Como criar crianças otimistas em um mundo pessimista?

Não se trata de ingenuidade. Pessoas com uma visão positiva das coisas tendem a lidar melhor com adversidades e têm chances maiores de viver mais e melhor.

Por Vanessa Gomes Atualizado em 20 jul 2022, 10h26 - Publicado em 10 jul 2022, 14h00

Basta entrar nas redes sociais, ler as notícias que chegam pelos aplicativos de mensagens, olhar os alertas dos principais portais ou ligar a televisão para ter acesso a uma série de tragédias acontecendo bem agora, no mundo todo. Assaltos, ativistas mortos, guerra, terremotos, mudanças climáticas, pandemia… Será que o planeta está se tornando um lugar inóspito ou o acesso à informação é que está mais rápido, abundante e intenso? Quando se tem filhos pequenos, a situação se transforma em um imenso paradoxo. Dar à luz um bebê é uma das expressões máximas de otimismo. Afinal, você está acreditando que o mundo pode ser um lugar acolhedor para um ser humano novo em folha, pelo qual tem um amor inexplicável. Mas como manter esse otimismo diante das preocupações que aumentam a cada triste fato com o qual se tem contato?

Já não se trata mais de, simplesmente, esconder as notícias. As informações chegam por todos os lados. Ainda assim, crianças pequenas tendem a ser otimistas. Na verdade, hiperotimistas, segundo um estudo recente realizado por neurocientistas da University College London (UCL), na Inglaterra. Publicada no Journal of Experimental Psychology, a pesquisa mostrou que elas são muito mais otimistas do que os adolescentes.

“Enquanto as crianças aprendem tanto quanto adolescentes quando alguma coisa positiva acontece, elas tendem a ignorar quando as coisas não saem tão bem quanto esperavam”, disse o médico Tobias Hauser, coordenador do trabalho. De acordo com ele, esse mecanismo e o hiperotimismo que resulta dele são úteis para os pequenos persistirem em objetivos ambiciosos e superarem obstáculos pelo caminho.

“Crianças bem pequenas estão intensamente conectadas ao agora e apresentam uma disposição enorme para explorar, conhecer e experimentar, mesmo após quedas e tropeços, por exemplo”, aponta a psicoterapeuta Natalia Orti, da The School of Life, escola focada nas emoções e nos dilemas do cotidiano. “Isso se deve, principalmente, ao fato de que, tendo cérebros naturalmente imaturos e em pleno desenvolvimento cognitivo e emocional, elas conseguem experimentar com curiosidade e abertura o momento presente, assim como ignoram uma série de variáveis complexas do contexto [interpessoal, social, econômico, etc]. Estão aprendendo a entender o mundo e o fazem aos poucos, vivendo uma situação de cada vez”, explica. Conforme a adolescência chega, como mostrou o estudo, as dificuldades começam a aumentar porque surgem diferentes perspectivas, além do impacto de aprender por meio das crenças dos adultos ao redor.

E é aí que entra o seu papel. Você é o adulto ao redor. Se quiser que a criança seja mais otimista, vai precisar prestar atenção ao seu comportamento também. “Não há satisfação maior para os pais do que ver seus filhos felizes. Mas, em primeiro lugar, precisamos entender que não é nosso papel fazê-los felizes o tempo todo e sim orientá-los e ajudá-los a lidar com suas emoções, boas e ruins”, defende a psicopedagoga e mestre em educação Juliana Palma.

“As crianças também modelam muito do nosso comportamento. Já notou como elas tendem a ficar mais ‘birrentas’ naqueles dias em que estamos mais irritados? Pois é, são os neurônios-espelho trabalhando e imitando o que o outro sente. Somos bombardeados diariamente com notícias ruins no mundo todo. A pergunta que costumo fazer para os pais é: qual o foco que você dá para essas notícias? O quanto você permite que elas invadam sua mente e sua casa? Como você reage a elas? Se sua reação é ser pessimista, é bem provável que você esteja criando um pessimista. Mas, se você aprender a lidar com essas situações de forma otimista, as chances de seu filho modelar esse comportamento serão muito grandes”, afirma.

menino de costas segurando um urso de pelúcia olha para a tela de uma televisão
Thinkstock/Getty Images

Otimismo no topo das prioridades dos pais

E por que o otimismo é um ponto importante, que deve estar entre as prioridades da família ao educar uma criança? De acordo com Natalia, ele favorece o entendimento de novas possibilidades e ajuda a lidar melhor com as adversidades da vida. “Ao contrário do que o senso comum indica, o otimismo não consiste em repetir palavras de autoafirmação ou simplificar a realidade ingenuamente, mas em adotar uma percepção que inclua dimensões positivas e uma atitude mais ativa diante das dificuldades. Sendo assim, melhora o sentimento de bem-estar e esperança e favorece a resiliência”, explica a especialista.

