Maternatípica Poliana é mestranda em comportamento infantil, autora do instablog @meubebeeoautismo e mãe atípica de Soph e João.

A pandemia é a desculpa perfeita para excluir os que não são como a média

Não, as crianças com deficiências não atrapalham as aulas, mas nem todas conseguiram retornar para as escolas. E eu tenho uma hipótese...

Por Poliana Martins Atualizado em 8 out 2021, 18h20 - Publicado em 9 out 2021, 14h00

Meus filhos ainda não voltaram para a escola desde o início da pandemia. Sei que muitas mães decidiram que suas crianças retornariam, algumas há muito tempo. Os motivos para que essas mulheres decidissem colocar os filhos na escola foram variados, a depender da realidade de cada uma.

Certamente mães das periferias, que nunca deixaram de trabalhar como caixas de supermercado, serventes, babás e domésticas e precisavam do apoio das escolas na educação de suas crianças, foram aquelas que por falta de escolha, expuseram os filhos ao vírus precocemente, mesmo quando a pandemia ainda estava fora de controle.

Com o avanço da vacinação e o aumento da segurança sanitária, outras famílias foram decidindo reinserir seus filhos na escola. A absoluta exaustão materna da rotina de ser professora-cozinheira-faxineira-serventedacantina-monitora e acumular a maior parte das funções da casa é uma das justas razões desta volta ao ambiente escolar.

A pandemia nos mostrou que qualquer demanda que se criar no mundo cairá, necessariamente, nas costas das mulheres. Se hoje alguém disser: “bom dia, a partir de agora a educação das crianças deve acontecer dentro das casas”, amanhã as mulheres estarão com seus cadernos e livros ensinando história e ciência, leitura e gramática, alfabetização e letramento. Presenciamos exatamente isso acontecer ao longo dos últimos 2 anos.

Mas quando falamos de mães atípicas, mães de crianças com deficiência, os desafios foram ainda maiores. Posso dizer por mim e por tantas outras que também ocupamos o lugar de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, analistas do comportamento, fonoaudiólogas. Vimos nossos filhos perder habilidades, regredir no que haviam conquistado, e nos dedicamos a tornar os prejuízos os menores possíveis.

E enquanto entregávamos nosso coração e alma para manter nossas crianças se desenvolvendo víamos o governo federal, sob um discurso aparentemente inclusivo, aprovar o decreto 10.502/2020 que torna as escolas especializadas a principal política pra educação especial . Nelas, crianças com deficiência são segregadas dos espaços comuns em nome de interesses financeiros de entidades que receberão dinheiro público para criar verdadeiros espaços de separação – que podem ser chamados de qualquer coisa, exceto escola. Paralelamente vimos o ministro da educação dizendo que crianças com deficiência nas escolas “atrapalham os demais”.

  • Apagados da história

    A maternidade, toda ela, é solitária e dolorosa. Maternar é parto, é partir-se, morte e renascimento. É um caminho constante, cíclico, contínuo. Mas ser mãe de uma criança com deficiência é também ser apagada da história, junto com seu filho. Você não está nos comerciais de TV, nem nas políticas públicas, e se perder seu filho não validam sua dor. Ousam dizer “que você se livrou de um fardo, tadinha, tão nova, bom que aproveita a vida”. Nem chorar pode, por pessoas que “atrapalham as demais”.

    Quando uma crise se apresenta, e com ela a restrição de direitos humanos, os primeiros a perderem sua humanidade são aqueles que a têm reduzida aos olhos sociais. Mulheres, crianças, pretos, pobres, pessoas com deficiência.

    E por isso na pauta “volta às aulas” não se trata do dilema real que é ter uma criança que incomoda dentro do espaço escolar. Nesse retorno ao presencial as crianças com deficiência têm sido sistematicamente rejeitadas por escolas com as mais variadas desculpas: “seu filho não consegue cumprir os protocolos de segurança”; “seu filho precisa de um cuidador”; “não podemos ter um mediador na sala porque isso aumenta a circulação do vírus”. Que fechem os estádios de futebol! Que não liberem o acesso às praias no fim de semana! Que ampliem os espaços físicos das escolas!

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    As soluções existem, mas pra que elas se tornem parte da nossa realidade é preciso mais. É preciso interesse em investir em pessoas com deficiência, que apesar de suas dificuldades de adaptação, são exatamente tão capazes como as demais. Precisamos de uma mudança de percepção.

    Ainda não chegamos lá (mas chegaremos).

  • O que a gente finge que não vê

    Eu espero que você que me lê, mulher e mãe, compreenda que todas as crianças, tenham ou não deficiências, podem apresentar no seu período escolar dificuldades acadêmicas, pedagógicas, comportamentais. Que todas as crianças, tenham ou não deficiência, podem pegar recuperação em matemática, ter problemas de atenção ou dificuldade de se entrosar no recreio. Que todas as crianças, tenham ou não deficiência, contribuem na construção de um mundo mais plural, mais tolerante e respeitoso. Não apenas por serem crianças, mas por nos lembrarem que para que alguém saiba algo, um dia precisou não saber.

    Quem inventou a escrita talvez tivesse dificuldade com a fala. Quem inventou o fone de ouvido talvez tivesse dificuldade com o ruído. Quem inventou o telefone talvez tivesse dificuldades de cavalgar para entregar mensagens. Nossas dificuldades são, na verdade, o motor da transformação. São também as nossas potencialidades. E as pessoas com deficiência não são objeto passivo dessas evoluções, mas sujeitos ativos no processo de tornar o mundo melhor e mais criativo.

    Temple Grandin, uma mulher autista, dizia que esse mundo como conhecemos só existe por causa do autismo. A ciência, a tecnologia, as artes. Eu vou além, é na pluralidade da variabilidade humana, em todas as diferenças e deficiências, que essa realidade física, emocional e imaginária, nasce. Cria-se um mundo para todos no encontro com o que não é comum.

    Não, as crianças com deficiências não atrapalham, mas mesmo sendo parte necessária da estrutura social, nem todas conseguiram retornar para as escolas. Algumas ainda estão em suas casas esperando vagas (que só faltam para crianças com deficiência) assim como cuidadores, mediadores, sem falar nas adaptações físicas, sensoriais, humanitárias.

    A pandemia é uma desculpa perfeita para criar ainda mais entraves e as escolas – especialmente as particulares – fecham suas portas, como parte de um processo estrutural, que exclui aqueles que não são como a média.

    O ministro da educação não se sente constrangido em dizer que crianças com deficiência atrapalham, ou que “certas deficiências são de impossível convivência”. Porque a gente aceita. Eu e você. A gente aceita, finge que não vê e segue a vida sem se questionar como esses governantes deitam no travesseiro e conseguem dormir. Tenho uma hipótese: eles consideram que as pessoas com deficiência não são tão gente quanto os demais.

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