Sharenting: expor imagens dos filhos nas redes é tão inocente assim?

Muito comentando, o termo que une as palavras inglesas “share” e “parenting” traz à tona a necessidade de repensar nossos compartilhamentos na internet

Por Nathalie Ayres 23 mar 2022, 14h02

Recentemente, repercutiu na mídia como a atriz Luana Piovani não permitiu a liberação da imagem de seus três filhos no Big Brother Brasil, impedindo que suas fotos e vídeos fossem exibidas ao seu ex-marido, o surfista Pedro Scooby, em momentos importantes do jogo. Ela foi bastante questionada sobre esses motivos: afinal qual a diferença de aparecer na Globo e postar as fotos em sua conta do Instagram, com mais de quatro milhões de seguidores? “A Rede Globo ganha milhões com os anúncios, muito dinheiro com todos esses programas que vocês dão audiência. E eu não vou assinar uma autorização, para essa e para todas as outras vidas, tanto de vídeo quanto de foto — porque era assim que eles queriam — para eles encherem o rabo de dinheiro”, disse ela em seus stories.

Mas afinal, postar uma foto de uma criança nas redes sociais é assim tão inocente? Não podemos comparar o contrato da emissora de televisão com o da rede de fotos já que não tivemos acesso ao primeiro documento. No entanto, quando pensamos nas regras da mídia virtual, vemos que não há tanta diferença do que Piovani relata: “os termos de uso do Instagram apontam, em primeiro lugar, que a rede social tem o direito de ‘usar, distribuir, modificar, veicular, copiar, exibir ou executar publicamente, traduzir e criar trabalhos derivados’ das fotos postadas lá, até que sejam apagadas. Ou seja: as imagens de crianças publicadas na plataforma podem também ficar sujeitas à utilização pela empresa”, explica o advogado João Francisco de Aguiar Coelho, do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana.

É claro que nada é assim tão definitivo. “É importante ressaltar que esses mesmos termos de uso, em tese, podem ser questionados, porque sabemos que as pessoas não se atentam a esses documentos quando ingressam nas redes sociais e, uma vez provocado, o Poder Judiciário pode analisar a existência de alguma abusividade que, porventura, seja identificada”, reforça a advogada Isabella Vieira Machado Henriques, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo).

Quais os impactos de postar sobre meu filho nas redes?

Trazendo o assunto para a realidade de nós, meros anônimos, ainda assim o compartilhamento exagerado e indiscriminado de imagens de crianças nas redes sociais pode trazer consequência e riscos. Primeiramente, expõe dados sobre o pequeno que podem colocar sua segurança em xeque: “Uma postagem despretensiosa da criança uniformizada, por exemplo, pode fornecer informações preciosas quanto à rotina da criança e o lugar onde ela estuda. Um post de ‘mesversário’ pode acarretar na exposição de detalhes sobre seu nome, data de nascimento e informações dos pais, possibilitando o roubo de identidade”, enumera Coelho.

Mesmo que não haja um sequestro ou apropriação de identidade, o pequeno acaba tendo um maior rastro digital, que permite que seus dados sejam armazenados por empresas. “Os quais poderão ser utilizados posteriormente para a viabilização de uma série de práticas comerciais opacas (direcionamento de publicidade comportamental, por exemplo), além de implicar na inserção dessas informações em grandes bancos de dados, dando margem a vazamentos e outras preocupações relativas à segurança cibernética”, finaliza o advogado.

Por fim, quando o pequeno crescer, pode não gostar de ter sua infância exposta nas redes sociais. “Na medida em que, na maioria das vezes e, especialmente, com relação às crianças mais novas, as famílias divulgam suas imagens sem a autorização ou ampla consciência dos respectivos reflexos por parte da criança”, pondera a advogada Isabella.

E essa discordância com o tipo de exposição é tão real, que já foram até a tribunais. “Existem alguns casos de filhos que processaram seus pais e, por lei, eles foram obrigados a retirar todo tipo de imagem e vídeo que já havia postado sobre os filhos das redes sociais”, lembra a psicóloga Raquel Baldo, especializada em perdas e lutos, relação mãe e filho, relações amorosas e angústias geradas pelo meio.

Desejos dos pais versus limites dos filhos

mulher fotografando bebê com o celular
Rawpixel/Envato

É importante frisar que os pais realizam o “sharenting” (termo que une as palavras inglesas “share” e “parenting”, respectivamente “compartilhar” e “parentalidade”) sem pensar no mal dos filhos. “Por mais que eles acreditem que seja para ter um registro e informação de acesso, na verdade esse conteúdos são um formato que alimenta a grande fantasia de que o mundo admire meu filho, o transforme na potência que eu enxergo nele e que ele me represente”, considera Raquel.

E isso pode até trazer benefícios. “Essa construção de imagem na infância, hoje tão atravessada pelos celulares e pela facilidade de acesso a imagens, filmes e fotos, tem benefícios na construção de uma história, de uma narrativa para o sujeito, em que ele possa se revisitar e conhecer a si mesmo posteriormente”, descreve a psicóloga e psicanalista Gabriela Malzyner, coordenadora do Núcleo de Infância e Adolescência do Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo e psicóloga do Meniá Centro de Prevenção.