Se todos esses motivos não foram suficientes, talvez a conclusão de pesquisadores de Harvard, nos Estados Unidos, ajude a convencer você. De acordo com os resultados obtidos pelos cientistas em um estudo recente, publicado no início de junho no Journal of the American Geriatrics Society, o otimismo está relacionado à longevidade. O trabalho mostrou que, entre os participantes, os 25% mais otimistas provavelmente teriam uma expectativa de vida 5,4% maior e 10% mais probabilidade de viver além dos 90 anos em comparação aos 25% menos otimistas.

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Na prática: 8 maneiras de criar crianças otimistas

Agora que você já sabe porque o otimismo é tão importante na vida do seu filho – e na sua, que é o espelho dele -, com ajuda das especialistas Natalia Orti e Juliana Palma elaboramos uma lista com as dicas do que fazer para trazer o conceito de forma prática no dia a dia!

1. Seja otimista

Não adianta querer que a criança veja o mundo por uma lente linda e colorida se você vive se lamentando e reclamando por aí. Evite usar as expressões “nunca” ou “sempre”, que criam os padrões de pensamento de que algo “nunca dá certo” ou “vai ser sempre assim”, ou mesmo reações desesperançosas e excessivamente críticas sobre o que acontece.

2. Vai passar

Indivíduos pessimistas costumam ver as adversidades como permanentes (“meu melhor amigo está bravo e nunca mais vai falar comigo”), enquanto otimistas enxergam a mesma situação por um viés temporário (“meu melhor amigo está bravo e talvez hoje não me chame”). Ensine à criança que alguns sentimentos não são definitivos. Um dia ruim é apenas um dia ruim. Os problemas mudam, as dificuldades vão e vêm, e nada é permanente.

3. Ensine a pensar e a agir

O otimismo é também saber que você é capaz de transformar uma situação ruim e torná-la melhor, ainda que seja só um pouquinho. Quando há algum desafio, tente mostrar que ele é contornável e ensine seu filho a pensar em soluções. Crianças pessimistas tendem a acreditar que “tudo está perdido” e se retraem mais depois disso.

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Catherine Falls Commercial/Getty Images

4. Foque no esforço e não no resultado

Justamente para estimular seu filho a agir e incentivá-lo a fazer o que estiver ao seu alcance para contornar ou melhorar alguma situação, é importante valorizar o seu esforço – e não o resultado. Mesmo que não dê certo, reconheça o empenho. Ajude a criança a perceber o que ela faz e as consequências que produz.

5. Ouça, valorize as emoções e ensine-a a se expressar

Não menospreze o sentimento do seu filho. Preste atenção ao que ele diz, sem julgamentos, e tente acolhê-lo. Crianças que se sentem vistas e ouvidas provavelmente terão uma relação melhor consigo mesmas e conseguirão também acolher e respeitar os outros, alimentando um ciclo de forma positiva. Ajudá-las a nomear e expressar suas emoções também vale.

6. Apresente novas perspectivas

Uma notícia ruim pode ser uma oportunidade quando há outra maneira de enxergá-la. Talvez você precise dar alguns “empurrõezinhos” para ajudar seu filho a entender isso. Trata-se de um exercício, às vezes, até para os adultos. Mas, com o tempo, a tendência é que se torne algo mais natural. Um exemplo: a criança diz que não quer ir para a escola nova, porque não conhece ninguém. Você pode perguntar: “Quantas pessoas você será capaz de conhecer na escola nova?”

7. Aproveite as oportunidades de diálogo

As notícias ruins podem ser também chances de ensinar soluções para os problemas. Imagine o caso em que a TV fala sobre o desaparecimento de uma criança. Os pais podem perguntar ao filho o que ele precisa fazer para não se perder, qual seria sua reação se um adulto o chamasse para entrar no carro ou o convidasse para ir até sua casa ver seus videogames.

Alguns assuntos são difíceis, mas são necessários. Quando se trata de notícias sobre as quais não se pode fazer nada, tranquilize a criança, dizendo que há adultos responsáveis cuidando daquilo e tentando encontrar soluções. Responda as perguntas de maneira objetiva e com uma linguagem adequada para a idade e a compreensão do seu filho.

8. Todo mundo erra

Quando seu filho comete um erro, você pode e deve corrigir, mas com afeto. A criança precisa entender que aquela falha serve para um aprendizado. O foco não é punir, pois a questão não é o erro, mas o que ele trouxe como experiência. Além disso, compartilhar suas próprias histórias, seus medos e a superação pode ser uma maneira de acolher e ensinar. Ao compartilharmos nossa vulnerabilidade, abrimos espaço para que nossos filhos se sintam à vontade com sua própria vulnerabilidade. Assim, fica mais fácil compreender que estamos juntos. E juntos, fica mais fácil sermos otimistas, não é?

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