Como presenciar a agressão entre os pais afeta as crianças pequenas?

Especialistas respondem a dúvida após assunto vir à tona com vídeos do DJ Ivis agredindo a ex-companheira Pamella na frente da filha de apenas nove meses.

Por Flávia Antunes Atualizado em 15 jul 2021, 13h53 - Publicado em 14 jul 2021, 17h45

Por mais inconcebível que seja, a violência doméstica ainda está presente em muitos lares, tendo como principais vítimas figuras femininas em vulnerabilidade social e sendo intensificada com a pandemia. De acordo com o levantamento realizado pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), divulgado em março de 2021, 25 mulheres foram agredidas a cada minuto durante o último ano.

Nesta dura estatística, está o recente caso polêmico entre o produtor musical e compositor DJ Ivis e sua ex-companheira Pamella Gomes de Holanda. No domingo (11), a influenciadora denunciou que sofria de violência doméstica e compartilhou cenas fortes nas redes sociais, que mostravam o DJ a agredindo, por vezes na frente da filha Mel, de apenas nove meses.

Com a cena angustiante da pequena no colo da mãe, presenciando as violências psicológicas e físicas, uma dúvida volta à tona: o que acontece com a criança quando presencia cenas de agressões entre os pais?

Não se sabe ao certo a partir de qual idade ela se dá conta de que está lidando com uma agressão, já que essa compreensão varia de acordo com sua maturidade e do ambiente em que vive. Mas como pontua a psicóloga Flávia Carnielli, especialista em psicologia infantil, mesmo uma criança pequena sofre algum tipo de impacto emocional diante de situações como essa.

“Quanto menor a criança, mais difícil de entender o que está acontecendo e de lidar com situações de estresse. Geralmente, quando ela está irritada ou com alguma necessidade, é o adulto que a ajuda a se regular. Mas quando está em um meio agressivo, em que os responsáveis não conseguem dar esse suporte, consequências negativas tendem a aparecer”, explica a psicóloga. 

No futuro, em situações de estresse e dificuldade, é possível que a criança não saiba como reagir, apresentando um comportamento mais medroso em situações de conflito, ou que reaja de maneira violenta, reproduzindo o modelo que tem em casa, como detalha a especialista.

Outros prejuízos ainda podem surgir a longo prazo, como a baixa autoestima, insegurança, dificuldade para dormir e de relacionamento interpessoal. Já no campo cognitivo, por vezes o pequeno pode apresentar problemas de concentração e até de aprendizagem na escola.

  • Como identificar os sinais na criança

    Enquanto alguns comportamentos são mais difíceis de notar, outros mostram claramente que o pequeno está sofrendo com a violência que presencia dentro de casa. “Geralmente notamos a diferença quando a criança muda um padrão próprio. Por exemplo, se era muito tranquila e fica muito agitada ou nervosa. Ou se era mais brincalhona e passa a ficar mais isolada, mais quieta”, exemplifica a psiquiatra Priscila Dossi, especialista em psiquiatria da infância e adolescência.

    O que também pode acontecer é uma inversão de papéis, com a criança desenvolvendo comportamentos protetores com o cuidador que está sendo agredido. Por outro lado, a relação com o agressor pode ter duas faces: ou o pequeno fica temeroso e com dificuldade para se relacionar com aquela pessoa ou, se ela for sua figura de referência, é possível que o filho demonstre apego mesmo diante das atitudes violentas do adulto..

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    Só que, como lembra a psiquiatra, estas respostas da criança dependem da sua faixa etária e de quem ela tem como modelo para o seu desenvolvimento. “Os pequenos geralmente demonstram um apego maior na figura de referência, em relação ao medo de abandono, de ficar sozinho e até uma certa ansiedade de separação. E quando a criança é um pouco maior e tem uma ideia mais ampla sobre morte ou ausência, pode surgir maior medo de perda e assim a tentativa de proteger o adulto”, afirma.

  • A criança pode desenvolver quadros mais graves?

    Claro que os problemas do campo da psiquiatria não possuem uma causa única – unindo, na grande parte das vezes, fatores genéticos, ambientais, e da história de vida da pessoa. No entanto, dependendo de como for a vivência da criança e do grau de exposição àquela violência, é possível sim que ela desencadeie quadros psiquiátricos.

    Priscila cita alguns deles: “Há os transtornos ansiosos, o transtorno por estresse pós-traumático, que pode acontecer depois de uma situação de estresse agudo, ou pode até desenvolver um transtorno depressivo.”

  • O que fazer diante desses comportamentos

    Como bem lembra a psiquiatra, o cenário ideal é que a criança não presencie cenas de violência e até mesmo outras situações de intriga entre os pais, como discussões acaloradas. Mas se for exposta a isso e os cuidadores notarem mudanças de comportamento, o primeiro passo a se fazer é prezar pelo acolhimento.

    “Porque a criança está sofrendo – então não se deve chegar brigando, dizendo para que ela pare de chorar. Mas sim oferecer ajuda, perguntar o que está sentindo e, caso necessário, procurar ajuda profissional, nem que seja para descartar algum quadro mais sério”, acrescenta Priscila.

    O encaminhamento pode ser feito para um psicólogo ou psiquiatra infantil, que conseguirá fazer uma avaliação mais apurada da criança. Ou, se não for possível, outra alternativa é buscar um professor ou pedagogo que tenha afinidade com a área e consiga dar uma atenção maior à família.

    Proteção e acolhimento mútuos 

    Como o próprio caso entre o compositor e a influenciadora exemplifica, nem sempre a divergência entre o casal se resolve de maneira natural e, muitas vezes, é necessário recorrer à ajuda de terceiros para que o ciclo da violência seja quebrado. Assim, as chances são maiores de que, devidamente acolhida e amparada legalmente, a mãe consiga pensar em formas de ajudar o filho também fragilizado na situação.

    O primeiro passo é recorrer a um Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRM), onde a mulher conseguirá orientações sobre sua situação, informações sobre a Lei Maria da Penha e decidir o melhor momento de fazer a denúncia, respaldada por medidas protetivas de urgência – como o agressor não poder se aproximar fisicamente tanto da mãe quanto do filho e a possibilidade de casas de abrigo para aquelas que estão em situações de maior fragilidade.

    Já em cidades com menos recursos legais, é possível recorrer à Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, serviço do Governo Federal que presta escuta e acolhimento qualificado às mulheres em situação de violência, também informando sobre os locais mais próximos em que é possível pedir ajuda para conter o agressor e proteger a vítima. 

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