Na pandemia: “Graças a maternidade descobri o trabalho que queria seguir”

A mãe e empreendedora Morgana Grzbowski, de 26 anos, conta como abriu uma loja de brinquedos artesanais durante a pandemia devido a demanda da filha.

Por Alice Arnoldi Atualizado em 8 mar 2021, 18h50 - Publicado em 8 mar 2021, 18h18

Com a pandemia causada pela covid-19, presenciamos as áreas voltadas ao sistema de saúde precisando da presença de trabalhadores mais do que nunca para que vidas pudessem ser salvas. Em contrapartida, outros serviços postos como não essenciais precisaram passar pelo inverso para que também pudessem ajudar a controlar os casos da doença, o que levou a uma onda de demissões e até mesmo fechamentos de empresas devido a crise financeira do país.

Para contornar a situação, muitas famílias precisaram olhar para este momento com atenção e tentar encontrar uma brecha para manter as contas em dia enquanto protegiam quem amavam. Este é o caso de Morgana Grzbowski Ferreira, de 26 anos, mãe de Serena, de dois anos e nove meses.

Enquanto buscava por diferentes atividades para ajudar no desenvolvimento infantil da pequena em casa, a estudante de design de produtos começou a elaborar brinquedos diferentes para a filha com matéria-prima sustentável, como pedras e madeira. A ideia deu tão certo que ela começou o seu próprio empreendedorismo, com uma loja virtual com itens manuais para as crianças, chamada Maternar.te.

Em um papo especial neste Dia Internacional da Mulher, ela conta com detalhes como foi descobrir o seu ramo profissional a partir da maternidade e a importância de que mães não se enxerguem como inimigas no meio empreendedor: mas parte de uma engrenagem que, sempre quando uma gira, todas se movimentam junto.

  • Confira o relato completo: 

    “Em 2016, quando entrei na faculdade de Design de Produto, meus professores falavam muito de empreendedorismo e era um assunto que me interessava bastante. Então, desde o primeiro ano do curso, eu tinha em mente que queria ser uma empreendedora. Só que em 2018, sem planejar e com poucos meses de namoro, eu engravidei e me vi obrigada a trancar a faculdade, porque gostaria de me dedicar pelo menos os dois primeiros anos a Serena e tive essa oportunidade.

    Neste período em que estive parada, comecei a pensar seriamente em trazer a maternidade para a minha vida profissional. Então, já estava muito forte em mim que, quando eu voltasse para a faculdade, iria sempre buscar por esse nicho. Não sabia exatamente em qual sentido dentro desse universo infantil, mas tinha certeza que ele estaria presente”.

    Os primeiros passos no empreendedorismo materno

    “Então, no começo de 2020, eu já estava muito ansiosa para voltar à graduação e trabalhar, inclusive para ter minha independência financeira. Destranquei o curso e o início das atividades letivas estava previsto para março. Só que, com duas semanas de aula, começou a pandemia.

    Me vi de novo, em casa – naquele primeiro momento não tinha ensino remoto, o que fez com que eu ficasse sem aula nos seis primeiros meses – e ainda me peguei sem poder fazer as atividades que nós geralmente fazíamos fora de casa.

    Isso fez com que eu começasse a pesquisar bastante sobre o que eu poderia fazer com a Serena e a preparar materiais diversos, pois ela já iria completar dois anos em maio do ano passado, e estava naquela fase de começar a falar, de se concentrar com mais facilidade e realmente se interessar pelas atividades. A partir disso, comecei a postar o processo no meu Instagram e ver que as mães gostavam muito de materiais diferentes.

    Passei a estudar mais sobre o desenvolvimento infantil, como eu poderia estimular isso na minha filha e como seria interessante poder fazer isso por outras crianças… E foi assim, nesse cenário, que a Maternar.te nasceu, ainda em maio de 2020″.

    Foco na natureza e no sustentável

    “Começou com um material de pedrinhas encantadas que eu fiz para a minha filha, que são para contar histórias. Foi uma ideia que tive a partir de uma inspiração que eu vi no Pinterest e que muitas mães se interessam. Então, decidi começar a aceitar encomendas.

