Casos graves de Covid-19 na gravidez elevam chances de parto prematuro

Pesquisa ainda mostrou que gestantes tinham um risco 12 vezes maior de terem seus filhos internados em UTIs neonatais ao serem infectadas pelo coronavírus.

Por Alice Arnoldi 3 mar 2022, 15h35

Diante do segundo ano da pandemia causada pela Covid-19, não é novidade que gestantes tendem a desenvolver quadros mais graves da doença quando infectadas durante os nove meses. No entanto, a evolução da ciência tem permitido que estudos descubram possíveis consequências a longo prazo tanto para a mãe quanto para o bebê após o contágio, como maior risco de ter um parto prematuro ao apresentar um quadro grave da infecção durante a gravidez.

A descoberta foi obtida por meio de estudo conduzido pelo National Institute for Health Research HS&DR Programme e Wellbeing of Women e publicado no periódico científico Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, em fevereiro deste ano. A pesquisa analisou 4.436 gestantes sintomáticas que foram internadas em 194 hospitais da Inglaterra, entre 1 de março de 2020 e 31 de outubro de 2021, e tiveram o caso registrado no Sistema de Vigilância Obstétrica do Reino Unido.

Dentre elas, 13,9% apresentaram quadros graves da Covid-19 e foram associadas a maiores chances de darem à luz antes do previsto – de acordo com a pesquisa, elas tinham um risco 50 vezes maior de terem o parto acelerado, trazendo o bebê ao mundo por meio de uma cesariana, entre 28 (prematuridade extrema) e 32 semanas de gestação (muito prematuro).

Com o nascimento antes do previsto, estas mães tiveram um risco 12 vezes maior de terem seus filhos internados em UTIs neonatais, já que a prematuridade exige um acompanhamento mais próximo do bebê e intervenções precoces para que o pequeno se desenvolva conforme o esperado.

O levantamento ainda traçou o perfil destas mulheres que apresentaram a versão mais grave do coronavírus. Elas tinham 30 anos ou mais, etnia mista e encontravam-se com sobrepeso ou obesidade, além de diabetes gestacional. Como se observa com o restante da população, as duas últimas condições são vistas como comorbidades que levam pessoas a serem grupo de risco da doença.

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Riscos são maiores ao ser infectada no início da gravidez

O cenário observado no estudo divulgado em fevereiro já começava a ser desenhado em outra importante pesquisa, divulgada no The Lancet Digital Health. Publicada em janeiro de 2022, ela foi conduzida por estudiosos que analisaram os registros eletrônicos no sistema Providence Health & Services, de 73.666 gestantes que deram à luz entre 5 de março de 2020 e 4 de julho de 2021.

Entre elas, 882 testaram positivo para Covid-19 durante os nove meses: 85 foram diagnosticadas com a doença no primeiro trimestre da gestação, 226 no segundo e 571 no terceiro. Com esta divisão, o estudo foi capaz de concluir que as mulheres corriam maior risco de terem um parto prematuro independente de quando foram infectada, no entanto, as chances apareciam mais pronunciadas caso o contágio tivesse acontecido no primeiro trimestre da gravidez.

A possível explicação apresentada no levantamento é que, no início da gestação, há um nível maior da enzima ACE2 na placenta, a qual interage com a proteína spike do Sars-Cov-2, facilitando a entrada do vírus e a contaminação do órgão gestacional. Consequentemente, aumentam-se as chances de ocorrer sofrimento fetal e, mais tarde, de um parto prematuro.

Vale apenas lembrar que a transmissão vertical (da mãe para o bebê, por via placentária) ainda que relatada, continua sendo um modo raro de infecção.

Assim, a defesa do estudo é que, da mesma forma que gestantes infectadas pela Covid-19 no último trimestre da gravidez precisam ser acompanhadas de perto, o mesmo deve ser feito com aquelas que forem contaminadas no início da gravidez. Com isso, é possível traçar possíveis consequências a longo prazo tanto para mãe quanto para o bebê, e reforçar a importância da vacinação contra a doença pandêmica ainda na gravidez.

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