Cultivo Materno Jornalista fundadora do Co.madre, Juliana Mariz acredita que mães não têm superpoderes, são mulheres de carne e osso sobrecarregadas e que merecem um lugar de destaque na sociedade

Deixar de escrever sobre minhas filhas é cortar mais um cordão umbilical?

Acontece que há um ano me sinto desautorizada a contar fatos da vida das minhas filhas. Será que é hora de passar o bastão... ou melhor, a caneta?

Por Juliana Mariz Atualizado em 23 abr 2021, 15h51 - Publicado em 24 abr 2021, 14h00

Sempre fui a adolescente que fazia diários, a aluna que gostava da aula de redação, a turista que levava caderninho nas viagens. A escrita estava sempre por perto. Em um primeiro momento, dizia que escrevia porque gostava. Depois entendi que a prática me fazia bem internamente.

Não preciso nem dizer o porquê da escolha do jornalismo como profissão, não é? A ideia de poder escrever somada a um anseio quase pueril de achar que poderia mudar o mundo me levaram para as cadeiras da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Mas não foi a cobertura do acidente da TAM ou a entrevista com Renato Aragão que me fizeram entender sobre o poder curativo da escrita. Essa noção de que palavras no papel organizam emoções veio fortemente quando minha primeira filha nasceu, há 11 anos, e se intensificou com a caçula, que hoje tem 8.

Minha mãe me deu um caderno de capa dura vermelho para eu escrever episódios que vivesse com elas. Também ganhei aqueles livros-álbuns em que temos de contar passagens, colar um pedacinho do cabelo quando é cortado pela primeira vez, anotar datas importantes. Preenchi cadernos, notas do celular, fiz posts, criei um blog… A escrita organizava tudo que ficou bagunçado internamente quando me tornei mãe.

E muito do que eu relatava sobre maternidade e minha relação com elas eu publicava nas redes sociais do Co.madre. Fluía naturalmente, rendia boas reflexões com outras mulheres e, repito, me ajudava (e ajuda) enormemente a me manter no prumo.

  • Vou passar a caneta…

    Acontece que há um ano me sinto desautorizada a contar fatos da vida das minhas filhas. Quando Elisa me perguntou sobre morte (todas elas passam por essa fase, né?), o desenrolar dessa conversa rendeu parágrafos e eu não me sentia mal em expor. Mas agora, que os temas são mais particulares, algo me bloqueou.

    O crescimento delas contribuiu para essa avaliação, claro. Me questiono se isso não faz parte de mais um dos tantos cortes de “cordão umbilical” que fazemos durante a maternidade.

    Deixar de expor nossas interações é aceitar que elas vão andar com suas próprias pernas. Ou melhor, vão escrever suas próprias histórias. Chega de ser guardiã de suas biografias. Vou passar o bastão, ou melhor, a caneta. Deixá-las sobre meu lápis significa manter algum tipo de controle. Complexo, não é?

  • Estou apenas me abrindo aqui para vocês com um pensamento que anda me cercando e que, mais do que isso, tem mexido com minha fluidez em relação à escrita. Ainda não as questionei sobre o assunto, como uma amiga me sugeriu. Mas estabeleci um critério que me parece razoável para o momento: vou seguir escrevendo mais sobre maternidade e menos sobre elas. Será que tem como separar?

    A partir de agora, qualquer historieta que queira preencher o papel e ganhar a internet será mais focada na mãe do que nas filhas. Mas se por acaso algum diálogo ou acontecimento das minhas meninas insistirem em ir para o papel, prometo deixá-lo guardado na caixa onde estão aqueles diários da juventude ou cadernos de viagens que mantenho lá, bem fundo do armário.

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