No entanto, ela ressalta como essa mesma imagem pode enclausurar o pequeno em um retrato de si mesmo que não foi criada por ele. “Isso é muito complicado sim, para a ideia de privacidade, de construção de espaço de intimidade, questões tão carentes e necessárias de serem faladas nesses tempos atuais”, considera.

Baldo reforça como a exposição da imagem cria ensinamentos negativos. “De alguma forma, os pais dizem para criança que a privacidade dela diz respeito a eles, é para o uso deles. Essa privacidade, esse desejo de ser ela mesma e essa ideia de tomar decisões por ela não são ensinados nesse momento”, reforça a especialista.

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Perfis infantis são ainda mais delicados

Só o fato de criar um perfil para seu filho, mesmo que sem muitos seguidores, parece uma ideia complicada para as psicólogas. “A criança começa a ser delimitada à imagem e semelhança de si mesma, fazendo construção de caricaturas e não de uma identidade do sujeito”, reforça Gabriela.

Se o perfil se torna famoso, o dinheiro acrescenta mais uma camada de complexidade. “Esses pais passam a ganhar dinheiro com a imagem dos filhos e confirmamos que aquilo que parecia ser lazer era um show, esse filho se torna um profissional que gera renda e todos ficam dedicados a usar a imagem dele para sustento da família”, pondera Baldo.

E a imagem deixa de ser dele e ele entende que deve usar disso para satisfazer os anseios dos outros: sejam os pais que ganham sustento dela, sejam os seguidores que esperam determinadas atitudes e performances.

Menina se olha no espelho
Catherine Falls Commercial/Getty Images

Isso prejudica ainda mais as noções de privacidade dos pequenos e pode causar problemas futuros. “É muito possível que essa gerações venham a apresentar quadros limítrofes, com uma dificuldade de conter os picos emocionais ou se reclusam demais. Então nós vamos falar de movimentos eufóricos, explosivos, invasivos, de quem é visto como especial desde muito cedo, ou o excesso de exposição o leva a se fechar e se deprimir”, imagina a psicóloga.

Inclusive, as ações de influenciadores mirins podem ser consideradas trabalho infantil artístico, principalmente quando há a produção regular de vídeos e fotos. “Essa modalidade de trabalho é permitida pela legislação brasileira, mas somente após a concessão de autorização judicial e a verificação de que essa atividade não irá interferir no desenvolvimento da criança ou adolescente, especialmente do ponto de vista psicológico e de sua evolução escolar”, ensina o advogado João Francisco.

Uma vez exposto, dá para voltar atrás?

Outro ponto central do uso da internet para compartilhar imagens de crianças é a velocidade de disseminação desse conteúdo. “Há uma discussão importante, no meio jurídico, a respeito do direito de desindexação que poderia ajudar a garantir a privacidade da criança, considerando a dificuldade de se retirar conteúdos da internet por propagarem-se sobremaneira – especialmente quando ‘viralizam’ ou são copiados por pessoas, muitas vezes, desconhecidas sem as devidas autorizações”, considera a advogada Isabella.

O problema é que a lei coloca alguns empecilhos para isso, exigindo a indicação das URLs específicas cuja remoção das imagens, o que nem sempre é possível rastrear. “Assim, é importante, mais uma vez, que a discussão seja pautada do ponto de vista regulatório, no sentido de exigir que as plataformas digitais adotem medidas que facilitem o exercício desse direito ao esquecimento e apagamento do rastro digital”, pondera Coelho.

Tudo é uma questão de bom senso!

Família-fazendo-chamada-de-vídeo
Mostera/Pexels

Ninguém está dizendo que é condenável postar uma foto do seu filho, mas é importante levantar pontos para que possamos repensar sobre nosso uso das redes sociais. No final das contas, o compartilhamento em si não é o vilão. O ideal é pensar bem, checar suas privacidades de rede, entender quem está acessando seu conteúdo. “O que se pode fazer é buscar uma ‘redução de danos’, a partir da reflexão sobre quais informações a imagem compartilhada fornece sobre a criança e como elas podem potencialmente ser utilizadas e recebidas por terceiros”, orienta Coelho.

O mesmo vale para os impactos psicológicos das imagens para as crianças. “Através das telas as pessoas falam barbaridade, se expõem fisicamente, sexualmente, expõem sua família, acreditando na fantasia de que estão protegidas por um aplicativo, quando na verdade elas estão expostas. Elas estão ali de alguma forma rompendo com barreiras psíquicas que deveriam estar sendo trabalhadas no seu emocional para falar desse controle pessoal”, reflete a psicóloga Raquel. Ou seja, é importante pensar o que você mostraria normalmente para as pessoas, para então entender o seu limite e o de seus filhos, enquanto você ainda é responsável por isso.

Algo muito semelhante às discussões na esfera da vida real e física. “Curioso que este é exatamente o grande problema de viver em sociedade: qual é o meu limite e o seu limite? Onde o meu prazer, o meu desejo vale mais do que o seu espaço?”, questiona a psicóloga. Já pensou nisso?

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