Como contar para o meu filho que o bichinho de estimação morreu?

É fundamental que os pais digam a verdade sobre a perda do animal, e não que ele fugiu e nunca mais voltará. A honestidade validará os sentimentos de todos!

Por Alice Arnoldi 9 jul 2021, 18h43

Quando filhotes chegam em casa, todo minuto em família é festa. Rimos das travessuras que fazem por causa dos dentinhos que estão nascendo, admiramos a posição nova que acharam para dormir, abraçamos muito e aguardamos ansiosamente quando vamos poder levá-los para passear pela primeira vez. Só que relações, inclusive as que estabelecemos com os pets, são cíclicas e isso significa que vamos ter que lidar com a morte.

O luto não é linear e a maneira de senti-lo não vem com um manual de instruções. Mas, assim como é necessário que os adultos elaborem a perda, os pequenos também precisam ter a oportunidade deste desenvolvimento emocional e, para isso, não se pode abrir mão da sinceridade ao falar sobre o assunto.

A psicóloga Luana Moura, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), explica que o diálogo com as crianças precisa ser estabelecido com a verdade. Isso significa que, mesmo os menores não entendendo a morte da mesma maneira que os adultos, é necessário dizer que o animal de estimação da família faleceu, e não que ele simplesmente sumiu e não voltará para casa.

Acolher a si mesmo para conseguir olhar para o outro

Por mais que os pais preparem-se psicologicamente para contar a notícia aos filhos, as emoções do luto podem vir à tona no momento e está tudo bem. Como explica a psicóloga infantil Roseli Chieco, do Hospital Infantil Sabará, é importante que os pequenos saibam que a voz embargada e o choro dos adultos possuem um motivo por trás.

“Os pais dizerem para as crianças como eles se sentem em relação a perda do bichinho mostra o lado humano deles, além do sofrimento do adulto permitir que a criança expresse o dela também”, pontua a especialista. Assim, é fundamental que a morte do animal não seja um tema proibido dentro de casa, mas uma brecha para que os pequenos exponham o que estão sentindo. Afinal, criar um pet tem envolvimento afetivo e laços.

“Depois que o animal foi embora, fale também da falta que se sente, organize os brinquedos, perguntando se a família vai guardar algum para recordação ou, quem sabe, fazer uma caixinha de memória. Por mais doloroso que seja, é importante trazer o assunto à luz, porque vai fazer parte da interação da casa durante um tempo”, pontua Roseli.

Essa necessidade do ritual de passagem, para conseguir ordenar as emoções, também é citada por Bárbara Snizek, especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise pela PUCPR. “É importante ter um lugar em que a criança possa se despedir desse animal, como um cantinho no quintal (mesmo que ele não tenha sido enterrado lá) para homenageá-lo, colocar uma foto no porta-retrato e principalmente que os pais se sentem com os filhos para falarem sobre como o bichinho foi importante”, destaca.

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Preste atenção aos sinais de luto do seu filho

Roseli explica que, diferente dos adultos, a dor emocional infantil tende a ser vista principalmente em mudanças comportamentais. “Quando pequenos, ainda falta maturidade e habilidade de comunicação, portanto, existe uma dificuldade de se expressar por palavras”, pontua a psicóloga infantil. Assim, os principais sinais são de alterações no comportamento, como:

“Esses são comportamentos que precisam ser olhados e acolhidos pelos pais, para que estes sentimentos possam ser nomeados e esse luto não acabe se transformando em patológico”, ressalta Roseli.

Atenção ao adotar outro bichinho

Família deitada na cama com cachorro
Ketut Subiyanto/Pexels

Ao se deparar com a dor dos filhos e a que surge em si, os adultos podem acabar dizendo algumas expressões que não são recomendadas pelos especialistas. Luana cita os dois exemplos mais comum: ‘Filho, fica tranquilo, nós vamos comprar outro!’ e ‘Não precisa ficar assim, era só um bichinho’. “Não devemos falar estas frases porque estamos desvalorizando o animal, que é um ser vivo, e também não estamos validando a dor desta criança”, alerta a psicóloga.

Isso não significa que a família não possa pensar em adotar outro bichinho de estimação, mas é preciso que a criança tenha o seu tempo enlutada, assim como os pais. “Se surgir o desejo de um novo pet, isso vai sendo colocado aos poucos e nunca em substituição. Mas pela função que ele tem na família, de ser uma companhia para as crianças e elas são muito disponíveis para novas aventuras”, explica Roseli.

Ao sentir que a dinâmica familiar comporta um novo membro, a psicóloga infantil lembra que o diálogo continua sendo a ferramenta mais importante à criança entender que é outro bichinho. É por meio desta conversa honesta que os pais explicarão que o animal que partiu sempre terá o lugar dele no coração da família, sendo associado às boas lembranças, e que um novo ciclo está começando ali para que todo este amor multiplique.

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