engravidei: dos dez embriões, apenas quatro eram saudáveis, e isso me deixou bem triste e chocada, como se fosse uma terceira perda.

Em abril de 2018 eu tentei mais uma vez, e aí engravidei da Maria Laura, que hoje tem dois anos e cinco meses, é saudável e não tem a doença dos meus outros filhos, apesar de carregar o gene. Ela é minha bebê arco-íris, que coloriu toda a minha vida e deu sentido a ela.

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Depois nós decidimos que tentaríamos mais uma vez. Eu já tinha dois embriões congelados e, em janeiro, tentei novamente engravidar. Agora eu estou grávida da Júlia, que também não tem a doença e está com os rins saudáveis, foi a Maria Laura quem escolheu o nome. Eu brinco que a Júlia é o meu bebê sol, já que depois da tempestade vem o arco-íris, e depois vem o sol, que vai chegar para completar a nossa família.

Para mães que estão passando pelo luto neste momento, eu quero dizer que essa dor vai ser parte da vida delas, já que nenhum filho substitui o outro. Mas, acreditem, é possível ser feliz de novo, sorrir e ter fé outra vez.

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A gente aprende a conviver com a dor. Hoje eu sou, sim, uma pessoa muito feliz e realizada, embora não tenha meus outros dois filhos aqui comigo – quem me dera ter meu quarteto todo! Se o seu sonho é ser mãe, se surgiu essa vontade no seu coração, é importante não desistir dele: eu sou a prova viva de que vale a pena. Permita-se sofrer, chorar, mas lembre-se de que levantar e seguir em frente é a única forma de realizar”.

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"Fale do seu filho: ele existiu, ele tem uma história e ela não deve ser ignorada"

Carla Ribeiro Borges, 37 anos, assistente administrativa.

“Me casei em 2014, mas decidimos esperar um pouco para termos filhos, e em novembro de 2016 começamos as tentativas. Já nesse primeiro momento comecei a ficar com um mix de sentimentos, entre expectativas e frustrações a cada mês que não dava certo. Me consultei com vários médicos e, como eu ainda era jovem, nenhum deles viu a necessidade de investigarmos algum tipo de problema relacionado à infertilidade. Foi apenas em 2018 que, por indicação de algumas amigas, procurei por um especialista em reprodução humana: meu mundo caiu. Aos 34 anos, descobri que a minha reserva ovariana era de 0,03.

O médico sugeriu uma FIV com ovodoação, mas eu logo desisti da ideia de ter filhos, aceitamos o destino de que não seríamos pais dessa forma. Por conta da minha baixa reserva de óvulos, a minha menstruação era bastante irregular, eu ficava meses sem menstruar.

Em março de 2020 eu comecei a sentir dores nos seios, mas meu médico desconfiou de uma displasia, me medicou e ficou tudo bem. Depois comecei a me sentir enjoada, mas o gastro disse que era uma gastrite. Estava, também, fazendo muito xixi, fui em um urologista que desconfiou de que poderia ser um problema de bexiga hiperativa ou pedra no canal da uretra, e solicitou exames para poder me avaliar melhor.

Uma semana antes do exame, fiz faxina em casa, arrastei móveis, fiz esforço e, quando levantei para ir ao banheiro tive um sangramento – achei que, depois de meses, estava menstruada, mas no dia da tomografia descobri que estava grávida.

Foi um susto, fui do laboratório direto para o pronto atendimento para saber como estava meu bebê. No exame de toque a médica pensou que eu estava grávida de dois ou três meses, mas quando fiz o ultrassom fiquei sabendo que estava gestante havia 23 semanas. Eu chorava de felicidade e de desespero, mas foi uma alegria, um sonho se realizando. Tive que correr para arrumar o enxoval em meio à pandemia, e uma semana depois da notícia da gravidez descobrimos que teríamos um menino, nosso Bento, tão desejado.

Os exames estavam todos normais: tanto eu quanto o bebê estávamos bem de saúde apesar do atraso para começar o pré-natal e de ter extrapolado um pouco por não saber que estava grávida. Por ser mãe de primeira viagem, não sabia o que esperar do meu corpo e, com 27 semanas comecei a perder líquido – não sei dizer por quanto tempo. Exatamente um mês depois de saber que estava grávida fui para o hospital por conta disso.

No exame de toque, a médica sentiu a cabeça do Bento e teve a certeza de que a minha bolsa tinha rompido, que as dores eram contrações e que eu estava em trabalho de parto. Minhas contrações cessaram, parei de perder líquido e recebi a notícia que ficaria internada até o Bento nascer. Fui monitorada e o exame deu negativo para líquido amniótico, mas as ultrassonografias indicavam que a cada dia Bento estava com menos líquido, mas bem de saúde.

Depois foi descoberto que eu estava com uma infecção muito forte, mas não conseguiram saber como isso tinha acontecido. Tive que ficar de repouso e, quando completei 28 semanas, entrei novamente em trabalho de parto, mas nada mais poderia ser feito. A médica ficou muito apreensiva, o Bento estava muito pequeno e meu útero não estava preparado, eu corria o risco de perder o útero e o Bento poderia não resistir, devido à idade gestacional.