    O primeiro kit que eu lancei foi esse, de “histórias encantadas”, e a partir dele foram surgindo diversas ideias e com outros tipos de materiais, como jogo da memória, jogo da velha, ciclo de vida (algo que as mães gostam e as crianças se interessam muito), e materiais educativos que visão estimular o aprendizado de forma lúdica.

    E todos os produtos são voltados para materiais da própria natureza, que sejam sustentáveis, e que fujam da mesmice que vemos com o plástico, exatamente para que durem para vida toda e cresçam junto com a criança.

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    Mães que apoiam outras mães

    “A primeira compra aconteceu de uma maneira muito natural e, inclusive, fiquei muito orgulhosa de como as coisas caminharam. Inicialmente, eu postava o que criava para a Serena no Instagram e foi assim que duas mães, do Espírito Santo, com quem eu já tinha uma troca de atividades pelas redes sociais, viram e me perguntaram se eu faria para elas porque não conseguiriam desenhar nas pedras.

    Eu fiz e, logo depois, coloquei na minha rede que eu estava aceitando encomenda e foi algo impressionante. Já nas duas primeiras semanas, eu tinha em torno de 15 a 20 pedidos e aquilo me deixou realmente muito impressionada. Acredito que a pandemia tenha impulsionado esse movimento porque era o momento que as mães estavam em casa, cuidando dos filhos enquanto trabalhavam e precisando de materiais para utilizar com eles, já que muitos estavam sem aula.

    E claro, tem as redes sociais e por que eu acho que elas tornam o empreendedorismo tão acessível: a possibilidade de compartilhar. Quando essas duas mães receberam os pedidos, elas divulgaram e assim foi indo em cadeia. Tanto que, quando eu comecei em maio de 2020, eu tinha em torno de 500 seguidores na minha página. No final do ano, eu terminei com 2.500. Eu não esperava esse alcance”.

  • O trabalho que está por trás e poucos enxergam

    “Com dois meses aceitando encomenda, foi quando eu criei minha logo marca e a minha identidade visual, porque o alcance do público foi algo extremamente rápido, mas a empresa foi tomando a forma que tem hoje aos poucos. Inclusive, ainda tem muitos pontos que eu preciso executar, como a logística de site. Mas estou muito feliz com o resultado que venho ganhando.

    Até mesmo porque eu brinco que é uma “euquipe”, já que a relação das clientes é direta comigo, sou eu quem busco os materiais, executo as encomendas, a parte de empacotar e enviar pelo correio, calcular o frete, e também as redes sociais. Além de, claro, a maternidade.

    O preço valoroso da sinceridade

    “Só que não é fácil empreender e ser mãe em tempo integral. É difícil conciliar o tempo entre encomendas, cuidar da Serena, fazer todos as tarefas tanto relacionadas a ela quanto as de casa. É um verdadeiro malabarismo! Mas eu busco sempre passar isso para as outras mães, ser transparente com elas.

    Eu peço um tempo para fazer as encomendas, já que com todas as adversidades – como a pandemia e o fato da minha filha não estar na escola – não consigo fazer pronta-entrega. Além de ser muita dedicação em cima do processo por ser um trabalho manual e artesanal.

    Então, reforço que fácil não é, mas é possível, principalmente quando temos amor ao que estamos fazendo. É isso que me fez não querer desistir ou parar com as encomendas. E foi graças a maternidade que eu descobri não a parte empreendedora em si, mas o caminho profissional que eu queria seguir: o de produzir jogos educativos para as crianças”. 

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    E por que “maternar.te”? 

    “Já o nome da marca tem duplo sentido. É “maternar” com “arte”, mas é também sobre olhar para si mesma, pois eu acredito que cada mãe tem um estilo de maternar diferente e que é perfeito para ela – pois busca sempre o melhor para a criança.

    Inclusive, desde que eu comecei a marca, algumas mães vieram falar o quanto elas se sentiam inspiradas e com desejo de começar a empreender. Isso é muito legal, assim como compartilhar o trabalho de outras mães, porque é sempre para somar.

    O erro é quando nós, mulheres, nos vemos como concorrentes. Não é bem assim. Quando você compartilha o trabalho de outra mãe, você está fazendo esse mercado, que é tão importante para nós, girar. Então, o grande ponto é entender que estamos todas no mesmo barco”.

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