Mesmo assim, com muita fé e confiança, pedi para a médica fazer a minha cesariana. Foi então que o Bento nasceu. Eu não imaginava que ele iria chorar, mas poder ouvir o chorinho do meu filho foi a melhor sensação do mundo.

O pediatra conversou comigo, disse que o bebê iria para a UTI por ser prematuro. Quando me autorizaram a caminhar fui conhecer o meu menino. Ele estava todo cheio de fios ligados, com os olhinhos tapados, e por isso não consegui vê-lo direito. Mas eu estava muito feliz, ele respirava com apenas 40% de ajuda das máquinas, e o médico explicou que as primeiras 72 horas de um prematuro são cruciais: Bento estava bem, mas precisava de muitos cuidados.

No outro dia pela manhã cheguei na UTI e vi o médico bombeando oxigênio para o Bento. Olhei para os pezinhos dele e vi que estavam pálidos. Ali eu soube que tinha algo de errado. O médico nos informou que, caso desse mais adrenalina para o Bento, ele poderia ter danos irreversíveis no cérebro. O coração dele não resistiu à sepse, e a infecção que eu tive acabou passando para ele. Foi assim que o meu menino partiu, ele foi embora sem que eu pudesse fazer nada.

Pedi para pegá-lo no colo, olhei cada detalhe do corpinho dele e chorei muito por carregar meu filho sem vida. Mesmo com a pandemia, meu marido e eu decidimos que faríamos um velório, afinal, ele teve uma história que tinha que ter um ‘fim’. Sem poder sair do hospital organizei o funeral a distância, escolhi a roupinha, chamei os padrinhos e o padre o batizou antes do sepultamento. Fiz tudo o que estava ao meu alcance com muito amor.

O pós-parto de uma mãe enlutada é diferente, é doloroso. Além de todos os cuidados e as dificuldades enfrentadas após a cirurgia, a mãe não tem seu filho para ‘compensar’ aquilo. Enquanto a mãe que tem seu filho amamenta, a mãe de anjo, como somos chamadas, muitas vezes precisa tomar medicações para secar o leite. Enquanto a mãe com o filho em casa cuida dos seios para evitar rachaduras e feridas, a mãe de anjo passa dias com os seios enfaixados para não estimular a produção de leite – são situações que acaba com o psicológico de qualquer um, e eu não consigo expressar o que é chegar em casa sem o bebê no colo.

Minha família queria tirar tudo do Bento de casa para eu não ficar ainda mais triste, mas eu não deixei. O Bento teve uma história e eu não poderia apagar a existência dele, tirando da minha visão o que pertencia a ele.

Na época eu já fazia terapia, e foi de extrema importância continuar com as sessões. Quase um ano depois, eu ainda convivo com o estresse pós-traumático. Tomei antidepressivos por um tempo, o que me ajudou muito, e até parei em certo momento por achar que estava bem, mas voltei a tomar porque não é fácil seguir sem o meu menino. Eu também participei por um tempo de um grupo no WhatsApp somente de mães de anjo, o que me ajudou muito conversar com outras mulheres que tiveram perdas.

Há uma pressão enorme para que a mãe siga a vida, um olhar de piedade e dó de algumas pessoas, que junto com a falta de empatia machucam muito e dificultam o processo. Muitas vezes, só um abraço ou um ‘estou aqui por você’ são melhores do que palavras, mas infelizmente isso é raro. Por ser um assunto difícil de lidar, as pessoas não sabem como se portar diante da mãe, falam coisas desnecessárias, tentam encontrar motivos que justifiquem a perda. Muitas mães se veem sozinhas.

Mesmo com o coração dilacerado, meu marido e eu decidimos que tentaríamos mais um filho. O amor pelo Bento é tão imenso e tão lindo, que deixamos o medo de lado e nos agarramos à fé e à esperança de sermos pais novamente. Bento partiu em agosto de 2020, e em novembro do mesmo ano comecei a tentar engravidar, mas ainda não consegui. Neste mês, começo um tratamento em uma clínica de reprodução humana, e é lá que vou depositar toda a minha confiança e esperança.

Diferente de muitas mães, eu tive só 35 dias ‘grávida’, foram exatamente 5 semanas consciente de que estava gestando, e foram os melhores dias da minha vida. O Bento, para mim e para toda a família, foi uma luz de esperança, de que nem sempre um diagnóstico é definitivo quando algo é pra acontecer. O Bento renovou a fé que havia perdido. Sou mãe e sou grata, mesmo não tendo ele comigo, ele me mostrou o que é o amor.

Com o tempo nós vamos aprendendo a conviver com a falta do nosso bebê. Por isso, fale do seu filho: ele existiu, ele tem uma história e ela não deve ser ignorada. Procure ajuda se necessário, tanto médica como psicológica, além de grupos de apoio, e não sinta vergonha em tomar remédios se for preciso. Procure por algo que conforte o seu coração e que te ajude a enfrentar este momento.

A perda de um filho não se supera, mas é possível voltar a sorrir, transformar a dor em uma saudade boa. É possível pensar no filho com alegria, mas esse processo não vem dia um dia para o outro, é preciso paciência”.

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